Como a academia e a enologia estão "a responder às necessidades" de Vila Real
A emissão da Estrada Nacional 2 chegou esta quarta-feira ao quilómetro 64. A partir de Vila Real, o Conta Lá falou com protagonistas da região. Participaram neste painel a vice-reitora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Carla Amaral, Tiago Alves de Sousa, enólogo da UTAD, e artista Emmy Curl.
No ano em que completa 40 anos, a UTAD continua a apostar nas áreas das Ciências Agrárias, ligadas ao território. “O que nos tem orientado é o serviço ao território. Apostar nas áreas em que nós temos conhecimento profundo, como, por exemplo, na enologia, que é uma área que somos muito bons a nível internacional, e em resposta às necessidades do território”, afirma Carla Amaral.
Para Tiago Alves de Sousa, a criação de cursos relacionados à enologia, na UTAD, foi o grande fator de mudança para o setor na região. “A tradição em Portugal é muito vasta, mas é um saber muito empírico, por isso, a criação de cursos dentro desta área mudou tudo e a UTAD teve um papel principal, sendo que atualmente encontramos alunos ou antigos alunos não só a contribuir para os vinhos nacionais, mas também das principais regiões vitivinícolas do mundo”, refere.
A academia tem desempenhado ainda um papel fundamental na fixação de jovens neste território, segundo a vice-reitora. Para além da enologia, “temos também feito muito na transferência de conhecimento e na criação de emprego para fixar os jovens”, diz Carla Amaral. Quer através do trabalho com “empresas, com a parte de ciência e tecnologia e ao facilitarmos a criação de quadros especializados, estamos a contribuir para o desenvolvimento da região”, garante.
A UTAD tem atualmente mais de 9.000 estudantes, em 35 licenciaturas, perto de 40 mestrados e acima de 20 doutoramentos. No próximo ano letivo abre o curso de Medicina, com 40 vagas, em colaboração com a Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Já a artista Emmy Curl falou sobre as suas raízes e a forma como o cancioneiro transmontano a inspira na sua arte.
Os pais de Emmy Curl, nome artístico de Catarina Miranda, tinham uma banda e, com 15 anos, a artista insistiu para que lhe ensinassem a produzir música. Depois, o espírito aventureiro levou-a a percorrer o país de autocarro para escrever as suas canções. “Saí de Vila Real pelo país fora com a guitarra nas costas e de autocarro porque não há comboios”, refere.
É nessa altura que surge o nome da artista que começou a cantar em inglês. “Aos 15 anos estava na fase da adolescência em que não queria que ninguém soubesse, principalmente os meus pais, o que é que eu estava a cantar, por isso, cantava em inglês, e pus o nome Emmy Curl, para ninguém me reconhecer”, recorda. Uma agência de talentos conhece o trabalho da artista devido ao sucesso na rede MySpace e, desde então, é este o seu trabalho.
Emmy Curl descobriu o cancioneiro português há cerca de 15 anos. “O cancioneiro apareceu por volta dos meus 20 anos, quando aprendi Zeca Afonso e comecei a cantar a música ‘Maio, Maduro Maio’”, revela. A artista transmontana lembra que a natureza e a ancestralidade fazem parte da sua música desde o início.
“Já gostava muito da natureza, tanto que os meus primeiros videoclipes foram filmados aqui no Alvão, e na natureza. Portanto, foi algo que só se foi construindo mais tarde com o conhecimento que ia adquirindo pela ancestralidade.”
O cancioneiro português, segundo Emmy Curl, está naturalmente ligado à natureza e à espiritualidade. “A música do cancioneiro ligou as pessoas umas com as outras, era aquilo que elas cantavam no trabalho” e “é espiritual, porque nos une a todos e tem ainda mais a parte ancestral ao comunicar o que os nossos antepassados cantavam, o que pensavam e as melodias que tinham”, explica. “Tudo isto tem que ser transmitido às novas gerações, não se pode perder”, acrescenta.
A artista une, nos seus trabalhos, os instrumentos tradicionais com elementos de jazz e swing. “Incorporo todas as sabedorias que tenho numa única forma e acho que o mais valioso é incorporar os conhecimentos todos num trabalho”, assegura.
Emmy Curl destaca ainda a forma como, em Portugal, ainda não são incorporados outros estilos na música tradicional, ao contrário do que acontece noutros países. “No Brasil, por exemplo, já incorporam o jazz e a música clássica na música tradicional e nós ainda estamos um pouco atrás.”
A vencedora do prémio José Afonso, de 2025, defende que o percurso que falta na música tradicional portuguesa é o “de introduzir a musicalidade mais elaborada no nosso cancioneiro, que é muito rico e tem melodias maravilhosas” e garante que “às vezes, só é preciso um arranjo mais interessante, porque o resto está tudo lá”.