Bárbara Penaforte trocou o Recife pelo Porto e quer mostrar como a cerâmica pode mudar o estado de espiríto

Bárbara Penaforte deixou o Brasil para correr atrás de uma paixão: a cerâmica. Descobriu no Porto um espaço onde pretende ensinar aos outros como o barro pode transformar o estado de espírito. 
 
Joana Amarante
Joana Amarante Jornalista
19 fev. 2026, 08:00

O caminho até à cerâmica foi quase tão longo quanto a viagem de Recife para o Porto. “Há 10 anos que eu trabalho como designer de superfície, com cerâmica há oito. Foi por causa do design de superfície que eu conheci a cerâmica”, explica Bárbara Penaforte ao Conta Lá.

Formada em moda, partiu depois para o design de superfície, mais concretamente em estampagem. Do têxtil veio o interesse por porcelana, começando a aplicar as estampas no 3D.

O primeiro contacto com o barro foi inusitado. Ao viver sozinha pela primeira vez decidiu fazer um conjunto de louça para uso próprio. “Porque não fazer um jogo de louças para mim, para que eu possa consumir arte no meu dia a dia? Tudo começou assim, por uma ideia romântica de querer ter arte de uma forma mais acessível”, descreve.

Em 2017, abriu um negócio de porcelanas estampadas. Com a mentoria de um professor que lhe introduziu a cerâmica japonesa, aprendeu a aceitar a matéria-prima e o tempo dela, técnica que ainda utiliza atualmente.

Três anos depois surgiu a oportunidade de vir para Portugal, numa altura em que sentia que apenas o barro molhado a abstraía dos problemas. 

“Cheguei, depois de uns anos, aos painéis em alto relevo. Porque pensei, vou usar ilustrações minhas antigas, trabalhos que eu já fiz, mas eles vão ser novos, porque vão estar aplicados noutra matéria-prima. Nesse caso, o barro.”

Foi em casa que começou a manusear o barro, mas em outubro do ano passado, apareceu o Atelier em frente ao Bolhão que agora tem o seu nome e que foi uma mistura de desejo e acaso.

“Eu já tinha na minha cabeça que eu queria um atelier lá pela questão histórica, a questão do turismo também, está na zona importante da cidade. Não sabia como ia conseguir, mas pensei, vai ser no Bonfim”, sublinha a artista.

Descreve-se como uma artista que abre o atelier para que as pessoas venham visitar e aprender.

Nas suas peças, reflete-se o azulejo português, as cores do Brasil e a elegância do Japão.

“Às vezes, quando estou a esculpir peças com ferramentas, eu perco a mão e furo a peça. Mas deixo lá o furo, porque acho que mostra muito o processo da cerâmica, dependendo da sua visão, aquilo é um defeito ou é um acerto”.

Abriu este espaço com uma única certeza: “Já era uma ideia minha muito antiga, de querer um atelier com cara de casa”. Fica no último andar, tem uma claraboia e lá está sempre a dar música. “As pessoas chegam com aquela luz mais quente, mais aconchegante, duas horas viram infinito para elas.”

 

Foi a dar aulas que se descobriu. No atelier, há cursos regulares e oficinas, mas qualquer pessoa pode participar. “Os cursos são de introdução à cerâmica, com textura, que realmente é o meu foco, as oficinas servem como um gostinho pra pessoa ter o interesse e ingressar no curso”, explica.

Bárbara Penaforte sente que este pode ser um espaço transformador. “Tenho percebido que as pessoas estão muito exaustas, por causa do cenário político, económico muito complicado, e que elas vão para as aulas para realmente se desconectarem.”

A artista acrescenta: “Os alunos chegam a falar do dia a dia, do trabalho, e depois saem silenciosos, mais leves, eu acho que isso é o mais transformador, é ver como em duas horas uma pessoa pode mudar o humor dela”.

As aulas são para todas as idades e a artista confessa que os mais novos são os que mais supreendem. Na pintura em azulejo e também na argila “eles não têm nada que os prenda mentalmente”.

Em duas horas aprende-se todo o processo de fabrico de uma peça, as fases do barro até se transformar em cerâmica, que pode ser apenas de decoração ou pode ter mesmo utilidade. Passa por modelagem, secagem, pintura, texturas e acabamento. Quinze dias depois, a peça está pronta a utilizar.

“Durante as minhas aulas eu falo muito sobre precisão, que não é nem força, nem delicadeza, a cerâmica exige muita precisão.”

Para o futuro, há a vontade de ter a própria linha própria de ferramentas. A artista conta que “de acordo com a necessidade, você acaba por encontrar ferramentas geniais. Eu uso ferramentas muito inusitadas, eu gosto de ferramentas de madeira, mas também uso muito utensílios de cozinha, ralador de queijo, espátula, no meu ateliê quase nenhum é de cerâmica em si”. 

Por agora, prepara as peças de uma exposição para setembro.