A Capital da Cereja celebra o ouro vermelho: "As pessoas não visitam apenas uma festa. Entram na aldeia, nas suas histórias"

Alcongosta prepara-se para receber milhares de visitantes entre 12 e 14 de junho. A cereja é rainha na localidade que se afirma berço deste fruto, mas, durante os três dias em que se celebra o “ouro vermelho” da terra, há também animação de rua, concertos e várias atividades.
 
Ana Ribeiro Rodrigues
Ana Ribeiro Rodrigues Editora-executiva
12 jun. 2026, 08:00

Foi onde se plantaram os primeiros pomares ordenados no concelho do Fundão. É a aldeia onde estão instaladas a Casa da Cereja e a única Quinta Ciência Viva do país - das Ideias e da Cereja. Entre esta sexta-feira e domingo as ruas de Alcongosta são palco da Festa da Cereja, evento que promove o fruto à volta do qual tudo gravita e que apresenta as várias formas em que se pode desdobrar, sejam produtos gastronómicos ou artesanato.

A cereja é rainha na localidade que se afirma berço deste fruto, mas, durante os três dias em que se celebra o “ouro vermelho” da terra, há também animação de rua, concertos, cozinha ao vivo para crianças e público em geral, a caminhada Rota da Cereja e atividades paralelas, como a possibilidade de percorrer as zonas de maior concentração de pomares num comboio turístico.

Os cerca de 50 mil visitantes esperados são recebidos em casa dos residentes e a azáfama tem sido muita por estes dias. Trata-se da decoração, preparam-se os produtos à base de cereja, montam-se bancas, utilizam-se antigos objetos relacionados com a apanha do fruto para tornar mais acolhedores os rés-do-chão que durante três dias ganham outra vida.

 

 

“Carolice” de quem prepara a celebração à cereja

É o caso de Paulo Taborda e da família, que há mês e meio trabalham na montagem do espaço de restauração que desde a primeira edição, há vinte anos, criaram na Festa da Cereja de Alcongosta, a Cerejinha, na garagem de casa. Ao mesmo tempo que articulam com os seus empregos e, nesta fase, também com a colheita do fruto.

“Fazemos isto desde o início, por carolice, porque é uma coisa que dá muito trabalho. Isto é um sítio habitacional, temos de pôr e tirar tudo quando acaba, mas queremos contribuir para uma festa que se tornou emblemática, de que gente de todo o país fala e procura”, comenta, ao Conta Lá, Paulo Taborda, enquanto, ao lado do primo, Miguel, tratam da loiça, talheres e montam equipamento de refrigeração.

A poucos metros, Daniela Batista, filha, neta e bisneta de produtores de cereja, prepara a antiga garagem dos avós para os três dias de celebração que se avizinham. Lá dentro, entre licores, doces, bebidas à base de cereja, há antigas caixas de fruta utilizadas outrora na campanha, placas da carrinha em que o avô vendia a fruta e outros pormenores de uma localidade que tem uma ligação umbilical ao fruto rubro.

“A cereja é muito mais do que um fruto para Alcongosta. Faz parte da identidade da aldeia, da sua história e da vida de muitas famílias, tal como a minha”, realça Daniela Batista.

A farmacêutica faz questão de participar ativamente no evento comunitário por entender que “esta festa é uma excelente forma de mostrar aquilo que Alcongosta tem de especial”. “É um momento em que as pessoas se juntam, em que muitos regressam à terra e em que recebemos com orgulho quem nos visita. Além da importância para a promoção da aldeia e da região, a festa tem também um papel muito importante na preservação das tradições e no reforço do espírito de comunidade”, realça, em declarações ao Conta Lá.

 

 

“As pessoas não visitam apenas uma festa”

Paulo Taborda, vendedor de produtos ultracongelados, considera que um dos aspetos que os visitantes consideram atrativo e que tornam a Festa da Cereja do Fundão peculiar é ser feita com o empenho de quem vive o universo da cereja por dentro, desde o berço, e no local onde ela tem tradição.

“Para ser característica tem de ser assim, porque se fosse para um sítio onde fizessem um circuito com barracas e barraquinhas, perdia-se completamente o conceito”, opina Paulo Taborda.

Uma opinião partilhada por Daniela Batista. “As pessoas não visitam apenas uma festa. Entram na própria aldeia, nas suas ruas, nas suas casas e nas histórias de quem cá vive”, acentua. No seu caso, salienta ser mais do que a antiga garagem dos avós.

“É um espaço com muitas memórias para a minha família e tem um significado especial poder voltar a vê-lo encher-se de vida, de conversas, de risos e de pessoas. Essa ligação é algo que não se consegue reproduzir noutro tipo de eventos. É isso que dá autenticidade à festa”, acrescenta.

 

 

“Calha na altura da melhor cereja do Fundão”

O presidente da Junta de Freguesia de Alcongosta, João Nuno Rodrigues, informa que este ano vão abrir mais de 60 espaços de bebidas, gastronomia, artesanato e bancas de cereja acabada de apanhar e adianta que vai ter uma vertente mais acentuada de “teatros de rua e interativos”.

O autarca reforça também o caráter identitário do evento. “As pessoas trabalham ao longo do ano, quer nos produtos, quer no artesanato, para apresentarem e surpreenderem na Festa da Cereja e há sempre novidades a nível de produtos”.

Segundo João Nuno Rodrigues, o evento, que se realiza no segundo fim de semana de junho, este ano, em virtude das condições meteorológicas, coincide com o momento em que há variedade e qualidade, e garante que “vai haver cereja com força, porque apanha o auge da campanha”.

“Este ano apanha a plena produção da cereja, o centro da campanha, quando as variedades estão com mais calibre, mais doces. Calha na altura da melhor cereja do Fundão”, assevera.

O edil diz que, olhando para as anteriores edições, são esperadas cerca de 50 mil visitantes, não apenas de todo o território nacional como de outros países. E se no passado os operadores turísticos contactavam para marcarem as excursões, já passaram a incorporar a Festa da Cereja na sua agenda e organizam a viagem autonomamente, o que tornou mais difícil ter uma noção exata dos autocarros esperados, largas dezenas diariamente.

Das muitas variedades de cereja ao natural a sangria de cereja, gelados de cereja, licores de cereja, de pés de cereja, de caroços de cereja, espetadas de cereja com chocolate, granizados de cereja, pão de cereja, pastéis de cereja, empadas de cereja, bolos de cereja, bombons com cereja e muitos outros produtos derivados do fruto podem ser degustados entre 12 e 14 de junho.

Além de vários grupos de animação de rua, na sexta-feira, em frente à Igreja Matriz da aldeia, atua a Moustache Brass Band e sábado, às 22:00, o músico João Só.