Com mais de quatro mil artigos, centenária Casa Leonel ainda vende os produtos de antigamente

Num ato diário de resiliência e luta contra a modernidade, é no centro histórico de Mação que se mantém de portas abertas uma das mais antigas e últimas drogarias do país. O Conta Lá entrou neste lugar onde as contas ainda se fazem em escudos e com direito "a um descontinho".
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
03 jan. 2026, 07:00

Imagem de armários com vários objetos vendidos numa drogaria, desde torneiras, parafusos, ferragens, ferramentas diversas.
A Casa Leonel, em Mação, tem um espólio de mais de 4000 artigos, muitos deles únicos e que só se encontram aqui. Imagem: Conta Lá

Por entre as ruas calcetadas de Mação, na zona norte do distrito de Santarém, vislumbramos duas portas estreitas e envidraçadas que destoam do comum das casas. Um extenso letreiro antigo desfaz-nos a curiosidade: “Ferragens, Cutelaria, Tintas, Vernizes e Torneiras; Ferramentas, Louças, Cristais, Vidraça e Pirex”. Ao centro da montra, identificamos a “Casa Leonel”.

Ao entrarmos, o cenário faz jus à publicidade anunciada. Entre vitrines, balcões e caixas a cada canto, aqui há de tudo. 

As vitrines da entrada da Casa Leonel deixam espreitar a quantidade de artigos que se espalham pelo interior. Fotografia: Conta Lá

“É difícil saber ao certo, mas a última vez que contabilizámos, há dois anos, tínhamos na ordem dos seis mil artigos. Hoje, devem ser uns quatro mil, talvez um pouco mais. Isto porque também há muitas marcas que são antigas e vão deixando de produzir e há outras coisas que a gente vê que não têm saída e vamos desistindo de ter”, diz-nos César Eira, o proprietário da Casa Leonel.

Apesar das dificuldades resultantes da evolução dos tempos, a loja ainda se encontra cheia e difícil de percorrer, pelo amontoado de tudo e mais alguma coisa. Entre as prateleiras, ainda saltam à vista marcas que perduram na memória dos clientes e das gerações mais antigas, umas mais fáceis de encontrar do que outras.

“Ainda temos o detergente Presto, Omo, Rex Original para os pavimentos, o sabão azul”, enumera César Eira, que nos apresenta a “verruma”. Uma ferramenta manual em forma de espiral com ponta de parafuso usada para fazer furos na madeira sem rachar, “no tempo em que ainda não existiam os berbequins”. Eram produzidas numa fábrica na localidade de Chão de Codes, em Mação, que acabara por fechar e cujos últimos exemplares se guardam na Casa Leonel.

Detergentes de roupa, pós para pavimentos, verrumas e produtos para a barba são alguns dos produtos da Casa Leonel. Fotografias: Conta Lá

Mas tantos outros tesouros se mantêm aqui, como “Limpa Metais N.º1 Coração – Solarine”. Como o nome indica, é usado para limpar os metais e as pratas quando começam a ficar amarelos.  

“Este só já se vende aqui e em Lisboa, mas em Lisboa já é difícil de encontrar”, conta-nos com o orgulho de quem guarda uma relíquia, Maria José, esposa de César Eira.

Foi, aliás, por sua “culpa” que a drogaria veio parar às mãos do casal, a dia 5 de janeiro de 2011, já lá vão 15 anos.

Maria José e César Eira recuperaram o negócio da Casa Leonel, uma dos comércios pioneiros da vila de Mação. Fotografia: Conta Lá

“Cruzámo-nos a primeira vez em 1985. Foi ali no Café Central, estava a chover, ele deu-me boleia para casa e descobrimos que éramos vizinhos de porta. Eu vinha cá mas estava no Canadá, depois voltei para lá mas começámos a falar e já não parámos”, recorda Maria José.

Natural de Mação, Maria José foi ainda jovem para o estrangeiro em busca de uma vida melhor. Enquanto trabalhava como educadora de infância no Canadá, César sempre ficou pela terra, onde trabalhou na construção civil e depois como “aprendiz de eletricista”. Tinha as malas prontas para embarcar para a Arábia Saudita em busca de uma oportunidade de emprego quando Maria José lhe perguntou “E porque não antes o Canadá?”. E assim foi, um ano depois de se conhecerem.

