Cabras algarvias ajudam a prevenir incêndios no Parque da Pena através do controlo natural da vegetação
A Parques de Sintra – Monte da Lua integrou, na última semana de maio, duas cabras e um bode da raça algarvia no Parque da Pena, numa iniciativa que procura reduzir a carga combustível, controlar espécies invasoras e reforçar a biodiversidade através do pastoreio dirigido.
A iniciativa integra a nova estratégia de Gestão do Património Natural da Parques de Sintra, que aposta na diversificação dos métodos de controlo da vegetação nos seus parques e florestas. No Parque da Pena, os animais foram colocados na zona poente, onde foram identificadas necessidades mais urgentes de gestão da carga combustível e de espécies invasoras.
Apesar de mais lento do que os meios mecânicos, o recurso à chamada herbivoria dirigida apresenta várias vantagens ambientais. “O uso de herbivoria doméstica para controlo de vegetação arbustiva permite um resultado por um período mais prolongado no tempo, reduzindo a compactação do solo, emissões de CO2 e ainda devolve nutrientes ao solo, acelerando a sua regeneração”, explicou Carolina Carvalho, Diretora para o Património Natural da Parques de Sintra, ao Conta Lá.
De acordo com a responsável, esta prática contribui também para o reforço da biodiversidade e para a criação de ecossistemas mais equilibrados. No caso do Parque da Pena, acrescenta, a utilização dos animais permite reduzir o ruído associado aos trabalhos mecânicos e proporciona aos visitantes um contacto mais próximo com formas tradicionais de gestão da paisagem.
Uma gestão contínua ao longo do ano
A prevenção de incêndios é um dos principais objetivos do projeto. Ao alimentarem-se de arbustos, rebentos e vegetação espontânea, incluindo espécies invasoras lenhosas, as cabras ajudam a diminuir a quantidade de material combustível disponível no terreno, reduzindo as condições que favorecem a propagação do fogo. A intervenção permite ainda reduzir a densidade vegetal e favorecer a regeneração de espécies autóctones.
“Poderá garantir uma gestão mais contínua da carga combustível ao longo do ano, visto que em período crítico de incêndio o uso de meios mecânicos de controlo de vegetação é mais limitado”, sublinhou Carolina Carvalho.
Para a Parques de Sintra, a iniciativa representa também uma forma de recuperar práticas tradicionais associadas à gestão da paisagem da Serra de Sintra. A responsável considera que a reintrodução destes animais contribui para preservar costumes e métodos históricos que foram desaparecendo ao longo das últimas décadas.
Além do impacto na gestão florestal, o projeto procura valorizar a raça algarvia, uma raça autóctone portuguesa conhecida pela sua rusticidade e capacidade de adaptação. As características destes animais tornam-nos particularmente adequados para este tipo de trabalho, permitindo uma intervenção contínua e de baixo impacto ambiental.
Carolina Carvalho acredita que soluções semelhantes poderão tornar-se mais frequentes noutras áreas naturais e florestais do país. Perante os desafios colocados pelas alterações climáticas e pelos fenómenos extremos cada vez mais frequentes, a responsável defende uma maior recuperação de métodos tradicionais de gestão agroflorestal, considerando que estes podem desempenhar um papel importante na construção de paisagens mais sustentáveis, biodiversas e resilientes.