Criar “uma aldeia viva” é o sonho de um jovem de 22 anos que quer preservar a memória e identidade de Reirigo
António Loureiro é um jovem de 22 anos, estudante, ator, escritor, fotógrafo e videógrafo, apaixonado por história e com um grande sonho: transformar a aldeia onde passou grande parte da infância, Reirigo.
O projeto, a que chamou de “Reconstruir Reirigo”, foi dado a conhecer através de um vídeo que publicou nas redes sociais e que conta já com mais de 500 mil visualizações.
Esta aldeia, “isolada nos vales do alto Minho” tem apenas sete habitantes. A ideia do jovem estudante é, não só atrair mais pessoas ao local, como promover atividades que façam com os visitantes se envolvam na vida agrícola típica da região.
“Poderem aprender a fazer uma vassoura de vimes, a cozinhar pão no forno à lenha, workshops de artesanato, fazer a poda de árvores de frutos, fazer a apanha de frutos”, exemplifica.
Natural de Espinho, o jovem que sonha um dia viver no Alto Minho, sublinha que esta região "guarda algumas das mais belas e tranquilas paisagens" do país. "Reirigo então, é um verdadeiro pedaço do céu”, refere.
A ligação a Reirigo não é de agora. Há cerca de dez anos, a mãe de António comprou uma parte desta pequena aldeia do município de Paredes de Coura, onde tem familiares.
Do total das setes casas de Reirigo, três pertencem à família de Espinho e formam uma “quinta” de alojamento local, a Vila Margarida, que, neste momento, pode ser alugada apenas no verão: “Fechamos entre setembro e maio as reservas, ou seja, a quinta só funciona três meses por ano, por agora, porque os invernos são bastante frios e ainda não tem as condições ideais para receber hóspedes”, explica o jovem.
As obras de renovação, previstas para setembro ou outubro, vão permitir aos turistas visitar a aldeia o ano todo. Em entrevista ao Conta Lá, António explica que o que é atualmente um T5 será convertido para um T7, um dos T2 será convertido para um T3 e o outro T2 será para a sua própria habitação.
Mas as ideias não ficam por aí: o estudante diz ainda ter o “objetivo de recuperar o campo de futebol”, que quer transformar num campo multidesportivo, “também as áreas de jardim e da plantação de kiwis da quinta e ainda outros espaços comuns da aldeia”, dando exemplos como a fonte de pedra ou as próprias estradas e caminhos, que “estão a ser aos poucos tomadas pela natureza”.
“Projeto é quase como um retornar à casa”
Estudante de teatro na Escola Superior de Música e Artes de Espetáculo, António conta que começou a trabalhar como ator aos 14 anos, “principalmente em feiras medievais, a fazer espetáculos de rua de recriação histórica”. Ora, é precisamente isso, além da ligação familiar a Paredes de Coura, que o leva a querer, mais do que reabilitar uma parte da aldeia, a preservar a sua memória e identidade material e imaterial.
“A minha ideia é não ser só um simples alojamento de turismo rural, eu trabalho com recriação histórica e o meu grande objetivo é poder tornar aquilo uma aldeia viva, ou seja, as pessoas que vão para lá terem uma experiência historicamente correta daquilo que seria a vida agrícola de Portugal há 200 anos”, sublinha.
O jovem descreve Reirigo como um “daqueles lugares que são quase idílicos, quase um paraíso na Terra porque é completamente fora daquilo que é a norma social. Tem uma estrada mas não passam carros, não tem estabelecimentos comerciais, o que é quase uma utopia, é como se o tempo parasse literalmente ali, o tempo fosse congelado”.
Dos sete habitantes da aldeia, quatro moraram lá a vida toda e é com base nos seus testemunhos que António prepara um livro. “Elas contam muitas vezes a história daquela aldeia, são o último resquício da identidade daquele lugar, isso não se pode perder, (...) são as últimas quatro memórias vivas, eu acho que é muito poético”.
A filosofia do projeto passa, assim, por preservar a memória de “um lugar que teve séculos de história, porque a maior parte das aldeias com habitantes permanentes em núcleos rurais está a desaparecer completamente em Portugal, e ter só aquelas quatro pessoas com essa memória coletiva é a maior riqueza que pode ter aquele lugar”.
“O objetivo deste projeto não é fazer um resort turístico, é precisamente preservar a memória e a história da identidade portuguesa e do Alto Minho”, refere.
Deixar o litoral com rumo a uma aldeia isolada
Apesar de ter apenas 22 anos, António tem um grande desejo de “catapultar um pouco o potencial do local, não só como turismo e alojamento local" mas como um lugar para viver.
Experiência não lhe falta, já viajou para a 41 países e em muitos trabalhou como voluntário em quintas, com cavalos, plantações, “e também, claro, a fazer todas as atividades de restauro que são necessárias para a manutenção de ranchos”.
Diz que ganhou o gosto através dessas viagens, mas há também outro motivo que o move: “As minhas profissões não necessitam que eu me desloque todos os dias às oito da manhã para o meu escritório, ou seja, eu posso perfeitamente estar a morar num lugar mais isolado. E a fonte de rendimento, que é o alojamento local para uma quinta daquelas dimensões, é muito superior a qualquer tipo de trabalho convencional, digamos”, explica.
No futuro, admite que gostava de adquirir e renovar a totalidade da aldeia, transformando-a em habitação acessível. Para já, dedica-se a documentar nas redes sociais a renovação da parte que já tem, com um prazo entre um a dois anos, deixando o convite a todos para acompanhar a obra através da página que criou para o projeto.