“Se deixarmos de fazer teatro por amor, então acaba tudo”: 28 anos de palco na Ajidanha a celebrar a cultura no Interior
Antes das luzes ligarem e as cortinas abrirem, há tudo o resto. Ensaios longos, repetições incansáveis e as decisões que raramente chegam ao público. É nesse antes que Rui Pinheiro encontra a paixão pelo teatro e pela Associação de Juventude de Idanha-a-Nova (Ajidanha), no distrito de Castelo Branco, da qual é presidente da direção.
No Dia Mundial do Teatro, assinalado esta sexta-feira, 27 de março, a conversa soa menos a celebração formal e mais a um testemunho de vida. Entre memórias, viagens e décadas de palco e o teatro que continua a ser uma escolha contínua — e não apenas como profissão.
A Ajidanha nasce de um impulso que começou dentro da Escola Superior de Gestão de Idanha-a-Nova: “tínhamos lá um grupo de teatro onde fizemos espetáculos (…). Percebemos que aquilo tinha pernas para andar”, recorda Rui Pinheiro. O que era, à partida, um projeto académico rapidamente atingiu outra dimensão. Em 1998, ganha forma própria e transforma-se numa associação independente, numa tentativa de garantir autonomia e ultrapassar as limitações dos orçamentos estudantis. Nós últimos 28 anos, a associação que se dedica a várias áreas, tem-se afirmado, sobretudo, pelo trabalho teatral, construindo uma identidade que já chegou aos palcos internacionais.
“Uma bola de neve” internacional
A Ajidanha, sediada no interior, acabou por construir um percurso internacional pouco previsível. Os vizinhos espanhóis foram a porta de entrada, através de intercâmbios regulares com a região de Extremadura, sendo a “a única companhia estrangeira que faz isso todos os anos”, sublinha o presidente da associação.
Depois vieram outros palcos internacionais, dentro e fora da Europa — Canadá, Cuba, Brasil, Itália, Estónia e Alemanha — num percurso que cresceu de forma quase espontânea e até orgânica. “Isto depois é uma bola de neve (…). Quando estivemos no Canadá um senhor de Itália viu-nos, gostou e indicou-nos para um festival em Itália”, explica Rui Pinheiro.
Essa circulação internacional acabou também por influenciar a própria criação artística. Um dos exemplos mais claros é o “À driva”, um dos espetáculos mais viajados da companhia, que tornou -se quase um cartão de visita da companhia, porque “tem uma linguagem muito universal, é muito físico” descreve.
Equipas pequenas, palco grande
Apesar da distância dos grandes centros culturais, o presidente afirma não sentir abandono institucional, dado ao apoio constante da união de freguesias e do município. No entanto, reconhece limites claros: “temos outros projetos que gostaríamos de avançar (…) não havendo apoios, não avançamos”.
Já a estrutura artística é maioritariamente reduzida. “Os nossos espetáculos têm elencos entre quatro e 2 atores ou atrizes, permitindo facilitar a circulação e a internacionalização da companhia e das suas peças. No entanto, o maior desafio não está no palco, está antes na renovação, porque “é muito difícil trazer sangue novo (…), o teatro exige muitas horas de ensaio e, os jovens nem sempre têm paciência”.
Um projeto de vida
Aos 52 anos e com mais de duas décadas ligadas ao projeto, Rui Pinheiro fala com distância emocional diferente daquela que tinha no início. “Acredito que se consigam criar condições para continuar (…) quando eu já não estiver, este projeto tem de ter futuro” acrescenta, reforçando que "se deixarmos de fazer teatro por amor, então acaba tudo".
Curiosamente, o Dia Mundial do Teatro não é vivido com grande formalidade dentro da associação “na prática nunca fizemos grandes celebrações porque estamos sempre com peças durante o ano todo”, ainda assim, o significado não se perde e o presidente da direção defende que é importante recordar a data e celebrar a arte do teatro.