Cooperativa de habitação renasce para dar resposta à crise e pressionar o Governo

A nova cooperativa Urbisjovem surge para responder à crise da habitação jovem, defendendo o regresso do modelo cooperativo com apoio público e preços acessíveis. Com raízes do movimento Habijovem, o objetivo é retomar a construção a custos controlados, apostando em terrenos públicos e financiamento bonificado.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
07 abr. 2026, 08:00

Durante este mês de março foi formalizada a cooperativa de habitação jovem Urbisjovem que surge como uma tentativa de recuperar o modelo cooperativo num momento em que o acesso a uma casa se tornou um dos principais problemas sociais em Portugal. Esta nova cooperativa surge cerca de 40 anos depois dos primeiros passos do movimento Habijovem, que contribuiu para entregar milhares de casas a jovens nos anos 80 e 90, em várias regiões do país.

Alguns dos nomes que na altura geriam a Habijovem são os mesmos que os da Urbisjovem. É o caso de Paulo Neves, presidente da Assembleia Geral da nova cooperativa, que traça um diagnóstico claro: “Neste momento já não há habitação para pessoas normais”, resultado de décadas em que o mercado foi progressivamente dominado por interesses privados e financeiros, acrescenta.

“Começou por haver construção privada, depois passou para turismo e, mais tarde, para fundos de investimento. Chegámos ao ponto em que quem manda no mercado imobiliário são os fundos”, afirmou em entrevista ao Conta Lá.

O modelo que se pretende recuperar remonta aos anos 80, na altura designado Habijovem. A primeira cooperativa foi criada no Porto, em 1983. A partir daí, o movimento expandiu-se a várias regiões do país. Foi assim que depois surgiu a Habijovem Algarve, seguindo-se de Lisboa, Santarém, Coimbra, Aveiro, Reguengos de Monsaraz e Seia.

A direção da Urbisjovem será liderada por José Arruda, que na década de 90 presidiu à Habijovem Santarém.

Paulo Neves, antigo presidente da Habijovem Algarve, considera que há agora uma responsabilidade geracional em retomar o caminho que nasceu com a Habijovem: “Já fizemos isto há 30 ou 40 anos. Na altura estávamos na casa dos 20 anos. Hoje, temos mais experiência e sentimos que devemos ajudar a que as cooperativas voltem a ter um papel na habitação”.

O modelo defendido assenta em quatro pilares: terrenos públicos, financiamento com apoio estatal, construção a custos controlados e ausência de lucro. “Nós não temos fins lucrativos. O ganho é todo transferido para os cooperadores, ou seja, para quem compra a casa”, explicou.

Segundo o responsável, esta combinação permite baixar significativamente os preços face ao mercado tradicional. Ainda assim, sublinha que as cooperativas não pretendem concorrer diretamente com o setor privado, mas sim preencher uma falha estrutural. “Os fundos de investimento não têm de fazer o nosso papel. O nosso papel é responder às necessidades das pessoas que não conseguem aceder ao mercado”.

Paulo Neves defende que a crise da habitação vai muito além dos preços elevados e já afeta a estabilidade social. “Há pessoas com emprego que não conseguem ter uma vida autónoma, não conseguem sair de casa dos pais ou constituir família porque não têm onde viver”, alertou.

Para inverter esta realidade, a Urbisjovem considera essencial o regresso do financiamento público à construção cooperativa, algo que desapareceu nas últimas décadas. “Se houver financiamento público, voltamos a fazer o que fizemos no passado: construir casas a custos acessíveis”, garantiu.

A cooperativa está também atenta às orientações europeias, que têm vindo a incentivar os Estados-membros a reforçar políticas de habitação acessível. Nesse sentido, Paulo Neves acredita que o contexto atual pode abrir uma oportunidade: “Estamos a acompanhar esse movimento e acreditamos que pode haver condições para voltar a financiar este tipo de projetos”.

 

Cooperativa quer pressionar Governo

Um dos objetivos centrais da Urbisjovem passa por influenciar o enquadramento legislativo. “Criámos a cooperativa também para pressionar o Governo a avançar com medidas que permitam o financiamento à construção cooperativa”, explicou Paulo Neves.

Apesar do potencial, o responsável reconhece que o caminho não será simples. A viabilidade dos projetos dependerá de vários fatores, desde o acesso a terrenos adequados até ao controlo rigoroso dos custos de construção. “É preciso muito cuidado com os projetos, com os materiais e com os terrenos. Se não houver essa disciplina, não conseguimos garantir casas mais baratas”, advertiu.

Numa primeira fase, a Urbisjovem vai promover conferências em várias regiões do país para dinamizar o debate e mobilizar parceiros institucionais, nomeadamente autarquias. A cooperativa pretende funcionar em rede e retomar o espírito de entreajuda que marcou o movimento cooperativo original.

“A cooperativa é, acima de tudo, um sistema de cooperação entre pessoas”, concluiu Paulo Neves, defendendo que este modelo pode voltar a ser uma resposta relevante num mercado onde, atualmente, “muitos jovens simplesmente não conseguem entrar”.