Como gerir o peso emocional do fim do ano e o impacto das redes sociais

O fim do ano traz balanços pessoais que podem intensificar os sentimentos de tristeza e frustração. As redes sociais, que amplificam mensagens de sucesso e bem-estar, podem agravar quadros de ansiedade e depressão.
Regina Ferreira Nunes
Regina Ferreira Nunes Jornalista
31 dez. 2025, 08:02

Jovem sentado em frente à parede, onde se projeta uma confusão de linhas que representam a sobrecarga de pensamentos do jovem
Fotografia: Não comparar realidades com outros é um dos segredos para o bem-estar emocional

O fim do ano é, para muitas pessoas, um momento inevitável de balanço. Entre metas que ficaram por alcançar, objetivos adiados e promessas que não se concretizaram, podem surgir sentimentos de frustração, culpa ou ansiedade. O psicólogo Eduardo Carqueja refere, em entrevista ao Conta Lá, que este estado de espírito resulta de um ano inteiro vivido “sem pausas reais para refletir”. 

“O problema não é o fim do ano em si. É termos passado o ano todo sem parar para pensar e deixarmos tudo para o último momento”, explica.

Culturalmente, acrescenta, os portugueses tendem a adiar essa análise, o que faz com que, à medida que o calendário se aproxima do dia 31, a sensação de sufoco aumente: “Começamos a perceber que já não vamos conseguir fazer coisas que tínhamos definido."

Uma das principais fontes de frustração está, segundo Eduardo Carqueja, na forma como são definidos os objetivos: “Muitas vezes propomo-nos a coisas que não dependem apenas de nós”, sublinha. O primeiro passo, diz, é perceber se aquilo que se deseja concretizar é realista e se depende exclusivamente da ação individual ou de terceiros, da conjuntura ou até do acaso.

O psicólogo dá um exemplo simples: “Se eu decidir que no próximo ano vou ganhar um milhão de euros, eu posso querer muito, mas no final do ano vou estar frustrado, porque isso não depende só do meu trabalho”. O mesmo acontece com metas pessoais, aparentemente mais comuns, como emagrecer ou mudar de carreira, quando não são avaliadas as condições reais para que isso aconteça.

Para reduzir a frustração, defende, torna-se essencial distinguir o que falhou por falta de empenho e aquilo que não se concretizou por fatores externos: “A minha parte eu fiz? Então isso também tem de contar”, reforça.

Por outro lado, nesta altura do ano, as redes sociais amplificam a percepção de sucesso e bem-estar. Balanços pessoais felizes, listas de concretizações e mensagens motivacionais podem intensificar sentimentos de tristeza e frustração. Para Eduardo Carqueja, este fenómeno tornou-se particularmente perigoso com a propagação de discursos superficiais sobre felicidade e sucesso nas plataformas digitais.

“Há uma ideia muito difundida de que ‘só não consegues se não quiseres’. Isto é falso e perigoso”, afirma.

O psicólogo alerta para os impactos deste discurso, sobretudo nos mais jovens, associando-o ao aumento de quadros de ansiedade e depressão: “Se eu não sou feliz, a mensagem que recebo é que sou fraco ou incompetente.”

 

Tristeza e desmotivação não é fraqueza

Para quem entrar no novo ano emocionalmente instável ou cansado, o psicólogo afirma que esses estados são legítimos: “Eu posso estar triste, cansado ou fraco. Isso não faz de mim uma pessoa fraca”, explica.

A distinção entre “estar” e “ficar” é fundamental. A desmotivação pode ser uma resposta natural a projetos que falharam. O risco, sublinha, está em interpretar este estado como permanente. 

“O ano novo não pode ser visto como o dia em que vou mudar toda a minha vida”, alerta. Mudanças radicais ou imediatas podem falhar, sobretudo quando implicam outras pessoas. O psicólogo compara estas promessas às grandes promessas políticas: “São audazes, mas irrealistas.”

Transformar a frustração em aprendizagem passa, segundo Eduardo Carqueja, por fazer uma avaliação introspetiva com honestidade: “Não é perguntar onde falhei, mas onde não consegui concretizar o que tinha proposto”, explica.

Eduardo Carqueja exemplifica: se o objetivo era emagrecer 10 quilos e foram perdidos apenas oito, isso também é um resultado. A partir daí, importa identificar os fatores que dificultam o processo e usá-los como base para objetivos futuros mais ajustados.

A falta de avaliação é, na sua opinião, um problema recorrente: “Fazemos projetos atrás de projetos sem avaliarmos os anteriores”, afirma, acrescentando que metas excessivamente ambiciosas geram mais frustração do que motivação.

O psicólogo deixa, por isso, três ideias-chave para este período de reflexão: definir objetivos exequíveis, perceber se dependem ou não apenas de si e conhecer os próprios recursos.