Criado no território e definido pela "liberdade": António José Seguro toma posse como Presidente da República
Nascido e criado na terra do maior Madeiro de Portugal, Penamacor fez de António José Seguro um homem de valores inabaláveis. Liberdade é a palavra que escolhe para definir o que a vila da Beira Baixa lhe transmitiu desde cedo. “É a minha Terra Natal, onde nasci, cresci, onde aprendi valores essenciais de liberdade, de combate às desigualdades, de justiça social”, revelou em entrevista exclusiva ao Conta Lá.
Nasceu a poucos dias da primavera, a 11 de março de 1962, numa altura em que o país ainda se regia por regras duras impostas pelo Estado Novo e a ruralidade era sinónimo de vidas humildes talhadas pela força do trabalho. Mas também pela liberdade das brincadeiras na rua entre vizinhos que se tornaram amigos.
Liberdade é mesmo uma das palavras que usa para descrever o lugar que o viu crescer. “Talvez porque não tínhamos parque infantil, toda a terra era um parque infantil. Andávamos em perfeita liberdade e todos cuidávamos uns dos outros”, recordou durante a visita a Penamacor em dezembro.
O amor por Penamacor
Na infância e juventude não pensava sair de “casa”, de Penamacor. “Gostava de ficar por aqui. Podia estudar na Universidade da Beira Interior. Gostava tanto da terra e era preciso fazer tanto, achava que o meu destino seria aqui”, revelou.
Mas a vida tinha outros planos. “Fui estudar para Lisboa e fiquei fora completamente de Penamacor”. Licenciou-se em Relações Internacionais, mas o coração ficou na terra e é na vila da Beira Baixa que colocou o reflexo do trabalho de uma vida. “Os meus investimentos estão aqui: a minha vinha, o meu olival, as minhas casas do alojamento local e tenho uma pequenina loja”.
Os amigos recordam a perspicácia para os jogos e as brincadeiras. Ao Conta Lá, revelaram que Seguro foi federado em juvenis e juniores na Associação de Futebol de Castelo Branco. Durante esse tempo, jogou na posição de avançado e os amigos reconhecem-lhe engenho para a tática futebolística. “Metia golos sem percebermos como sabia que a bola iria naquela direção”.
Penamacor é, para António José Seguro, sinónimo de memórias, investimento e valores que o acompanham ao longo da vida. “Há valores importantes de solidariedade, de resistência nas pessoas que ficaram, lutam e trabalham em Penamacor. Eles são os autênticos resistentes”, explicou ao Conta Lá. Por outro lado, no que respeita às relações pessoais, Seguro descreve mais calor humano no trato entre as gentes de Penamacor, ao comparar essa realidade com as grandes cidades.“É aqui que se aprende que o mundo tinha a ganhar se houvesse mais humanismo, se houvesse mais relações pessoais, as grandes metrópoles têm essa desvantagem. As relações são muito impessoais e aqui são muito pessoais”.
Se por um lado a terra o fez homem de valores inabaláveis, as memórias à volta do Madeiro de Penamacor são um dos momentos que não dispensa quando regressa a casa. Ao Conta Lá recordou a inspeção que se fazia ao Madeiro naquele tempo. E ainda os momentos divertidos com os amigos quando tinham entre 7 e 11 anos. Lembrou que corriam em torno do Madeiro, jogavam à bola, às pás e luas, à apanhada.
Naquele tempo de meninice, para inspecionar o Madeiro, usavam picaretas e, às vezes, as próprias mãos. “Era mais difícil e exigente, mas o entusiasmo e a alegria são rigorosamente os mesmos. E havia uma coisa curiosa. Quem não pudesse vir ao Madeiro tinha de oferecer um cântaro de vinho. Era uma forma de pagar essa ausência, digamos assim. Ainda hoje, o momento de atear o fogo ao Madeiro é muito especial. É um momento de partilha, de calor, de convívio, de grande amizade e fraternidade”.
Seguro com os “fixes” do PS
O jovem que pensava viver uma vida pacata em Penamacor, cedo percebeu que o sentimento de liberdade, de justiça social e de cidadania que o acompanhavam podia levá-lo para fora da Beira Baixa.


