Apoios dos incêndios emperram no terreno: só um terço das candidaturas foi pago

Meio ano depois dos incêndios que arrasaram vastas áreas do Norte e do Centro do país, o apoio financeiro anunciado pelo Governo como “rápido e sem papéis” continua longe de chegar a muitos dos afetados. Apesar de mais de nove mil candidaturas submetidas ao abrigo do regime simplificado, pouco mais de um terço dos pedidos resultou, até agora, em pagamentos efetivos.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
10 fev. 2026, 11:08

A medida previa a atribuição direta de até 10 mil euros para compensar prejuízos de pequena e média dimensão, garantindo liquidez imediata a agricultores e empresas para retomarem a atividade. A burocracia documental foi eliminada, mas manteve-se uma etapa crítica: a vistoria técnica no terreno, a cargo das autarquias e das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR).

É precisamente aí que o processo tem emperrado, avança o Expresso esta terça-feira. Os números revelam atrasos significativos, sobretudo nas regiões mais castigadas pelo fogo. No Centro, onde os incêndios foram particularmente severos em distritos como Aveiro e Viseu, entraram mais de cinco mil candidaturas, mas menos de duas mil tinham sido pagas até ao final de janeiro. No Norte, a situação é semelhante: de mais de quatro mil pedidos, cerca de dois terços continuam pendentes.

A situação complicou-se ainda mais com a entrada em vigor de novas regras no início deste ano, que aumentaram o teto do apoio simplificado para 15 mil euros. A alteração obrigou à suspensão temporária de milhares de processos já em curso, para reavaliar se os beneficiários tinham direito ao valor adicional, atrasando ainda mais os pagamentos.

Sem a vistoria presencial e o respetivo auto técnico, o sistema bloqueia automaticamente a transferência do dinheiro. Em muitos casos, os técnicos ainda nem sequer conseguiram visitar as explorações afetadas, deixando agricultores meses à espera de uma resposta. Há relatos de prejuízos elevados em explorações que continuam sem qualquer avaliação oficial.

Em Sernancelhe, tal como escreve o Expresso, a autarquia avançou mesmo com um fundo municipal próprio para complementar os apoios do Estado, apostando em ajudas a fundo perdido para proteger setores-chave da economia local.