“Fomos à embaixada e perguntei qual era a hipótese de ele ir para o Canadá comigo e a senhora perguntou se éramos para casar. Olhámos um para o outro e dissemos que sim, mas não tínhamos essa ideia. Então tratou-se dos papéis e ele legalizou-se e foi comigo para lá, em 1986”, conta Maria José. 

Por lá ficaram até 2005, altura em que decidiram regressar às origens. 

“Já não fazia sentido estar lá, andava triste, fui ao médico e ele disse que eu tinha a sun disease, era a falta do sol”, refere Maria José. “E também, depois do 11 de setembro de 2001, com o ataque terrorista, houve muitos contratos que o Canadá tinha com a América para fazer grandes pontes e obras que acabou por suspender, o governo era neutro e não se queria meter em confusões e parou as obras, cessaram muitos contratos e deixei de ter trabalho”, acrescenta César, que na altura trabalhava na construção civil.

No regresso a casa, a Casa Leonel piscava-lhes o olho no caminho que faziam diariamente até ao café. Maria José era cliente frequente da drogaria, onde namorava uma máquina registadora antiga, a jóia da casa.

Hoje, a máquina registadora serve apenas para memória, devido à falta de fita para funcionar. Na altura, era um “computador”, com diferentes seções consoante os preços de cada peça. Fotografia: Conta Lá

“Vinha aqui e dizia para o António Catarino, o filho de Leonel Catarino, o original fundador da Casa Leonel, ‘você tem de me vender essa máquina’. Ele dizia sempre que não. Até que um dia passei e perguntei ‘e arrendam?’ e a resposta foi positiva”, lembra Maria José.

15 anos passaram e embora os preços já não sejam os de antigamente, as contas ainda se fazem primeiro em escudos.

“Tenho ali parafusos a cinco escudos. Mas a verdade é que nós todos andamos aqui para ganhar um euro, não é para perder”, diz, entre risos, Maria José. “Veja esta aldraba, era vendida a 40 escudos, 20 cêntimos. Mas também lhe digo uma coisa, sempre pedi aos meus fornecedores ‘mandem-me coisas boas’. Podiam ser caras, mas a loja sempre foi conhecida por ter coisas boas”, admite.

As aldrabas, usadas para trancar portas (lado superior esquerdo), são uma das peças vendidas na Casa Leonel, a par do sabão de seda e das torradeiras. Fotografias: Conta Lá

Com uma existência que a população de Mação acredita já ter ultrapassado os 100 anos, a Casa Leonel ainda mantém hoje muitos dos fornecedores de antigamente. Num lugar onde prioriza a tradição, esta não é apenas uma drogaria, mas também um sítio de memórias. 

Foi a primeira loja do concelho de Mação a ter uma televisão, nos finais da década de 50, o que fazia concentrar as senhoras da vila que “traziam para cá uma cadeirinha e ver a missa”, conta César Eira, replicando as histórias que se fazem ouvir pelo concelho.

Hoje, a televisão já não faz encher a loja, mas os clientes ainda vão aparecendo, e até estrangeiros.

“Temos muitos ingleses, alemães e mesmo portugueses que procuram especialmente as ferragens mais antigas, os batentes das portas. Porque querem recuperar casas antigas e querem manter a traça original. O que está a tornar-se difícil é encontrar o material porque as fábricas estão todas a fechar”, refere Maria José.

As ferragens antigas são um dos artigos mais procurados pelos clientes, para a recuperação de casas. Fotografia: Conta Lá

Mas as portas da Casa Leonel são para manter abertas “pelo menos mais uns anos”, admite o casal. Maria José, com 63 anos, e César Eira, com 66, assumem querer levar o negócio além da reforma, até porque passar o ofício para a geração seguinte não é algo que vejam a acontecer, pela “maneira de pensar diferente”.

Enquanto as portas estão abertas e o material continua a chegar, César Eira vai-se entretendo no meio do seu caos organizado de cordas, cordéis, parafusos, pregos, sabonetes, tintas, torneiras, vassouras e tantas outras miudagens.

Já Maria José aproveita para continuar a manter viva a memória da Casa Leonel, com o “pequeno museu” que está a construir em casa, guardando “um ou dois exemplares” dos produtos que a cada dia se tornam cada vez mais “em vias de extinção”.