António Lobo Antunes deixou a nu os traumas de um país chamado Portugal. Devemos-lhe isso
O ponto de partida é sempre um bom local para começar: "O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante: A quotazinha da Sociedade, senhor doutor".
A expressão imediatamente em resposta a esta entrada não pode ser republicada aqui por este autor (uma pista, começa com "P... que..."), mas na primeira frase do primeiro livro de António Lobo Antunes - "Memória de Elefante" (1979) - já se encontram pistas para o que será o legado que o escritor deixa no momento da sua morte, aos 83 anos. Autobiográfico, exigente, irónico e com uma dose de autoreflexão que vira o espelho não só para si como também para uma certa sociedade que foi acompanhando e analisando ao longo da vida.
De acordo com a Professora Catedrática da Universidade de Coimbra, na área da Literatura Portuguesa, Ana Paula Arnaut, Lobo Antunes ofereceu ao imaginário português "uma escrita profundamente complexa que subverte toda e qualquer linear narrativa, e qualquer expectativa de lermos uma narrativa com princípio, meio e fim". Ao longo de 40 obras, marcadas pela depressão, com um resquício de humanidade a tentar sobressair, apresenta-nos "uma multiplicidade de vozes que obrigam o leitor a estar profundamente atento, sob o risco de perder a meada, e de não perceber os universos que são narrados e a profundidade das personagens que os povoam".
Desencanto
Filho do neurologista João Alfredo Lobo Antunes, António Lobo Antunes teve cinco irmãos e cresceu numa família rodeada de cultura e medicina. Entre 1971 e 1973 foi destacado como médico militar no leste de Angola, num período que passou o resto da vida a tentar expurgar sob a forma de escrita. As cartas que trocou nesta fase com a sua primeira mulher, Maria José Lobo Antunes, deram aliás origem a um livro essencial para descodificar a sua obra, "Cartas da Guerra" (2005). "A liberdade, percebes, não é um discurso. É o direito de estar contigo, de ver as nossas filhas crescerem, de não ter de fingir que este absurdo faz sentido", escreve.
São décadas de personagens difíceis, traumatizadas, que não raras vezes habitam ou estão intrinsecamente ligadas aos locais que marcaram a vida de Lobo Antunes. Como o já referido Hospital Miguel Bombarda, onde trabalhou como psiquatra, a Benfica em que nasceu a 1 de setembro de 1942, o Conde Redondo onde tinha o seu gabinete, a Nelas e a Serra de Sintra onde passou férias, ou a Guerra Colonial, onde viu o despedaçar de uma geração na luta por um ideal colonial decadente e que marcou para sempre não só a sua psique mas a de todo um povo.
"Vínhamos de um sítio onde a morte era a única certeza e encontrámos uma cidade que brincava aos soldados com flores nos canos das G-3", lê-se numa das suas obras seminais, "Fado Alexandrino" (1983), em que um conjunto de cinco homens (um Coronel, um Capitão, um Soldado, um Cabo e um Tenente) se econtram dez anos após o fim da guerra colonial para dissecar o desencanto que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.
Temas que marcaram de forma indelével a sua obra, assim como a Lisboa e a Grande Lisboa das zonas de marginalidade, dos bairros periféricos, do bas-fond, de pessoas e personagens imperfeitas, que viam a antiga capital do império como um antro de trauma e sujidade, onde as desilusões e as promessas falhadas viviam paredes meias com a dura realidade do dia a dia. Ou a burguesia das casas senhoriais decadentes que ainda viviam agarradas aos desígnios de grandeza que sempre julgaram ser sua pertença.
Obsessão
"A grande obsessão temática da ficção antoniana é a guerra colonial. É África, se quiser", elucida Ana Paula Arnaut. Quer "seja sob personagens africanas ou que vêm de África, ou que estiveram em África" ou pela presença, "ainda que muitas vezes de forma disfarçada, de marcas africanas na ficção de António Lobo Antunes". Para a académica, "outra grande obsessão temática é a questão dos afetos, dos desafetos, dos amores, dos desamores". Porque "há sempre essa dimensão negativa e escura nos jogos relacionais afetivos, ou melhor, desafetivos e desamorosos que as personagens dos seus romances vivem, não é?", questiona.
"Todas as personagens dos romances de António Lobo Antunes sofrem e agonizam", resume. E Ana Paula Arnaut acrescenta: "É correto dizer-se, pelo menos para mim é correto dizer-se, que as mulheres sofrem e agonizam mais do que os homens, justamente porque são mulheres. Porque essa questão da condição feminina, da condição humana e depois da condição feminina e da condição masculina, nos romances é de facto flagrante".
E se é certo que "as mulheres aparecem de uma forma profundamente negativa e escura nos romances", aparecem "de uma forma tão mais escura e tão mais negativa, quanto mais escuro é também o tom da pele, o que significa que para além da condição feminina acresce a questão da raça". Mas, reforça, "convém ressalvar" que não quer "isto dizer que o António Lobo Antunes é racista, estamos a falar de universos ficcionais, que são criados", populados por "personagens muito marcadas por essa vivência ou por essa forma de encarar e de ver a sociedade".
