Constância nasceu dos rios e guarda a memória marítima do Tejo

Numa vila que desde sempre se moldou entre as águas dos rios Tejo e Zêzere, Constância foi até ao início do século XX um dos mais importantes portos fluviais do país. Era daqui, pelo Tejo abaixo – o Mar da Palha - que cereais, vinho e cortiça saíam para abastecer Lisboa. Hoje, o património fluvial é uma memória viva que se conta no Museu dos Rios e Artes Marítimas. 
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
09 mai. 2026, 08:00

No coração do Ribatejo, num lugar que serviu de inspiração a Luís Vaz de Camões, Constância é hoje uma vila onde predomina a tranquilidade e o sossego. Na margem dos rios Tejo e Zêzere descansam pequenas embarcações de madeira, embaladas pela corrente branda das águas, num cenário que em nada faria adivinhar que outrora aqui fervilhava a azáfama de um dos mais importantes portos fluviais do país.

Assim foi até ao início do século XX, quando os rios ainda eram as principais vias de comunicação e de comércio entre o interior e o resto do país. Pelas águas agitadas do Tejo circulavam alimentos, bens e pessoas, num intercâmbio diário que encurtava as distâncias dentro do país e permitia o sustento das populações.

“A vila nasceu com o rio e a população vivia do rio. Na época em que o Tejo era navegável – porque a falta de água no verão não o permitia - toda a vida desta vila se fazia em função do rio”, explica ao Conta Lá Anabela Cardoso, técnica do Museu dos Rios e das Artes Marítimas, que abre as portas para o passado desta vila ribeirinha.

Mas muito antes do transporte fluvial se concretizar, era preciso haver quem desse vida às embarcações. Eram os calafates que, com “desenhos feito ou apenas de cabeça” construíam de raiz as embarcações, desde barcos a lanchas, bateiras ou varinos. “Eram os barcos que iam a Lisboa, com mais de 50, 60 toneladas, eram feitos pelos calafates que os construíam nos estaleiros a montante do rio, desde o abate do pinheiro até ao colocar do barco na água”, revela.

“Desde carpintaria, calafetar – meter estopa entre as tábuas para não deixar entrar água – até impermeabilizar com breu, pintar, era tudo feito à mão desde o início ao fim”, acrescenta Anabela Cardoso, numa altura em que são já poucos os que se dedicam a este ofício. 

A pesca: o ganha-pão de quem vivia do rio

Com as embarcações prontas a entrar no rio, era no ofício da pesca que a população de Constância encontrava a sua subsistência. “Havia muitos pescadores, gente muito humilde, porque também as espécies eram imensas. Por exemplo, o sável que hoje já pouco se encontra. Era muito rentável e era tudo vendido para os restaurantes e casas de petisco em Lisboa”, conta Anabela Cardoso.

Num ofício que passava de geração em geração, enquanto “os homens colocavam a armadilha à noite no fundo do rio para apanhar o peixe”, também as mulheres, em terra, metiam as agulhas nas mãos para tecer as redes de pesca. 

“Faziam as alvitanas [rede de malha apertada], desde meninas, quando vinham da escola já aprendiam a fazer. Quando estivesse pronto, entregavam em jeito de trança à fábrica para receber dinheiro em troca e conseguir subsistir enquanto os homens – os marítimos - estavam fora, sobretudo no verão quando as águas do Tejo não permitiam regressar a casa”, explica a técnica do Museu dos Rios e Artes Marítimas.

Do peixe ao vinho, era pelo Mar da Palha que o interior chegava a Lisboa

Era nessa viagem dos marítimos Lisboa que se via o mundo e se trocavam experiências e saberes. “Muitas vezes, não sabiam ler nem escrever, mas era gente privilegiada que iam a Lisboa, percorriam o rio e iam à capital ver coisas que a maior parte das gentes não via, porque nascia e morria aqui na aldeia. Esta gente trazia conhecimento”, diz Anabela Cardoso.

Desde os cereais, o vinho, a fruta, o azeite e a cortiça, tudo o que era proveniente da agricultura e da floresta rumava a Lisboa pelo Mar da Palha até ao estuário do Tejo. “Um dos produtos que mais seguia para Lisboa no final do verão, depois da ceifa, era a palha para os animais. E muitas vezes, apesar de ser bem apertada com cordas, quando chegava ao estuário os ventos fortes batiam na palha e ia-se depositando à superfície, daí o nome Mar da Palha”, elucida a responsável.

Mas se as embarcações iam carregadas para Lisboa, também no regresso não vinham vazias. “Traziam todo o tipo de produtos que vinham da indústria: um tecido mais fino, uma louça mais fina, e vinha um produto essencial que era o sal. Vinha a granel no barco, as mulheres retiravam-no e transportavam-no com alguidares à cabeça, era importantíssimo para conservar a carne das matanças”. Ao sal, juntava-se o sabão que, embora não acessível ao bolso de todos, era “essencial para se lavar a roupa junto ao rio”.

A mudança de século e o encostar das embarcações

Numa vida com relação estreita à água, apesar de ser o principal meio de comunicação e transporte, o rio era também uma fonte de perigo para os marítimos. “Havia muitos motivos para haver um naufrágio, para se perder a carga, para as pessoas morrerem porque não havia coletes, não havia nada, muitas vezes as pessoas não sabiam nadar e uma queda ao rio podia ser fatal”, elabora Anabela Cardoso. “A ondulação, as correntes estranhas, os obstáculos e a possibilidade de roubos”, levaram os homens a nutrir devoção pela Nossa Senhora da Boa Viagem, a padroeira dos marítimos.

“Este perigo, só a Nossa Senhora da Boa Viagem podia impedir, podia ajudar esta gente que trabalhava no rio. E havia uma devoção imensa, uma fé imensa que perdura até hoje”. Exemplo disso é a procissão que atravessa séculos e ainda hoje se realiza na segunda-feira de Páscoa, onde gentes trajadas vêm de todo o país em barcos engalanados, para pedir em Constância a bênção das embarcações.

“A bênção era uma forma de garantir que o ano que estava a começar seria bom e estariam protegidos, mas também uma forma de agradecer o ano que tinha passado”, relembra Anabela Cardoso.  A devoção permanece ainda intacta, mas a vida de rio é hoje apenas uma memória viva.

“O início do século XX, final do século XIX, com o aparecimento dos comboios, foi uma machadada. O aperfeiçoamento das estradas, a construção de pontes ferroviárias sobre o Tejo, as camionetas que começaram a poder ir aos locais às portas das fábricas, tudo isto fez declinar o transporte fluvial”, lembra a técnica do Museu dos Rios e Artes Marítimas.

É neste museu, à beira da Estrada Nacional 3, no coração de Constância, que é ainda possível lembrar a identidade de uma vila que apesar de ocupada por estradas, se recusa a encostar de vez as embarcações, com passeios em barcos tradicionais durante o verão e o transporte diário da população entre as margens que o rio une.