Arte da lentidão: a cerâmica como forma de escapar ao imediatismo e de ver perfeição na imperfeição

A oficina Brâmica foi fundada há 10 anos e surgiu do sonho da ceramista Teresa Branco, que apresenta esta arte como um apelo à fruição da passagem do tempo e do contacto com a terra, numa sociedade rápida e impaciente.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
02 fev. 2026, 08:00

Abriu portas na Rua de Santo Isidro em 2016. A escolha da rua não foi um mero acaso. Teresa Branco procurava um lugar sossegado e autêntico, de preferência uma zona residencial, onde o seu espaço se pudesse destacar e funcionar como um ponto de passagem apenas para os que realmente se interessam pela cerâmica. Hoje em dia, a pacatez da rua é pontuada por visitas frequentes de pessoas oriundas dos quatro cantos do mundo e a ceramista não esconde o orgulho: “Agora, há pessoas de todo o mundo que vêm aqui a esta rua. Recebo americanos, canadianos, libaneses, australianos, alemães, franceses… Esta rua está no mapa, neste momento”. 

Natural de Coimbra, a ceramista mudou-se para o Porto ainda adolescente e assume-se uma verdadeira apaixonada pela cidade: “O Porto é uma cidade única, uma cidade de oportunidade, de recantos, de texturas, de pessoas. É uma cidade grande, mas identitária. Nas deambulações pela rua, não é raro encontrarmos alguém que tenhamos visto dias antes. Ainda existe uma memória, uma perceção de humanidade”- relata a artista. 

É numa Invicta repleta de estímulos que a ceramista confessa encontrar muita inspiração artística: “A cidade do Porto é feita pelas pessoas, não é um projeto de régua e esquadro pensado a nível arquitetónico nacional. É uma mistura de estilos. Em todas as ruas, percebemos diferentes arquiteturas e leituras de pessoas viajantes que foram trazendo inspiração de todo o lado e que foram criando, à sua medida, os seus lugares de habitação. É visível toda essa riqueza. A cidade não é monótona, é uma cidade de permanente descoberta. Sempre que passo na Rua Anselmo Braancamp, por exemplo, descubro um outro edifício, uma outra cantaria, um outro azulejo, um outro pormenor.”

O nome “Brâmica” foi pensado pela filha da ceramista e esta ficou completamente rendida à ideia: é a aglutinação do sobrenome “Branco” com a palavra “cerâmica”. A dar um toque ainda mais especial a esta designação, a ceramista refere a feliz coincidência da similitude com o nome do Deus Brahma, o deus hindu da criação.

Na oficina, escuta-se música “Sufi” enquanto se moldam peças decorativas e funcionais de carácter único, onde “a perfeição se encontra na imperfeição”. Entre as inúmeras encomendas, os pincéis e as espátulas, há espaço para a partilha de conhecimentos: “Muitos estrangeiros vêm fazer workshops, principalmente o workshop de escultura em azulejo. É uma forma de perceberem a história da azulejaria portuguesa. Depois as pessoas regressam aos seus países e, passado duas ou três semanas, recebem, por correio, o seu azulejo terminado”. 

Além dos compradores de arte e dos turistas que aproveitam para pôr a mão na massa durante a estadia no Porto, Teresa Branco recebe estudantes de Erasmus de faculdades de artes europeias para formações de três a seis meses na oficina. “Adoram esta cidade e depois voltam para visitar!”- conta satisfeita a ceramista. 

Apesar de ser um lugar de “muito trabalho”, onde se usam técnicas ancestrais, a oficina acaba por ser também um lugar de terapia. De acordo com Teresa Branco, “as pessoas procuram espaços para criação de vínculos, de identidade e de pertença”. A fundadora da Brâmica salienta, também, a importância da “materialização” num momento em que se vive “no vazio do virtual”. 

Além da criação artística por si só, a cerâmica surge como um apelo à fruição do tempo: “Isto é o contacto com a terra e com a arte da lentidão, do fazer tendo em vista um processo. Porque agora é tudo muito rápido… Se recebermos um e-mail, ou uma mensagem de whatsapp, temos de responder imediatamente, se for no dia a seguir já parece que houve qualquer coisa que falhou. E a cerâmica é, de facto, um processo. É preciso modelar, deixar secar, cozer, vidrar, é preciso voltar a cozer (e cada cozedura demora oito horas e tem de ficar no forno um dia para a temperatura chegar ao topo e depois descer…). Realmente, é preciso uma lentidão que, nos dias de hoje, não é normal. “A cerâmica vem colocar-nos em contacto com a terra, com o pensamento e a capacidade motora. Vem libertar-nos a mente, ao mesmo tempo que estamos em ação. É um processo meditativo. Um movimento contrário à corrente.”