Arte e fogo: esta sexta-feira 13 há celebração galaico-minhota em Freixieiro de Soutelo
Dia de misticismos, noite de bruxas e feiticeiros, data de azar para uns e de sorte para outros. E, a partir de hoje, sexta-feira 13 passa também a ser sinónimo de arranque da edição inaugural do Festival Galaico do Vale do Âncora, que decorre até domingo, 15 de março, na aldeia vianense de Freixieiro de Soutelo. Objetivo? Assumir-se como memória viva de toda uma comunidade e convidar habitantes e visitantes a entrarem em contacto com a herança cultural comum que une Minho e Galiza.
"É uma iniciativa que nasce da vontade conjunta da junta de freguesia, das associações locais, com forte envolvimento comunitário, e também como iniciativa de descentralização cultural do município de Viana do Castelo", elabora uma das responsáveis pelo certame, Andreia Amorim Pereira, que chama a atenção para o património natural e histórico da zona: "Aqui em todo o Vale do Âncora, que vai desde São Lourenço da Montaria até Vila Praia de Âncora, temos um rio que ainda é selvagem recentemente incluído numa zona especial de conservação" e onde também há "vestígios arqueológicos com mais de 5000 anos". Tudo conjugado numa "beleza paisagística excecional", remata.
Para a geógrafa, é essencial "valorizar este território e promover através da aproximação às tradições". Por isso um dos destaques no arranque do festival é a exposição “Arte na Terra”, que estará patente até 5 de abril e que reúne mais de duas dezenas de intervenções criativas em diálogo com a natureza, a paisagem e a memória do lugar. É um dos elementos mais "diferenciadores", reforça Andreia Amorim Pereira, que revela o convite feito "a artistas portugueses e espanhóis da vizinha Galiza, para exporem e criarem obras à medida".
Dez "artistas consagrados" aceitaram o repto e terão os seus trabalhos expostos, em grande parte, "ao ar livre", com "obras junto ao moinho no rio, junto a capelas, em campos de oliveiras, e misturados com o pastoreio das cabras e das ovelhas". Sem esquecer a antiga escola primária, renomeada para o efeito como Fábrica de Memórias, que em conjunto formam um percurso artístico ao ar livre onde natureza, cultura e criação se entrelaçam e que formam "algo, de facto, imersivo no mundo rural", afirma.
Queimada celta
Ao longo dos três dias de festival também haverá espaço para animação musical, concertos de raiz galaico-minhota, oficina de instrumentos tradicionais, uma ação de reflorestação, jogos ancestrais, teatro popular, degustação gastronómica, e uma caminhada de imersão na natureza e no património, com o apoio do Geoparque Litoral de Viana do Castelo.
"Querermos a dar a conhecer o nosso território de uma perspectiva diferente", realça Andreia Amorim Pereira, que fala da muita procura de "turismo balnear em Vila Praia de Âncora" mas em que falta, por vezes, "levar as pessoas a aproximarem-se da natureza para uma fruição baseada na descoberta, no conhecimento científico e na contemplação", resume.
Nesse campo, a responsável destaca ainda três atividades que vão marcar esta sexta-feira 13. A começar pela tertúlia “Âncoras Culturais”, que contará com a participação de personalidades ligadas à reflexão cultural, identitária e territorial do Alto Minho e a passar pela atribuição das menções de mérito “Sábio da Memória do Âncora”, que funcionará como um reconhecimento simbólico, deliberado por um conselho multifacetado, para distinguir personalidades do espaço galaico-minhoto. E "a noite vai fechar com uma queimada celta, uma encenação fortíssima", garante Andreia Amorim Pereira, em que se fará a "evocação de bons ventos e boas preces para o nosso território" numa celebração clássica das raízes pagãs e tradições milenares da região.
É o convite que a população de Freixieiro de Soutelo deixa a quem a quiser visitar ao longo destes dias, num processo verdadeiramente comunitário que "evoluiu de uma forma muito bonita", aponta Andreia Amorim Pereira, e que mantém viva a memória da região. Que melhor para esconjurar o azar nesta sexta-feira 13.