Com subfinanciamento crónico, ensino superior vê-se com dificuldades em atrair talento

O recém-eleito presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) alertou  para o subfinanciamento crónico do ensino superior e consequente desvalorização da carreira docente, que dificulta o “atrair de talento”.
Agência Lusa
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18 abr. 2026, 11:30

“O vencimento de um professor universitário baixou cerca de 30%” numa década, alertou o reitor da Universidade de Lisboa, Luís Ferreira, eleito para suceder a Paulo Ferreira à frente da organização que representa as universidades portuguesas.

Luís Ferreira defendeu que o subfinanciamento das instituições – que vê como um “dos problemas crónicos” do sistema de ensino superior - dificulta o trabalho no momento de “atrair talento para o desenvolvimento de uma carreira universitária".

A critica de subfinanciamento é sustentada em números lembrados pelo reitor que deu como exemplo o facto de, em média, as instituições de ensino superior (IES) da OCDE receberem anualmente cerca de 21 mil dólares por aluno, enquanto em Portugal o valor ronda os 14 mil dólares.

Além disso, a média de financiamento estatal nas instituições da OCDE é de 80%, mas em Portugal o Estado comparticipa com apenas metade e “às vezes até menos”, acrescentou. O resultado é que o investimento em investigação e desenvolvimento também fica “muito aquém dos padrões europeus”.

Luís Ferreira tomará posse como presidente do CRUP a 11 de maio, num “momento difícil”, disse, referindo-se às mudanças em curso, como a criação de um novo sistema de ação social, um novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) e um novo Regime Jurídico dos Graus e Diplomas.

Também o estatuto da carreira de investigação foi recentemente alterado e está agora em perspetiva a alteração do estatuto da carreira docente, além de outras mudanças como a transformação de algumas escolas politécnicas e institutos politécnicos em institutos universitários ou em universidades, acrescentou.

O reitor da Universidade de Lisboa irá substituir o professor Paulo Ferreira e promete uma transição "sem ruturas", reconhecendo o “excelente trabalho” da anterior equipa, que planeia continuar.

Entre as preocupações de Luís Ferreira está também a garantia de que nenhum aluno fica impedido de “fazer o curso que quiser, onde quiser” por questões económicas.

Segundo o presidente do CRUP, a atual proposta de ação social vai neste sentido, sendo “um avanço muito grande em relação ao diploma existente”.

No entanto, não será suficiente para responder à carência de quartos a preços acessíveis. O preço do alojamento continua a ser um dos maiores entraves ao acesso ensino superior. “Em algumas cidades, em algumas áreas do território, ainda temos um défice grande de residências para estudantes”, alertou.

A quatro meses do fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), Luís Ferreira lembrou a necessidade de acabar as obras em curso, algumas delas paradas devido ao temporal que assolou o centro do país e desviou empresas e fornecedores.

Algumas obras de construção e requalificação de edifícios poderão estar em risco de perder fundos, até porque os valores contratualizados poderão disparar devido à guerra no Médio Oriente, disse o presidente do CRUP, que vê este problema como um “desafio de grandes dimensões que terá de se saber ultrapassar”.

“Nós continuamos a ter uma dificuldade enorme no acesso ao alojamento, temos infraestruturas científicas e tecnológicas desatualizadas e que precisavam de uma atualização muito rápida, porque, de outra forma, vão continuar a deteriorar-se rapidamente”, acrescentou.

O aumento de alunos estrangeiros nas universidades portuguesas é outro dos dossiês do CRUP, que saúda este crescimento. No entanto, Luis Ferreira reconhece que esta procura faz, em parte, disparar as propinas de alguns mestrados e doutoramentos para valores inacessíveis a muitas famílias portuguesas, em especial os cursos das áreas de Economia e Gestão.

“É preciso encontrar mecanismos para que todos aqueles que querem fazer mestrados ou doutoramentos possam fazê-lo e que tenham condições”, disse, defendendo que o CRUP “está em boas condições para refletir sobre essa matéria".

A Inteligência Artificial é outra das pastas do CRUP, que reconhece que as instituições vivem num “tempo que está a mudar rapidamente” e que a IA “vai alterar profundamente a forma como se ensina, aprende e avalia”.