As obras em lã de Luísa Leão dialogam com o passado e questionam o presente
Fecha os olhos, abranda o ritmo, sente a lã entre os dedos e deixa que o pensamento a conduza no processo criativo. É assim que começa o universo de Luísa Leão, artista têxtil e investigadora brasileira. A viver em Portugal desde 2016, Luísa Leão integra a galeria GamaRama, em Faro, onde desenvolve vários projetos e exposições. Também em terras algarvias, realizou um dos projetos mais marcantes do seu percurso artístico: “Alinhados pela mesma lã”, uma residência artística promovida pelo Loulé Criativo e pela Algarchurra, dedicada à revalorização da lã churra algarvia, uma raça em risco de extinção.
Durante meses, acompanhou tosquias, lavagens, processos muitos deles físicos exigentes, sem deixar de parte a conversa com os pastores. “Hoje, os produtores gastam mais a pagar a tosquia do que aquilo que recebem pela lã”, alerta, em entrevista ao Conta Lá. “É uma metáfora brutal do nosso sistema.”
Foi da lã que nasceu uma obra monumental, com mais de três metros de altura, construída a partir de fragmentos feltrados manualmente e depois cozidos entre si, à mão, que reflete uma escolha conceptual e política de fazer o grande a partir do pequeno. “As mulheres sempre fizeram obras menores porque não tinham acesso às escolas nem aos grandes espaços. Eu quis inverter isso”, sublinha.
Neta de um avô fotógrafo, um dos primeiros do estado do Ceará, no Brasil, sobrinha de artesãos e herdeira de um passado familiar profundamente ligado à música, à escultura e às artes plásticas, Luísa Leão cresceu rodeada de arte. Ainda assim, no universo familiar, criar foi sempre um 'passatempo', nunca uma sobrevivência. Talvez por isso, o trabalho que hoje cria é como um diálogo silencioso com as gerações que vieram antes.
Nascida em Brasília, a artista, de 27 anos, chegou a Portugal para um ano de intercâmbio na Covilhã, onde estudou Design de Moda porque durante muito tempo, a pequena Luísa achava que “um designer de moda criava tudo, casas, carros (...)". Veio por curiosidade, por desejo de conhecer o mundo, mas acabou por ficar por cá pela necessidade do silêncio: “Percebi a importância de me ouvir". Longe do ruído das grandes cidades brasileiras, conheceu o caminho que queria trilhar, fruto da aproximação da comunidade e das técnicas aprendidas.
Durante oito anos, viveu e estudou no berço da indústria da lã portuguesa, com fortes ligações à Serra da Estrela. Aprendeu a fiar e a feltrar com mulheres do campo, guardiãs de saberes transmitidos de geração em geração.
O bordado surgiu durante o mestrado da Universidade da Beira Interior (UBI), ainda com uma função prática e comercial. Depois, a criação de um perfil no Instagram durante a pandemia levou a encomendas, mas rapidamente o gesto repetitivo deixou de ser suficiente. “Queria tempo, espaço e liberdade para criar a minha arte”, confessa.
“A sustentabilidade não é uma tendência, é uma urgência"
O doutoramento em Artes acabaram por conduzi-la ao Algarve, não apenas a um território, mas a um ritmo e a um tempo que precisava, enquanto os bordados com formas convencionais deram lugar ao abstrato como necessidade interior. “As formas e as palavras não são suficientes”, afirma.
No seu trabalho, uma forma pode ser gota, uma pena ou algo totalmente diferente, dependendo da perceção de quem olha. Não há significados fechados, há abertura, escuta e tempo.
Cada obra começa muito antes do resultado. “Eu trato da lã, fio a fio, feltro a feltro e acompanho cada etapa. O processo é tão importante quanto a peça”, destaca. É esse contacto que também tem “uma visão política”, historicamente associada ao feminino, ao doméstico e aos povos originários. A arte têxtil foi durante séculos marginalizada, por isso recuperá-la é um gesto de resistência e de afeto: “O têxtil é o fio condutor da humanidade.”
Atualmente, Luísa Leão, prepara exposições em Portugal, Madrid e uma residência artística na Estónia. Paralelamente, está prestes a acabar o doutoramento. Para si, a investigação e a prática artística alimentam-se mutuamente. “A pesquisa ajuda-me a entender o que faço. A arte ajuda-me a sentir o que investigo”.
“A sustentabilidade não é uma tendência, é uma urgência (…) sem planeta, não há humanidade. A arte contemporânea não pode fugir disso”, sublinha.
Num mundo acelerado e tecnológico, fazer lento é um gesto radical. Hoje, Luísa Leão define-se como uma artista têxtil curiosa, profundamente ligada ao fio, ao corpo e ao tempo. Alguém que acredita que o futuro só pode ser construído com as mãos cheias de passado. Uma artesã que fecha os olhos, respira fundo e continua, ponto a ponto, a tecer um novo começo.