Aumento dos custos pressiona setor agroalimentar: "É difícil competir quando o nosso vizinho parte com vantagem"

A CONFAGRI alerta para o impacto crescente dos custos de produção sobre os agricultores portugueses e defende medidas urgentes para garantir a sustentabilidade do setor. A confederação aponta ainda diferenças face a Espanha que agravam a posição nacional e podem ter efeitos na produção e nos consumidores.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
02 abr. 2026, 08:00

O aumento dos custos de produção está a colocar o setor agroalimentar português sob forte pressão e a agravar a desvantagem face a Espanha, podendo comprometer a competitividade nacional. O alerta é da Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (CONFAGRI), que pede medidas urgentes para evitar impactos na produção e no acesso a alimentos.

Os custos associados à atividade agrícola – nomeadamente energia e fatores de produção – têm vindo a subir de forma significativa, criando um efeito em cadeia que afeta todo o setor. O impacto já se faz sentir no terreno, com produtores a enfrentar dificuldades crescentes para manter a atividade.

Em entrevista ao Conta Lá, o presidente da CONFAGRI, Idalino Leão, sublinha que “os aumentos muito fortes nos custos de produção, todos ligados em cadeia, estão a levar o setor agroalimentar à asfixia”, descrevendo um cenário de grande pressão sobre agricultores e cooperativas.

Portugal em desvantagem face a Espanha nos custos energéticos

A situação torna-se ainda mais crítica quando comparada com a realidade espanhola. Apesar de ambos os países operarem no mesmo mercado europeu, a CONFAGRI aponta diferenças estruturais que colocam Portugal em desvantagem.

Idalino Leão considera que “no contexto ibérico existem particularidades que devem ser acauteladas”, destacando desde logo os custos energéticos. Segundo o responsável, “os custos fixos associados à energia são muito diferentes entre Espanha e Portugal, com clara desvantagem para as nossas indústrias e para os nossos agricultores”.

A par disso, o dirigente sublinha o posicionamento estratégico do país vizinho no setor agroalimentar, referindo que “Espanha é um player mundial em vários setores agroalimentares, porque os seus governantes assim o promovem e defendem”. Neste cenário, conclui, “é muito difícil competir num mercado livre quando o nosso vizinho do lado já parte com muita vantagem”.

Setor pede medidas “urgentes” e inspiradas em Espanha

Perante este contexto, a CONFAGRI defende que não é necessário criar novas soluções, mas sim replicar medidas já testadas, tanto em Portugal como em Espanha.

“O que é necessário não é inventar, mas replicar o que aconteceu com os apoios ao setor em Espanha e recordar o que Portugal fez durante a crise energética e inflacionista de 2022 e 2023”, afirma Idalino Leão, acrescentando que “os setores mais atingidos estão identificados”.

A organização insiste na necessidade de uma resposta rápida e direcionada, capaz de aliviar os custos de produção e garantir condições de concorrência mais equilibradas no espaço ibérico.

Pressão sobre a produção e risco para o futuro

Sem intervenção, o setor poderá enfrentar consequências a curto prazo, tanto ao nível da produção como do impacto nos consumidores. Ainda assim, a CONFAGRI sublinha o compromisso dos produtores.

“A produção está sob muita pressão, mas nunca falhámos aos consumidores na nossa função de produzir alimentos seguros e saudáveis”, garante o presidente da confederação. No entanto, deixa um aviso claro: “É fundamental que as tutelas reconheçam a importância do setor e avancem com medidas mais musculadas de forma imediata”.

Num contexto internacional marcado por incertezas geopolíticas, a alimentação assume um papel estratégico, estando diretamente ligada à soberania. “Existe um Portugal agroalimentar que trabalha todos os dias para que nada falte, mas, para que isso continue a acontecer, é essencial agir já”, conclui.