Agroecologia e dados combinam-se para semear projeto agrícola premiado em Beja

A distinção atribuída à Sinvepart destaca uma estratégia que combina tecnologia, práticas agroecológicas e monotorização contínua, procurando equilibrar produção e sustentabilidade.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
31 mar. 2026, 08:00

Num contexto em que a agricultura enfrenta pressões crescentes devido às alterações climáticas e à escassez de recursos, modelos que procuram conciliar produtividade e sustentabilidade ganham destaque. Em Beja, a Sinvepart foi distinguida no Prémio Nacional de Agricultura por uma abordagem que alia tecnologia, gestão ambiental e viabilidade económica, posicionando-se como um exemplo de integração entre produção e regeneração do território.

“Na Sinvepart não se trata de um projeto isolado, mas de uma estratégia de longo prazo”, afirma Madalena Freire de Andrade, administradora da empresa, em conversa com o Conta Lá, explicando que o objetivo passa por garantir que as terras “estarão em melhores condições para os próximos 300 anos, tornando-as mais produtivas e mais resilientes face às alterações climáticas”. 

A partir desta orientação, a empresa estrutura a sua atividade numa lógica de gestão integrada das explorações, articulando diferentes dimensões da produção agrícola.

Integração entre produção e natureza

A estratégia combina tecnologia com práticas de base natural, integrando ferramentas de apoio à decisão com intervenções no território. “A biodiversidade, o solo e a água fazem parte da decisão agrícola e são ativos do próprio negócio”, sublinha a responsável, enquadrando uma abordagem em que os recursos naturais são considerados parte integrante da atividade produtiva.

No terreno, esta integração traduz-se na utilização de rega automatizada suportada por energia solar, monitorização por satélite e sistemas de apoio à decisão, bem como na criação de mais de seis quilómetros de sebes e corredores ecológicos, recuperação de linhas de água e instalação de habitats para polinizadores. Estas práticas são incorporadas na gestão diária das explorações, articulando produção agrícola e componentes ecológicas no mesmo processo.

Esta forma de atuação assenta na articulação entre diferentes técnicas e intervenções, procurando responder às exigências produtivas sem dissociar a gestão dos recursos naturais.

Monitorização e resultados

A recolha e análise de dados assumem um papel central na tomada de decisão, permitindo ajustar práticas com base em indicadores concretos. “Medir é central para a forma como gerimos”, afirma Madalena Freire de Andrade, enquadrando uma estratégia baseada na monitorização contínua.

Este acompanhamento inclui a monitorização regular da biodiversidade com apoio externo, o controlo detalhado dos consumos de água, energia e combustíveis e a análise do estado das culturas através de imagens de satélite. A estes dados juntam-se estudos de risco climático e ecológico, bem como o cálculo da pegada de carbono e a monitorização dos ecossistemas.

Entre os resultados apresentados está um balanço carbónico negativo, associado às áreas florestais e às práticas adotadas, sendo a evolução destes indicadores ao longo do tempo um dos elementos centrais de avaliação do modelo.

A estratégia inclui princípios de economia circular, com reaproveitamento de subprodutos agrícolas, como cascas de amêndoa, folhas, restolhos e podas, que são reutilizados na alimentação animal ou incorporados no solo como matéria orgânica. Este modelo integra também práticas como o pastoreio na vinha para controlo de infestantes.

“A sustentabilidade só funciona se for também económica”, sublinha, destacando a necessidade de garantir a viabilidade da atividade. A abordagem passa pela otimização da utilização de recursos e pela redução de desperdícios, associadas à valorização da produção, incluindo através de certificações que permitem melhorar o posicionamento no mercado.

Entre reconhecimento e desafios

A implementação deste modelo implicou mudanças ao nível das práticas e da organização do trabalho, exigindo adaptação por parte das equipas. “A maior dificuldade foi a mudança de mentalidade”, admite a administradora, referindo que o envolvimento aumentou à medida que começaram a surgir resultados.

Este processo implicou a adoção de novas práticas e uma maior atenção à análise de dados, num contexto em que a tomada de decisão se baseia em informação técnica mais detalhada.

Perante críticas de que alguns projetos sustentáveis podem assumir uma dimensão mais comunicacional do que estrutural, a responsável rejeita essa leitura e defende que o impacto se verifica na operação, afirmando que, “no nosso caso, é simples: somos produtores e vendemos maioritariamente a granel, não ao consumidor final. Não temos incentivo direto para comunicar”.

A empresa considera que o modelo pode ser adaptado a diferentes realidades produtivas, ajustando-se à escala e ao contexto de cada exploração. “Ninguém fica de fora. Pode ser aplicado por qualquer produtor, adaptado à sua escala e realidade”, defende Madalena Freire de Andrade, destacando a flexibilidade da abordagem.

Ainda assim, trata-se de um processo exigente, que implica investimento, tempo e capacidade de aprendizagem contínua, fatores que podem influenciar a sua adoção em diferentes contextos.

A distinção atribuída à Sinvepart reconhece uma abordagem que integra diferentes dimensões da atividade agrícola numa lógica única de gestão. Porém, a aplicação deste modelo a uma escala mais ampla permanece dependente da capacidade de adaptação dos produtores, dos recursos disponíveis e da continuidade dos resultados ao longo do tempo, num contexto em que o setor enfrenta desafios estruturais crescentes.