Corpo narrativo em que Ana Paula Arnaut volta aos primeiros livros, "não porque sejamos melhores, mas porque são justamente aqueles dos quais ele parte para depois construir ou desenvolver as estratégias que, por vezes de forma embrionária, estão presentes em 'Memória de Elefante', 'Os Cus de Judas' (1979), 'Explicação dos Pássaros' (1981). São os romances do ciclo autobiográfico, o ciclo de aprendizagem, justamente porque é aí que ele começa a tornar-se romancista", defende. Outro livro que destaca "é o romance de 1992, 'A Ordem Natural das Coisas', porque foi aí que parece que os narradores em sua substituição se decidiram pelo caminho da luz ou pelo caminho das trevas. E decididamente ele vai pelo caminho das trevas. Os romances a seguir são mais escuros do que os romances anteriores e, ainda que subsista alguma luminosidade pontual, o que predomina são justamente essas trevas".
Duas palavras também ("fortíssimo" e "intensíssimo") para o "Até que as Pedras se Tornem mais Leves do que a Água" (2017) e uma menção ao livro de 2008, "Arquipélago da Insónia", que "é um romance absolutamente extraordinário, que marca uma viragem na produção ficcional antoniana". Toda a narrativa é marcada por "um silêncio que decorre não apenas do facto da personagem principal ser um autista e, por isso, incapaz de comunicar de forma normal", mas porque "as próprias palavras são silenciosas". Foi o levar a cabo de um objetivo antigo, um "romance reduzido ao osso", em que "não há adjetivos a mais, não há advérbios a mais, não há nada, nada a mais. Tudo ali está e no sítio correto, nas devidas proporções", enfatiza.
Para o continuar a entender, importa também refererir as crónicas reunidas em seis livros. Podem ter sido apelidadas pelo próprio, confessa Ana Paula Arnaut, como prosa "alimentar" porque no início da carreira "precisava de ganhar dinheiro e as crónicas começaram a dar-lhe" esse sustento que "precisava e que precisou para depois se tornar o escritor profissional que veio a ser". Mas são mais "fáceis de ler como textos curtos, por vezes menos complexos que o resto da sua escrita e onde estão sintetizados todos os pontos-chave que o marcaram ao longo dos anos.
Reconhecimento
Recipiente de várias distinções nacionais e internacionais - como o Prémio Camões em 2007 ou o grau francês de “Commandeur” da Ordem das Artes e das Letras, em 2008 - António Lobo Antunes consagrou-se como um dos maiores escritores portugueses de sempre, um dos mais relevantes da história contemporânea mundial e um dos nomes perpetuamente falados para conquistar o Nobel da Literatura. "Claro, claro que teria merecido esse reconhecimento", atira Ana Paula Arnaut. "Agora a questão dos prémios tem muito que se diga e confesso-lhe sem qualquer problema que acredito cada vez menos na imparcialidade do Comité Nobel", que está, "como outros prémios, cada vez mais político".
Aliás, como escreveu numa carta que, a pedido da Direção do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, endereçou ao Comité Nobel 2025 para atribuição do galardão ao escritor, "na sua essência profunda, as palavras de António Lobo Antunes abrem-se a uma dimensão universal, levando o leitor, desassombradamente, 'ao fundo avesso da alma', 'ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana'". A distinção justificava-se igualmente "pelo facto de o escritor transformar a arte do romance, desenvolvendo um novo modo de entender a escrita de ficção". Algo que "passa tanto pelo uso particular, e, para alguns, ofensivo, da língua quanto pela forma como trata a noção de tempo, escrito “por detrás, às avessas”, quanto ainda pela conjugação de inovações formais inusitadas, e, para alguns leitores, chocante".
Um legado revolucionário na língua portuguesa que influenciou toda uma geração, sobretudo "um grupo de muito bons escritores que começaram a escrever e a publicar no século XXI", e que contribuiu para "literatura contemporânea portuguesa" estar "de muito boa saúde". É o caso de "Valério Romão, que claramente reconhece essa influência", Ana Margarida de Carvalho ou "em certos livros de Dulce Maria Cardoso, que é uma escritora absolutamente extraordinária".
Com uma distinção que importa deixar: "Nem todos podem ver-se reconhecidos com o estatuto de génio" em vida como é o caso de António Lobo Antunes. E apesar de considerar não ser "ninguém" para o classificar com esse epíteto, ancora-se ao "facto de ser professora de literatura há muito tempo" para reconhecer o estatuto ímpar do escritor. Que disse à revista Visão em 2010 que "a gente não pode levar a morte a sério. Há que aceitar a morte como a impostora que é". No dia em que nos deixa com 83 anos, é justo reconhecer que enquanto os seus livros circularem, estamos sempre um bocadinho mais próximos de lidar de frente com o trauma geracional que ainda não foi exorcizado da psique portuguesa. Não há morte que impeça isto. Obrigado, António Lobo Antunes.