As frases, as cores e as músicas de 1986: recortes de uma campanha que mudou Portugal

Há 40 anos, o país viveu a (até agora) única segunda volta da democracia. Recordamos alguns dos momentos essenciais da campanha que mudou o país político, das canções às caixas de fósforos, do ambiente colorido à fase mais extremada da corrida entre Mário Soares e Freitas do Amaral.
João Nápoles
João Nápoles Editor-executivo
29 jan. 2026, 07:00

Depois de dois mandatos do incontestado Ramalho Eanes, que, com amplo apoio, liderou o Estado na transição para a democracia, em 1986 era altura de eleger o primeiro Presidente da República civil.

Em janeiro desse ano, quatro nomes foram a votos, com destaque para Diogo Freitas do Amaral, figura de proa do CDS que recebeu apoio do PSD, e Mário Soares, até então secretário-geral do PS e com duas presenças no Governo. Juntavam-se ainda Salgado Zenha, ex-ministro e deputado do Partido Socialista - que se candidatava como independente e recebeu o apoio do PCP - e Maria de Lourdes Pintasilgo, que tinha chefiado um Governo Provisório (a primeira e única mulher a ocupar o cargo em Portugal) e que recebeu apoios de vários independentes e forças de esquerda.

O resultado da primeira volta foi uma vitória “folgada” para Freitas do Amaral, que ficou a menos de 4% da maioria absoluta, conseguindo uma vantagem superior a 20% sobre a candidatura de Mário Soares. Maria de Lourdes Pintasilgo não foi além dos 7%, enquanto Soares e Salgado Zenha, com 25% e 21%, respetivamente, ficaram bastante próximos.

A partir daí, a eleição ganhou contornos históricos. Não só se viveu a única segunda volta até aos dias de hoje, como a campanha ganhou cores e multidões até aí nunca vistas.

“Soares é fixe!” e "Prá Frente Portugal!"

Para a história, ficaram elementos de campanha que acabaram por marcar o tom das eleições nos anos e décadas seguintes. Nas ruas distribuíam-se calendários, caixas de fósforos, esferográficas e outros objetos de todo o tipo com as frases e as caras da campanha. 

Imagens: Arquivo Ephemera e Arquivo Municipal Alfredo Pimenta

Até discos. É verdade que desde o nascimento (ou o fim da clandestinidade) dos partidos, no alvor da democracia, a música foi sempre parte integrante da iconografia política portuguesa. Da música encomendada a Paulo de Carvalho pelo PPD às versões de PS e PCP da Internacional Socialista, não faltam exemplos.

Mas nunca, como em 1986, tinha uma canção dedicada a um só candidato político atingido aqueles níveis de popularidade. O “Rock da Liberdade”, de Rui Veloso, com letra de António Pedro Vasconcelos, foi o tema da campanha de Mário Soares. O single chegou a disco de prata, o que, na altura, representava 25 mil exemplares vendidos. O sucesso foi politicamente transversal, mas o próprio Rui Veloso viria a criticar, com alguma graça, não o conteúdo mas o nome da música. Numa publicação nas redes sociais, disse em 2018: “Eu queria que se chamasse apenas Liberdade mas alguém teve que acrescentar a redundância do 'rock'. Como título sempre achei horrível Rock da liberdade. Tipo Fado do Parlamento, Twist das Autarquias ou Jazz da Humildade Democrática…”.

Imagem: Fonoteca Municipal do Porto

Imagem: Arquivo Ephemera

A candidatura rival também tinha o seu “cancioneiro”. Para a história, ficou o mais solene “P’rá Frente Portugal”, o hino de Freitas, que teve a participação do Coro de Santo Amaro de Oeiras. Além da edição desse single, foi também editado o disco “O Povo Canta Freitas do Amaral”, com adaptações das letras de músicas tradicionais portuguesas para o universo eleitoral do candidato da direita.

Mas talvez o elemento mais icónico da candidatura de Freitas do Amaral fosse mesmo o Loden. O sobretudo de lã verde acompanhou o candidato durante toda a campanha, tornando-se referência praticamente imediata. Não foi preciso mais do que aquelas semanas de campanha para que o casaco se tornasse peça central, como mostra esta reportagem do Correio da Manhã, publicada no dia seguinte à eleição da segunda volta.

Imagem: Arquivo Municipal Alfredo Pimenta

Já antes disso, no único debate entre Soares e Freitas, o frente a frente terminou com uma conversa entre ambos, precisamente sobre o sobretudo verde. Conta o Diário de Lisboa, de 5 de fevereiro de 1986: “Os dois candidatos voltaram a encontrar-se já no final, à porta da sala da caracterização, trocando rasgados sorrisos… de circunstância. À despedida Freitas do Amaral faz questão em contar uma história a Mário Soares. ‘Conhece aquela de um miúdo de seis anos que disse à mãe: este ano, pelo Carnaval, quero mascarar-me de Freitas do Amaral e quero um sobretudo verde’. Soares ouve, volta a sorrir e responde em jeito de despedida: ‘São muito bonitos esses sobretudos verdes’”.

O lado cinzento da campanha

Passados 40 anos, o que a história reteve da eleição de 1986 foi sobretudo o colorido da campanha. A capacidade agregadora dos candidatos era evidente, sobretudo nos comícios, com praças inundadas de multidões que entusiasmavam e pintavam as reportagens desses momentos.

