Ana Catarina Martins: “Nunca foi tão fácil comunicar. Nunca foi tão difícil conversar”

Ana Catarina Martins construiu uma carreira a ensinar pessoas a comunicar, mas acredita que o verdadeiro desafio dos nossos dias é outro: voltar a aprender a conversar. Em entrevista sem filtros ao Conta Lá, a especialista em comunicação falou sobre o percurso que a levou do jornalismo ao empreendedorismo, refletiu sobre o impacto das redes sociais nas relações humanas e abordou a depressão que a obrigou a repensar prioridades.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
14 jun. 2026, 08:00

Ana Catarina Martins passa os dias a ensinar pessoas a comunicar. Sobe a palcos, modera debates, conduz podcasts, forma líderes e ajuda profissionais a encontrarem a sua voz. Mas a pergunta que mais a inquieta não tem que ver com algoritmos, estratégias de conteúdo ou técnicas de oratória. Tem que ver com algo mais simples: será que, num mundo onde toda a gente fala, ainda sabemos conversar?

Aos 34 anos, a especialista em comunicação construiu uma carreira precisamente num dos territórios mais valorizados da atualidade: a visibilidade. Ainda assim, depois de mais de uma década a trabalhar com marcas, influenciadores e líderes, acredita que a facilidade com que comunicamos pode estar a esconder uma dificuldade crescente em escutar, refletir e lidar com o contraditório. “Nunca foi tão fácil comunicar, mas nunca foi tão difícil conversar”, resume. 

Para Ana Catarina Martins, as redes sociais multiplicaram as possibilidades de emitir mensagens e de chegar a novos públicos, mas não criaram necessariamente mais espaços de diálogo. Pelo contrário: muitas vezes reforçam bolhas, confirmam opiniões pré-existentes e reduzem a capacidade de construir ideias em conjunto.

Da precariedade à construção de uma carreira própria

O seu percurso até aqui esteve longe de ser linear. Formada em Ciências da Comunicação, com especialização em jornalismo, terminou o curso já com a sensação de que dificilmente conseguiria construir o futuro que desejava dentro da profissão para a qual tinha estudado. Não porque deixasse de acreditar na importância do jornalismo — que considera “essencial para a nossa democracia, para a nossa liberdade e para a nossa vida enquanto sociedade” — mas porque o confronto com o mercado de trabalho foi duro. Entre estágios não remunerados, propostas precárias e salários insuficientes para viver em Lisboa, percebeu rapidamente que teria de encontrar outro caminho.

A solução nasceu menos de um sonho empreendedor e mais de uma necessidade prática. Regressou ao Algarve, onde nasceu, fez contas à vida e começou a trabalhar na gestão de redes sociais. “Precisava de encontrar uma solução, porque aquilo que me estavam a apresentar não era opção”, recorda. Aos 21 anos criou a sua própria empresa, a Creators, e começou a bater à porta de negócios locais, oferecendo serviços numa área que, na altura, ainda estava longe da dimensão que tem hoje.

Foi também nessa fase que percebeu algo que acabaria por orientar toda a sua carreira: “As pessoas gostam de se relacionar com pessoas.” A observação levou-a a afastar-se gradualmente da comunicação de marcas corporativas para se dedicar à construção de marcas pessoais. Primeiro vieram os influenciadores, depois líderes empresariais, figuras públicas e profissionais que procuravam comunicar melhor. Durante anos trabalhou nos bastidores, ajudando outras pessoas a construir audiências e reputações. Só mais tarde decidiu ocupar ela própria o espaço público.

A mudança ganhou força quando percebeu que tinha algo mais para oferecer do que estratégias de comunicação. Depois de anos a estudar comportamento, influência e reputação, começou a sentir que podia contribuir para debates mais amplos sobre a forma como comunicamos, consumimos informação e nos relacionamos uns com os outros. Foi essa convicção que a levou a sair progressivamente do backstage e a assumir um papel mais visível, seja através dos conteúdos que produz, das formações que conduz ou dos palcos onde hoje é convidada a falar.

