A transumância, a agricultura e o turismo de natureza: Castro Daire vê nos recursos naturais o seu motor

Esta terça-feira, a emissão da Estrada Nacional 2 chegou a Castro Daire. Em direto do KM 136 da Nacional 2, o desafio de valorizar o território, preservar as tradições e criar novas oportunidades económicas esteve em debate.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
28 abr. 2026, 13:09

À semelhança de outros territórios do interior, Castro Daire enfrenta o desafio de transformar recursos em valor económico sustentável. Ainda assim, o concelho tem vindo a afirmar uma estratégia assente na identidade local, na diversificação da oferta e na valorização das suas gentes.

Paulo Almeida, presidente da Câmara Municipal de Castro Daire, sublinha que o território dispõe de vários ativos, como “as termas, o rio e o património edificado”. A resposta passa por integrar tudo numa oferta mais ampla: “o município desenvolve o conceito de pacotes turísticos através dos quais se pode ter acesso a várias experiências”.

A promoção tem acompanhado essa lógica. “Temos estratégias de promoção em feiras, mas também apostamos no marketing digital”, explica o autarca, acrescentando que o caminho seguido tem reconhecimento: “Ganhámos um prémio mundial em destinos sustentáveis”. A sustentabilidade, garante, é hoje central na forma como o concelho se apresenta.

No setor do bem-estar, as Termas do Carvalhal assumem um papel estratégico. Localizadas a 100 metros da Estrada Nacional 2 e a 100 metros do nó de acesso à A24, estão a ser alvo de requalificação com um investimento de 8,5 milhões de euros. 

“Irá colocar-nos num patamar de grande qualidade no setor termal”, afirma Paulo Almeida, com a ambição de posicionar o espaço como “um dos melhores sítios do país para férias e para quem procura tratamentos de saúde e bem-estar”, sem esquecer “a nossa identidade e a nossa essência”.

Questão económica

Essa ligação à identidade atravessa também o plano cultural. Celeste Almeida recorda que “foi nas aldeias da serra que apanhei o gosto por falar das tradições”, sublinhando como o mundo rural mudou: “Era uma realidade que nada tem a ver com agora quando comecei a lecionar”.

A autora tem dedicado parte da sua obra à memória da transumância, uma prática entretanto desaparecida. “A transumância acabou no final do século XX”, explica, descrevendo um sistema organizado: “O rebanho transumante era formado por várias cabeças de gado e um pastor organizava o rebanho. A transumância tem uma hierarquia”.

As histórias dessa prática permanecem vivas, mas o futuro é incerto. O pastor Carlos Ferreira iniciou-se nestas viagens aos 10 anos. “Tenho um filho e uma neta. Gostam disto, mas não como eu”, admite Carlos Ferreira. “É uma tradição à qual não sei se os mais jovens darão continuidade”. A questão económica é central. “Não se consegue viver só disto”, diz o pastor, apesar de alguma melhoria recente no preço da carne. “Continuo nisto por paixão”.

Perante este cenário, o município tem procurado intervir. Paulo Almeida alerta: “se não tivermos pessoas, os territórios ficam abandonados”. E acrescenta que, sem rebanhos e pastores, estas práticas desaparecem.

Têm sido implementadas medidas de apoio e, mais do que isso, há uma mudança de perspetiva, "uma viragem de paradigma na forma como se olha para o território”. Os rebanhos são hoje vistos também como essenciais para a prevenção de incêndios.

Valorizar a agricultura é, por isso, fundamental, até porque "quem vive da agricultura costuma ser visto como alguém com menos notoriedade. É importante que os jovens percebam que é um setor digno”. Ao mesmo tempo, Castro Daire tem apostado na dinamização económica através de eventos: “Tivemos uma prova de corrida de montanha com a elite mundial”, destaca Paulo Almeida. Em breve, abrirá também um parque de aventuras. 

Momento de viragem

Os resultados começam a surgir. “Estamos a crescer acima da sub-região”, afirma, vendo nesses dados “motivação para continuar”. A Estrada Nacional 2 surge como outro ativo relevante. Pedro Pontes, diretor de Estratégia e Planeamento do Turismo do Centro considera que esta rota “é um dos ativos turísticos de excelência” e acredita que Castro Daire soube tirar partido dessa oportunidade desde cedo.

Também o turismo de natureza tem ganho destaque. Paulo Matos, comandante dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire aponta o rio Paiva como “o rio de montanha mais peculiar do território nacional”, destacando atividades como rafting, canoagem ou canyoning, possíveis também graças aos seus afluentes, como o rio Pombeiro.

No plano ambiental, Marília Almeida, da Associação de Produtores Florestais de Montemuro e Paiva recorda que a associação, criada em 2002, tem hoje equipas de sapadores florestais e intervenção na apicultura, contribuindo para a gestão sustentável do território.

Entre tradição e inovação, o concelho procura afirmar-se. O caminho não está isento de obstáculos, mas há sinais de transformação. Como conclui Paulo Almeida, “este é o momento de viragem”.