ACIB alerta: empresas têxteis do Cávado e Ave "em risco"
A Associação Comercial e Industrial de Barcelos e do Vale do Cávado (ACIB) alertou esta terça-feira, 10 de março, que o acordo comercial em negociação entre a União Europeia e a Índia, a par da subida dos custos da energia associada à instabilidade geopolítica no Médio Oriente, poderá afetar a competitividade da indústria têxtil portuguesa.
A indústria têxtil continua a ser um dos principais pilares da economia nas sub-regiões do Cávado e Ave, que concentram uma parte significativa das empresas (cerca de 39% do total nacional), do emprego e da faturação do setor em Portugal. São milhares de postos de trabalho e mais de metade da faturação portuguesa da indústria têxtil numa forte concentração que torna também a região particularmente vulnerável a mudanças no mercado internacional.
Em causa está sobretudo a eventual eliminação das tarifas aduaneiras aplicadas aos produtos têxteis indianos. Caso o acordo avance nos termos atualmente discutidos, os produtores daquele país poderão ganhar vantagem no mercado europeu, aumentando a concorrência para as empresas europeias, incluindo as portuguesas.
Estimativas citadas pela associação apontam para um crescimento anual de cerca de 25% nas exportações têxteis da Índia para a União Europeia, impulsionado pela procura de grandes grupos internacionais de retalho. Entre as empresas que poderão reforçar o aprovisionamento naquele país encontram-se cadeias como Zara, IKEA, OVS, JYSK, Aldi ou C&A. Segundo a ACIB, o setor têxtil acabou por sair prejudicado nas negociações comerciais, que terão favorecido áreas com maior peso político e industrial na Europa, como a indústria automóvel.
Exportações dependentes do mercado europeu
A ligação ao mercado europeu reforça a exposição do setor a alterações nas condições comerciais. As sub-regiões do Cávado e Ave exportam cerca de 2.700 milhões de euros, sendo que 75,5% desse valor tem como destino países da União Europeia.
Em concelhos como Barcelos essa dependência é ainda mais evidente. Cerca de 70% das exportações do município estão associadas à indústria têxtil, sobretudo ao vestuário de malha.
Grande parte da produção integra cadeias internacionais de fornecimento e depende de encomendas feitas por grandes grupos de retalho. Uma eventual redução dessas encomendas poderá repercutir-se ao longo de toda a fileira produtiva, atingindo sobretudo pequenas empresas que trabalham em regime de subcontratação.
Uma concentração relevante na indústria nacional
O peso que o setor assume nestas duas sub-regiões ajuda a explicar a preocupação das empresas perante estas mudanças.
Em 2024 existiam 11.965 empresas têxteis em Portugal, das quais 2.210 localizadas no Cávado e 2.494 em Ave. O tecido empresarial é dominado por unidades de pequena dimensão. No país, 81,7% das empresas são microempresas, enquanto 14,1% são pequenas empresas. As empresas de média dimensão representam 3,9% e as grandes empresas apenas 0,3%.
Esta predominância de empresas de menor dimensão aumenta a exposição do setor a oscilações do mercado internacional, já que muitas destas estruturas têm menor capacidade financeira para absorver aumentos de custos ou quebras nas encomendas.
Mais de metade do emprego do setor
O peso do têxtil na região é também evidente no emprego. A indústria emprega 118.469 trabalhadores em Portugal, sendo que uma parte significativa destes postos de trabalho se concentra no Norte do país.
Em Ave trabalham 36.781 pessoas no setor, enquanto no Cávado estão 23.962 trabalhadores. Apesar de constituírem a maioria das empresas, as microempresas concentram apenas 15% dos trabalhadores. A maior fatia do emprego está nas empresas de média dimensão, responsáveis por 40% dos postos de trabalho, seguidas pelas pequenas empresas com 31% e pelas grandes empresas com 14%.
Além disso, a concentração regional também se reflete na criação de riqueza. Em 2024, a indústria têxtil gerou 8.211 milhões de euros de volume de negócios em Portugal. Deste total, 3.169 milhões de euros foram gerados em Ave, o equivalente a 39% da faturação nacional, enquanto Cávado registou 1.642 milhões de euros, cerca de 20% do total.
Somadas, estas duas sub-regiões representam mais de metade do volume de negócios da indústria têxtil portuguesa, confirmando o peso determinante do Minho nesta atividade. A análise por dimensão das empresas mostra ainda diferenças relevantes na geração de riqueza. As empresas de média dimensão são responsáveis por 45% da faturação do setor, seguidas pelas pequenas empresas com 25%. As grandes empresas representam 22% e as microempresas apenas 8%.
Custos da energia aumentam pressão sobre as empresas
As empresas enfrentam também o aumento dos custos de produção. A ACIB alerta que a instabilidade geopolítica no Médio Oriente poderá provocar novas subidas nos preços da energia, um fator particularmente sensível para a indústria têxtil, onde muitos processos produtivos exigem elevado consumo energético.
O aumento da fatura energética reduz margens de lucro e dificulta a competitividade das empresas portuguesas face a países com estruturas de custos mais baixas, como a Índia ou a Turquia.
Perante este cenário, a associação defende a adoção de medidas que reforcem a competitividade e a capacidade de adaptação das empresas.