Ana Catarina Martins

 

Quando comunicar não significa conversar

Se há uma ideia que atravessa toda a reflexão de Ana Catarina Martins é a distinção entre comunicar e conversar. Para a especialista, nunca foi tão fácil produzir conteúdos, partilhar opiniões ou alcançar milhares de pessoas. O problema é que essa facilidade nem sempre se traduz em diálogo.

“Conversar implica eu ter de lidar com o contraditório”, explica. “Implica eu dizer-te uma coisa e lidar com aquilo que tu me vais trazer de volta.” Na sua perspetiva, as redes sociais criaram um modelo assente na criação de audiências e comunidades de afinidade, mas não necessariamente de espaços onde as pessoas pensem em conjunto ou desafiem as suas próprias convicções. O resultado é uma comunicação cada vez mais abundante, mas muitas vezes menos profunda.

A preocupação estende-se à forma como consumimos informação e discutimos temas públicos. Ana Catarina acredita que a sociedade está a cair numa simplificação excessiva dos problemas, favorecida por plataformas que recompensam mensagens rápidas, conclusões imediatas e posicionamentos absolutos. “Acho que, neste momento, estamos a cair no erro contrário”, afirma. “Estamos a simplificar tanto que acabamos por desvirtuar temas.”

Para explicar a ideia, recorre frequentemente à metáfora das cores. “Se tudo for apenas azul ou amarelo, desaparecem as tonalidades intermédias”, argumenta. “E quando desaparecem as nuances, perde-se também a capacidade de compreender a complexidade da realidade. É muito mais fácil encontrar uma justificação simples para um problema complexo.”

Na sua perspetiva, a comunicação tem vindo a cair numa espécie de paternalismo intelectual, onde se assume que as pessoas só conseguem prestar atenção a conteúdos extremamente simplificados. Ana Catarina discorda dessa ideia. “Eu estou a falar para pessoas inteligentes que ainda não entraram naquele tema. Não estou a falar para pessoas incapazes de pensar.” O desafio, defende, não é eliminar a complexidade, mas encontrar formas mais acessíveis de a explicar através de exemplos, histórias e analogias que convidem à reflexão ao invés de entregarem conclusões prontas.

Os bastidores da influência

Ao longo dos anos, o contacto próximo com o universo dos influenciadores permitiu-lhe observar de perto as oportunidades, mas também as contradições de uma indústria em crescimento acelerado. Durante algum tempo acreditou que poderia ajudar a equilibrar o debate público através do trabalho com criadores de conteúdo que partilhavam determinadas causas ou preocupações. Com o tempo, porém, começou a sentir desconforto com a forma como muitas decisões eram tomadas.

“Comecei a perceber que este universo não era saudável para mim, porque o dinheiro continua a ser o pilar central nas decisões estratégicas de comunicação”, admite. A proliferação de conteúdos relacionados com suplementos alimentares, apostas online ou produtos sem evidência científica levou-a a questionar até que ponto queria continuar naquele papel. A resposta passou por reclamar maior independência e concentrar-se na formação, na educação e na criação de conteúdos que estimulassem um consumo mais crítico da informação.

“Desconfia. Não acredites em tudo aquilo que te aparece nas redes sociais só porque a pessoa é simpática”, aconselha. Mais do que uma crítica aos criadores de conteúdo, a reflexão é dirigida ao próprio sistema de incentivos das plataformas digitais, onde a procura constante por atenção, alcance e rentabilidade tende a sobrepor-se à profundidade, ao rigor e à responsabilidade.

Essa mudança coincidiu também com uma maior exposição pública. Depois de anos a trabalhar atrás de grandes nomes, começaram a surgir convites para moderar eventos, participar em conferências ou subir a palco como oradora. Entre os projetos mais recentes estão participações na Web Summit e um podcast, intitulado ‘Vamos falar sobre…’, que desenvolveu para o Parlamento Europeu. Ana Catarina Martins não vê estas oportunidades apenas como reconhecimento profissional, mas como uma forma de levar determinadas conversas a mais pessoas.

