Barragem de Girabolhos: resposta às cheias ou fuga ao problema estrutural do Mondego?

A construção da barragem de Girabolhos é apontada como solução para travar as cheias no Baixo Mondego, mas levanta dúvidas sobre se responde ao problema estrutural da bacia. Entre prejuízos no terreno, críticas à gestão e a defesa institucional, o debate expõe um sistema fragilizado muito antes de a água transbordar.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
08 abr. 2026, 06:00

Durante semanas, a chuva não deu tréguas e transformou o Baixo Mondego num território marcado pela água em excesso, com campos submersos, caminhos intransitáveis e uma atividade agrícola abruptamente interrompida. Onde deveria estar em curso a preparação de novas culturas, ficaram terrenos encharcados, infraestruturas danificadas e prejuízos difíceis de recuperar num contexto já marcado por custos elevados e margens reduzidas.

“No meu caso, as cheias tiveram um impacto muito negativo, sobretudo devido à inundação prolongada dos campos, que levou à perda de culturas, principalmente pastagens e forragens, essenciais para a alimentação dos meus animais”, relata Diana Valente, produtora agrícola e presidente da Associação de Jovens Agricultores do Vale do Mondego, em entrevista ao Conta Lá, sublinhando que o impacto não se esgota no imediato, uma vez que compromete também a continuidade da atividade. “A perda de rendimento durante um ano seria catastrófica para as nossas explorações.”

A estes prejuízos juntam-se danos nos sistemas de rega e atrasos críticos na calendarização agrícola, fatores que, segundo a produtora, agravam o risco de perdas prolongadas e colocam em causa a viabilidade de muitas explorações. É neste cenário de urgência que a barragem de Girabolhos regressa ao centro do debate político como resposta às cheias, assumindo-se como uma solução capaz de controlar caudais e reduzir impactos, ainda que a sua eficácia esteja longe de reunir consenso.

Uma solução em disputa

A proposta de construção da barragem assenta numa lógica aparentemente simples, que consiste em reter água a montante para diminuir a pressão a jusante, uma ideia que ganhou força após os episódios recentes de inundação e que tem sido apresentada como uma resposta concreta a um problema visível. No entanto, essa simplificação é precisamente o ponto de partida da contestação.

“Do ponto de vista político e comunicacional, é mais fácil e mais eficaz apresentar a barragem de Girabolhos como solução para o problema das cheias”, sustenta Francisco Oliveira, do MUNDA – Movimento em Defesa do Rio Mondego, em entrevista ao Conta Lá, defendendo que esta abordagem ignora a complexidade do sistema e conduz a uma leitura redutora da realidade. “Questões com esta complexidade não são resolúveis por meio de respostas simples.” 

Essa crítica estende-se ao próprio enquadramento do debate público: “Desvia as atenções dos problemas de fundo e das ineficiências diversas. O que fica de fora é tudo!”

A análise técnica reforça estas dúvidas, uma vez que o projeto de Girabolhos não foi inicialmente concebido para controlo de cheias, mas para produção de energia, regularização de caudais e outros usos associados à gestão de recursos hídricos. Acresce que a sua capacidade de armazenamento levanta reservas quanto à eficácia em cenários extremos, tendo em conta que episódios recentes de precipitação geraram volumes de água superiores à capacidade total prevista para o sistema, ao mesmo tempo que a sua área de influência abrange apenas uma fração da bacia hidrográfica do Mondego, inferior a 15%, o que limita o seu impacto global.

Entre a necessidade de agir e as falhas acumuladas

No terreno, porém, o debate assume contornos mais urgentes, uma vez que os impactos das cheias se traduzem em perdas concretas e sucessivas que afetam diretamente a atividade agrícola e a economia local.

“As cheias de 2026 tiveram um impacto muito significativo em toda a dinâmica territorial do Baixo Mondego”, afirma José Manuel Pinto da Costa, presidente da Associação de Beneficiários da Obra de Fomento Hidroagrícola do Baixo Mondego (ABBM), em entrevista ao Conta Lá, referindo não só a destruição de culturas, mas também os danos nas redes de rega, drenagem e infraestruturas de suporte.

O diagnóstico apresentado vai além da intensidade dos fenómenos meteorológicos e aponta para falhas estruturais persistentes. “Verifica-se uma inércia preocupante por parte das entidades competentes, sobretudo no que respeita à manutenção e valorização das principais infraestruturas hidráulicas do sistema”, acrescenta.

A crítica é ainda mais direta quando se olha para a resposta global: “A resposta global tem sido claramente insuficiente face à dimensão e recorrência dos problemas.” E o alerta é estrutural: “Sem essa abordagem, continuará a verificar-se uma degradação progressiva do sistema e uma crescente exposição do Baixo Mondego a eventos extremos.” Este cenário, alerta, traduz-se num aumento direto do risco para a atividade agrícola e para a segurança do território, uma vez que a incapacidade de resposta do sistema hidráulico agrava o impacto de cada novo episódio de cheia.