Mas houve momentos em que o ambiente da campanha foi menos colorido. Ainda na primeira volta, ficou célebre a visita de Mário Soares à Marinha Grande, na altura um bastião comunista, que vivia uma crise na indústria vidreira. Soares foi recebido com insultos e chegou mesmo a ser agredido, no episódio que ficou conhecido como “a paulada da Marinha Grande”. O momento foi aproveitado pela máquina de campanha do ex-primeiro-ministro, que usou as imagens nos espaços de Tempo de Antena seguintes. O resultado, dizem os analistas, foi Mário Soares passar de provável derrotado à primeira volta para candidato sério numa segunda volta.

Quando o primeiro sufrágio ditou que, ainda que a curta distância, Freitas do Amaral não havia chegado aos 50%, passou-se a uma campanha bastante mais dura e extremada.

A estratégia estava sequestrada pela aritmética. Para recuperar da desvantagem de mais de 20 pontos, Soares sabia que seria preciso conquistar o eleitorado de esquerda. Na reportagem sobre o lançamento da campanha da segunda volta por Mário Soares, o Diário de Lisboa contava: “Refere que o slogan de Freitas ‘nem para a direita, nem para a esquerda, para a frente’ foi invenção de Dutra Faria, corifeu salazarista, no final dos anos 30 no jornal ‘Ação’. ‘É uma escolha sintomática, como outras, que certamente se não deve a uma distração do Professor’, disse”.

De facto, nessa altura, contam os jornais, a narrativa da campanha focou-se na ideia do apoio do PCP (e da CGTP) à candidatura de Soares. Do lado da comitiva de Freitas do Amaral houve uma dramatização desse apoio. Mário Soares, por seu turno, passou a colar Freitas aos fantasmas do passado. Essa narrativa baseava-se sobretudo no facto de Freitas do Amaral ter dito que só havia despertado para a política aos 31 anos, ou seja, depois do 25 de abril, "apagando" o próprio passado político.

No dia 31 de janeiro de 1986, Freitas do Amaral, aqui citado pelo Diário de Notícias, dizia: “Onde os portugueses se habituaram a ver um homem tolerante e pacificador, aparece hoje um político inesperadamente radicalizado. Onde os portugueses se habituaram a ver o democrata firme na recusa de alianças com o totalitarismo, aparece hoje, por meras razões eleitoralistas, um candidato apoiado pela direção do PCP. Mário Soares deixou vago o seu lugar na política portuguesa e ocupa agora, como candidato de Álvaro Cunhal, a posição de Salgado Zenha”.

O britânico “The Times”, traduzido pelo Correio da Manhã, resumia assim o tom da contenda: “Freitas do Amaral tem acusado Mário Soares de ter feito um pacto com os comunistas para obter o seu apoio, acusação que Mário soares desmente vigorosamente. Por sua vez, Soares tem acusado Freitas do Amaral de ter o apoio de reacionários da ultra-direita que desejam que Portugal regresse ao 24 de abril”.

A verdade é que a movimentação da esquerda em direção a Soares, celebrizada pelas declarações de Álvaro Cunhal no Congresso da Amadora - “Se for caso disso, não leiam o nome Soares (…) marquem a cruz do voto no quadrado que está à frente desse nome” - foi vista como fator decisivo para o resultado final da eleição. Afinal, o universo comunista valia quase 40 assentos na Assembleia e, na primeira volta das presidenciais, Zenha e Pintasilgo tiveram juntos mais de 28%.

Imagem: Jornal Avante! de 13 de fevereiro de 1986

O lema do PCP era “voto sim, apoio não”. A três dias da eleição da segunda volta, o Avante! dedicou uma edição a apelar ao voto contra Freitas do Amaral. O jornal incluía também uma reportagem sobre a visita de Álvaro Cunhal ao Forte de Peniche, com o subtítulo “Foram anos que não podem voltar”, ficando evidente a tentativa de colagem de Freitas ao anterior regime.

Noutra secção do jornal, figuras das artes, do jornalismo e do movimento associativo eram convidadas a dizer porque votavam contra Freitas do Amaral. O tom satírico de algumas declarações espelha bem a natureza crispada do debate que se fazia nesses dias.

Imagem: Jornal Avante! de 13 de fevereiro de 1986

O jogo dos apoios chegava à cultura e ao desporto. Do lado de Freitas do Amaral, nas conquistas dessas frentes, destacavam-se Agustina Bessa-Luís - mandatária nacional, foi a escritora que entregou no Tribunal Constitucional as assinaturas que formalizaram candidatura - e Eusébio, o nome maior de várias figuras do desporto que declararam apoio ao fundador do CDS. Exemplos que podem ser consultados na galeria acima.

Quatro décadas volvidas, já não é normal o mundo do desporto mobilizar-se numa campanha e a capacidade agregadora das ações de rua dos candidatos não parece tão espontânea. A Esquerda, que teve peso decisivo em 1986, já não é a força dominante e o cenário desta segunda volta será o inverso: só a união da Direita levará à eleição de um candidato. Ou, como aconteceu em 1986, evitará uma eleição.