No rescaldo do 25 de Abril, ainda jovem, participou ativamente na criação do jornal A Verdade de Penamacor, um projeto local de afirmação democrática e liberdade de expressão. Foi diretor da publicação e chegou mesmo a entrevistar o então Presidente da República, o General Ramalho Eanes, sem que pudesse imaginar naquele tempo que chegaria ele próprio ao mais alto cargo político da nação.
A escrita, o debate e a intervenção cívica tornaram-se desde então instrumentos centrais da sua forma de estar na vida pública. Já a política ativa viria um pouco depois.
Socialista desde cedo, filiou-se no PS pouco depois de fazer 18 anos, no início dos anos 1980. Foi dirigente da Juventude Socialista entre 1990 e 1994, Secretário de Estado, deputado e ministro-adjunto de António Guterres entre 2001 e 2002. "Com António Guterres, o PS será mais fixe", declarou Seguro à Agência Lusa a 10 de janeiro de 1992. Uma expressão usada em 1986 pelo PS na campanha de Mário Soares nas eleições presidenciais, com o objetivo de aproximar o candidato aos eleitores mais jovens.
Com a ponderação e discrição que lhe são reconhecidos pelos mais próximos, durante a governação de José Sócrates assumiu um papel secundário. Foi cabeça de lista por Braga nas legislativas de 2005, 2009 e 2011. E também presidente das comissões parlamentares de Educação e de Economia, além de ter coordenado a reforma do Parlamento em 2007.
Ascensão e queda no tempo da troika
Na tentativa de manter o PS do lado dos “fixes”, entre 2011 e 2014, foi secretário-geral do PS. Sucedeu a José Sócrates e antecedeu a António Costa. Mas neste caso, não teve tarefa facilitada ao comando dos socialistas. Assumiu a liderança do partido num dos períodos mais difíceis da democracia portuguesa, em pleno contexto de austeridade, crise económica e intervenção externa. Ocupou um lugar central na oposição ao governo de Passos Coelho, sem procurar o confronto direto.
Conhecido pela ponderação e sensatez, sempre defendeu o diálogo e a moderação do discurso e das políticas públicas. Procurou falar com todos para encontrar sempre a melhor solução para os desafios que o país atravessava. Fê-lo com um discurso centrado na coesão social, na justiça e na necessidade de preservar a dignidade das pessoas num tempo de grande pressão económica. Uma postura que foi incapaz de agradar a “gregos e troianos”. Antes pelo contrário. Somou críticas à direita e à esquerda, incluindo no seio do Partido Socialista.
Exemplo disso foi a saída da liderança do PS. António José Seguro colocou o partido a abster-se na votação do Orçamento do Estado de 2014. Decisão polémica e altamente criticada dentro do partido. António Costa, então autarca de Lisboa, esteve na liderança dessa forte contestação que levou ao afastamento político do histórico de Penamacor. Seguro pediu a demissão do cargo de secretário-geral do PS e convocou um congresso extraordinário para que os militantes socialistas pudessem escolher a liderança do partido. António Costa venceu e Seguro saiu de cena.
De volta à escola até à conquista de Belém
Durante mais de uma década, Seguro afastou-se dos holofotes políticos e mediáticos. Dedicou a sua vida profissional ao ensino superior. Foi professor na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).
Volvidos 11 anos, o socialista saiu da sombra moderada que tinha usado nos últimos anos para, aos poucos, marcar presença na cena mediática. Primeiro voltou à televisão enquanto comentador e, em junho de 2025, anunciou que seria candidato presidencial para a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa. Na visão de Seguro, o “país precisa de mudança e esperança numa vida melhor” e ele seria o homem certo para tomar as rédeas desse caminho.
Pediu, sem reservas, ao povo que “votasse pelo Seguro”. E o povo votou. António José Seguro manteve uma postura ponderada, tranquila e sem dar espaço a polémicas durante a campanha da primeira volta das presidenciais. Foi o candidato mais votado, mas isso não chegou para vencer na primeira volta, apesar de ter contado com o apoio do Partido Socialista. Venceu em 17 distritos e nos Açores. Em Faro e na Madeira, o candidato mais votado foi André Ventura.
A segunda e derradeira volta das eleições presidenciais colocou o socialista moderado frente-a-frente do rosto da extrema-direita portuguesa na corrida a Belém. António José Seguro venceu e foi eleito Presidente da República com 66,82% de votos.