Essa tensão é reforçada pelo testemunho de Diana Valente, que descreve uma realidade onde a frequência crescente de fenómenos extremos se cruza com problemas acumulados de gestão. “Há uma maior frequência de fenómenos extremos, com chuvas intensas concentradas em curtos períodos, mas também se nota alguma falta de manutenção e de gestão adequada das infraestruturas hidráulicas.”

Neste ponto, as posições convergem parcialmente, uma vez que tanto os agricultores como a associação reconhecem que a barragem pode desempenhar um papel na regulação dos caudais, mas insistem que não constitui uma solução isolada, sendo indispensável garantir manutenção, desassoreamento e uma gestão integrada de toda a bacia.

Minimizar o risco num cenário extremo

Do lado institucional, a Agência Portuguesa do Ambiente enquadra as cheias recentes como resultado de um conjunto de circunstâncias excecionais, sublinhando a intensidade e persistência dos fenómenos registados.

“Foi um ano excecional”, afirma José Pimenta Machado, presidente da APA, em entrevista ao Conta Lá, destacando a conjugação de fatores como precipitação recorde, tempestades prolongadas, solos fragilizados pelos incêndios e o contributo do degelo na Serra da Estrela, que contribuíram para aumentar significativamente o escoamento.

A dimensão do fenómeno é ilustrada com números concretos. “Nestas três semanas de grande precipitação no Mondego, pela barragem da Aguieira passaram 1412 hectómetros cúbicos. Isto é: em três semanas enchemos a barragem três vezes e meia”, afirma o presidente, acrescentando que, no caso da barragem das Fronhas, esse volume foi ainda mais expressivo, tendo sido cheia sete vezes no mesmo período.

Neste contexto, a barragem de Girabolhos é apresentada como um reforço da capacidade de resposta, podendo contribuir para reduzir os picos de caudal. “Se tivéssemos a barragem de Girabolhos, que era mais uma barragem a ajudar a amortecer as cheias, nós tínhamos evitado que o caudal chegasse aos 2000 metros por segundo no Açude de Coimbra.”

A infraestrutura é também pensada como uma barragem de fins múltiplos. “Terá como primeira prioridade a gestão das cheias, mas também funcionará como reserva estratégica de água para abastecimento público, agricultura e indústria, além de contribuir para a produção de energia hidroelétrica”, sublinha o responsável, enquadrando o projeto numa resposta mais ampla às necessidades do território.

Ainda assim, esta posição entra em confronto com as críticas técnicas e estruturais, uma vez que a estimativa apresentada se baseia em simulações de episódios passados, sem referência a estudos atualizados específicos. José Pimenta Machado reconhece limites ao afirmar que “na vida o risco zero não existe” e defende que o objetivo passa por minimizar o risco.

Um problema que começa antes das cheias

Apesar das divergências, há um ponto comum entre todas as perspetivas: o Mondego não está a falhar apenas quando transborda, mas revela fragilidades acumuladas ao longo do tempo.

“As últimas cheias puseram a nu a forma negligente como tem sido feita a gestão da bacia hidrográfica do Mondego”, afirma Francisco Oliveira.

E concretiza essa crítica com exemplos diretos: “Há décadas que os habitantes protestam contra a poluição dos rios e o problema continua por resolver (...) Mais: Um episódio preocupante de contaminação por cianobactérias ocorreu em abril de 2024. Alguém investigou as causas? Não temos conhecimento.”

Além das questões ambientais, o responsável destaca também problemas de governação, defendendo que o modelo atual é excessivamente centralizado e distante das realidades locais.

Os dados confirmam esta fragilidade estrutural, com uma parte significativa das massas de água da região a apresentar um estado inferior ao desejável, refletindo pressões contínuas que se acumulam e agravam a vulnerabilidade do sistema.

As consequências são já visíveis no terreno e projetam-se no futuro. “A repetição de prejuízos ano após ano poderá conduzir rapidamente ao abandono da atividade agrícola”, alerta Diana Valente.

Mais do que uma barragem, uma escolha de modelo

A barragem de Girabolhos tornou-se, assim, o ponto de convergência de um debate mais amplo sobre a gestão da água e do território, colocando em confronto diferentes visões sobre como responder a um problema complexo.

Por um lado, a necessidade de agir perante fenómenos extremos cada vez mais frequentes, que exigem medidas concretas de proteção. Por outro, a evidência de que esses fenómenos expõem fragilidades acumuladas ao longo de décadas, que dificilmente serão resolvidas através de uma única intervenção.

Neste equilíbrio delicado, o risco é transformar uma solução parcial numa resposta total, desviando a atenção de problemas estruturais que continuam por resolver. Porque, como mostram as cheias recentes, o Mondego não falha de forma súbita, mas sim ao longo do tempo, e é nesse processo acumulado que reside o verdadeiro desafio da sua gestão.