Ana Catarina Martins

 

Quando o sucesso não chega

Apesar do crescimento profissional, o último ano trouxe um dos momentos mais difíceis da sua vida. Ana Catarina enfrentou uma depressão e viu-se obrigada a parar para repensar prioridades. A experiência surgiu numa altura em que, por fora, parecia ter alcançado muitos dos objetivos que perseguira durante anos: independência financeira, reconhecimento profissional, liberdade geográfica e a possibilidade de viver no Algarve enquanto desenvolvia projetos nacionais.

“Vendia o sonho, mas não o vivia propriamente”, admite. A frase resume uma sensação que a acompanhava há algum tempo. O ritmo de trabalho tornara-se insustentável e a vida que mostrava ao exterior estava longe de refletir aquilo que sentia internamente.

A contradição tornou-se impossível de ignorar. Tinha alcançado muitos dos objetivos que durante anos associara ao sucesso, mas sentia-se cada vez mais distante da vida que queria viver. A depressão obrigou-a a questionar não apenas a forma como trabalhava, mas também a narrativa de sucesso que tantas vezes domina as redes sociais. Aquilo que parecia uma vida ideal vista de fora estava longe de refletir o seu estado emocional.

Hoje fala de forma aberta sobre o diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada e sobre a importância da terapia e do acompanhamento psiquiátrico. Reconhece que a ansiedade foi, durante muitos anos, uma ferramenta de produtividade. “A minha taxa de esforço era gigante e a minha taxa de erro era muito baixa”, recorda. Mas percebeu também que o mesmo mecanismo que a ajudava a alcançar resultados podia tornar-se profundamente desgastante.

Aprender a aceitar o erro, impor limites e recuperar relações fora do ambiente digital tornou-se parte essencial desse processo. Não tem notificações ativas no telemóvel, procura controlar o ritmo a que responde aos estímulos digitais e faz questão de cultivar relações presenciais. “Nós precisamos destas relações da terra que nos fazem sentir que vivemos em comunidade”, afirma. “Nenhuma comunidade digital substitui totalmente o contacto humano e as experiências partilhadas no mundo real”.

Os limites da exposição

A maternidade trouxe uma nova camada de reflexão sobre comunicação, responsabilidade e exposição pública. Mãe de uma menina de dois anos, decidiu deixar de mostrar o rosto da filha nas redes sociais. A decisão não foi imediata. Durante algum tempo partilhou momentos da vida familiar, mas começou a questionar as consequências dessa exposição.

“O meu papel como mãe é ser provedora”, explica. “Se ela aparece e gera engagement que faz com que as marcas queiram pagar publicidade, então a minha filha, no fundo, está a trabalhar para mim.” A pergunta que se seguiu foi simples: “Eu quero isso?” A resposta foi não.

Desde então, a filha surge apenas de forma pontual e sem identificação. Mais do que uma questão de privacidade, a decisão está ligada à responsabilidade que considera inseparável de qualquer processo de comunicação. A mesma responsabilidade que procura transmitir nas formações, palestras e conteúdos que produz.

A educação da filha é também pensada à luz dessa preocupação. A leitura ocupa um lugar central na rotina familiar, assim como os museus, os espetáculos e as conversas, porque, para Ana Catarina Martins, é precisamente aí que começa a construção do pensamento crítico: na capacidade de questionar, interpretar e dialogar.

Ana Catarina Martins

 

Voltar a aprender a conversar

Atualmente, divide-se entre a formação, as palestras, a criação de conteúdos e a escrita de um livro dedicado às competências necessárias para navegar o mercado de trabalho. Está também a reconfigurar a Creators, a marca que fundou, para um modelo mais focado na criação de comunidade e networking. São projetos diferentes, mas ligados pela mesma convicção: a comunicação deve servir para criar valor, estimular pensamento crítico e aproximar pessoas.

Depois de anos a estudar a forma como as pessoas se mostram ao mundo, Ana Catarina Martins parece cada vez mais interessada naquilo que acontece fora do palco e para lá dos ecrãs. Talvez porque percebeu que a visibilidade, por si só, não resolve tudo, e que algumas das conversas mais importantes da vida continuam a acontecer longe dos algoritmos.