“Se chover, não se pode apanhar, estraga-se tudo”, alertam produtores de morango de Mirandela

Produtores de morango de São Pedro Velho, no concelho de Mirandela, alertam para o impacto da chuva prevista nos próximos dias. Os agricultores receiam perdas devido à humidade e às variações de temperatura, que podem afetar um fruto muito sensível. Apesar dos receios, garantem que a qualidade da produção deverá manter-se.
Agência Lusa
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07 mai. 2026, 10:17

A chuva prevista para os próximos dias pode comprometer a produção do morango de São Pedro Velho, aldeia do concelho de Mirandela, onde por ano são produzidas cerca de 100 toneladas do fruto, admitiram esta quinta-feira produtores à agência Lusa.

Manuel Andrade tem cerca de 30 mil pés, do famoso morango produzido em São Pedro Velho e, por ano, chega a colher entre 20 e 22 toneladas do fruto, que se distingue pela sua textura e doçura.

“O microclima, os terrenos, criam açúcares, com a fibra que lhe dá o paladar e a textura bonita (…) Temos terras com muito cálcio”, afirmou, lamentando de imediato que este ano possa ter algumas perdas.

Apesar de ter a produção em estufim, pequenas estufas, o sol intenso que veio no mês de abril fez queimar algum morango e a chuva prevista para os próximos dias também não é favorável.

“Temperatura mais alta do que aquela que devia estar e a condensação debaixo dos túneis, a humidade com o calor, acaba por estragar”, disse o produtor, que começou a apanha do fruto na segunda semana de abril e prevê que até junho ainda haja muito trabalho pela frente, admitindo que “tudo pode acontecer daqui para a frente”.

Armindo Alves é outro dos produtores de morango nesta aldeia do concelho de Mirandela. Com a campanha já a meio, diz estar a correr “normal”, mas não quer, para já, fazer contas à quantidade de morangos que poderá colher.

“O tempo parece que não nos vai ajudar muito este ano. Dão muita chuva. Se chover, não se pode apanhar, estraga-se tudo. É um produto delicado. Por enquanto, ainda não estragou nada, mas se continua assim, muita humidade, começam a apodrecer”, disse o agricultor.

Embora prevejam algumas quebras, os produtores garantem que a qualidade não ficará comprometida.

“Em termos de qualidade é boa. Os terrenos também permitem. São muito bons estes terrenos para ele [morango], são férteis”, afirmou Armindo Alves.

No fim de semana, o morango de São Pedro Velho estará em destaque na feira, que todos os anos se realiza na aldeia, e onde chegam a ser compradas algumas toneladas.

“Duas toneladas para a feira. Vamos ver o tempo, as previsões que temos de tempo não estão a querer ajudar. Vamos tentar”, disse Manuel Andrade.

O morango de São Pedro Velho também pode ser comprado em vários estabelecimentos da região transmontana.

Os morangos de Manuel Andrade ficam em Mirandela e nos concelhos vizinhos, como Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros. Também a chegou a fazer distribuição em Chaves, onde disse já ter vendido “muito”, mas os revendedores têm encomendado o “dobro ou o triplo” e, por isso, a produção já não é suficiente para chegar ao distrito de Vila Real.

O agricultor, já com 65 anos, disse que se tivesse mais produção, “vendia-se muito mais”, tendo em conta a grande procura.

Apesar de ter terreno para aumentar a plantação de morango, a mão-de-obra, “que é pouca e não é qualificada”, impede o crescimento do negócio.

“Nem temos mão-de-obra para podermos fazer produto, porque a gente é pouca na nossa zona e ninguém quer fazer nada. Com 65 anos já não posso, os filhos também não querem, a área deles não é esta, fizeram os cursos deles e têm outros trabalhos, mas seria muito bom para a região, para a aldeia, para todos aqui, que alguém desse continuidade a isto, mas não é fácil dar, porque não temos mão-de-obra”, lamentou.

Nesta aldeia, a produção do morango mantém-se pelas mãos das pessoas mais velhas, como Manuel Andrade e Armindo Alves, que até já está reformado.

“Isto é um bocado amor à camisola, porque (…) já fica um pouco caro”, afirmou Armindo Alves, quando questionado se esta cultura ainda é rentável.

A caixa do morango pode ser vendida a 10 euros ao consumidor final, mas quanto aos revendedores, os agricultores só conseguem praticar preços entre os quatro e os oito euros.

“Temos preços mais ou menos idênticos aos do ano passado. Ao revendedor tenho sete ou oito cêntimos a mais o quilo. Não cobre a inflação. É para fazer o acerto mais nas contas. Em vez de se ganhar cinco, ganha-se quatro. Para cobrir as despesas e que vá ficando algum para fazermos a nossa via”, rematou Manuel Andrade.

Em São Pedro Velho chegam a ser produzidas, por ano, cerca de 100 toneladas de morango.