De biblioteca contra o analfabetismo a palco de jazz: Valado dos Frades fez da cultura um ponto de encontro
Numa vila marcada pela ruralidade, onde há quase um século se combatia o analfabetismo com livros e vontade coletiva, há hoje concertos de jazz, residências artísticas e formação de públicos. Em Valado dos Frades, a cultura não chegou agora. Foi sendo construída, geração após geração.
A Biblioteca de Instrução e Recreio (BIR), fundada em 1933, volta a assumir esse papel com a 29.ª edição do Jazz Valado/Nazaré, que decorre entre 26 de abril e 6 de junho, um festival que liga a história da instituição ao presente artístico e mantém ativa uma missão que começou muito antes da música ocupar o palco.
Um festival com raízes e continuidade
Mais do que um evento isolado, o festival afirma-se como prolongamento natural da história da BIR. Em entrevista ao Conta Lá, Mário Marques, diretor artístico do Jazz Valado/Nazaré, sublinha essa ligação direta entre passado e presente: “O festival está profundamente alinhado com a missão da Biblioteca de Instrução e Recreio, que, desde a sua fundação, se afirma como um espaço de educação, cultura, desporto e cidadania”.
A ligação de Mário Marques ao projeto não é recente. Natural de Alcobaça e com um percurso já ligado ao festival enquanto músico, assumiu agora a direção artística com um “profundo sentido de responsabilidade”, motivado por uma relação próxima com o território e pela continuidade de um trabalho que conhece por dentro.
Essa continuidade não significa estagnação. A nova direção procura consolidar o festival enquanto espaço de excelência, sem perder a proximidade que o caracteriza. “Interessa-me uma programação que seja simultaneamente exigente e acessível, capaz de dialogar com diferentes públicos e de criar pontes entre contextos, gerações e linguagens”, explica.
Jazz com memória e novas vozes
A programação desta edição organiza-se em torno de dois eixos centrais: o centenário de John Coltrane e de Miles Davis, e a valorização do papel das mulheres no jazz contemporâneo.
Segundo Mário Marques, esta abordagem procura equilibrar tradição e renovação. “Procurámos construir um programa equilibrado, que dialogue entre tradição e contemporaneidade”, afirma, destacando também a aposta em artistas emergentes e na criação de uma residência artística com jovens talentos vindos do ensino superior de música.
A ligação ao território faz-se também através da memória cultural local, como no caso do centenário do Teatro Chaby Pinheiro, integrado na programação com um concerto de homenagem a Miles Davis. Ao mesmo tempo, há uma preocupação clara com a formação de públicos, nomeadamente junto dos mais jovens. “Considerámos fundamental levar o jazz às escolas”, refere, sublinhando a necessidade de aproximar esta linguagem de novos públicos.
Uma casa que é mais do que cultura
Se o festival dá visibilidade, é a BIR que sustenta o trabalho ao longo do ano. Mais do que um espaço físico, a instituição continua a ser um ponto de encontro e de construção coletiva na vila. “A BIR continua a assumir-se como um polo absolutamente fundamental na vida cultural e social de Valado dos Frades. Mais do que um espaço físico, é um verdadeiro lugar de pertença”, afirma Mário Marques.
Essa centralidade constrói-se em várias dimensões. Para além da programação cultural, a BIR mantém uma presença ativa no desporto e na dinamização social, contribuindo para a coesão da comunidade e para a criação de laços entre gerações.
Na sala de espetáculos, a experiência afasta-se do modelo tradicional e aproxima-se da intimidade de um clube. Trata-se de um espaço “não apenas como palco, mas como espaço de proximidade, com um carácter quase de clube”, onde a relação entre músicos e público se torna mais direta e partilhada.
A tudo isto junta-se um elemento estrutural: o voluntariado. O festival é, em grande medida, possível graças ao envolvimento de sócios e habitantes que mantêm viva a tradição associativa da instituição, transformando cada edição num esforço coletivo.
Um palco que começou com livros
Num país ainda marcado por desigualdades no acesso à cultura, projetos como o Jazz Valado/Nazaré assumem um papel que vai além da programação artística.
“A descentralização cultural é, hoje, uma necessidade incontornável”, defende Mário Marques, acrescentando que iniciativas deste tipo demonstram ser possível desenvolver programação de qualidade fora dos grandes centros urbanos.
Mais do que eventos periféricos, podem tornar-se polos de centralidade nos seus próprios territórios. Quando articulados com outras iniciativas culturais da região, contribuem para a criação de redes mais dinâmicas, capazes de atrair públicos, estimular circulação artística e reforçar a identidade local.
Quase um século depois da sua fundação, a BIR continua a cumprir a mesma missão, ainda que com linguagens diferentes. Se antes o objetivo era ensinar a ler, hoje é também criar condições para ouvir, participar e pensar em conjunto.
Entre livros, ensaios e concertos, o que se mantém é a ideia de comunidade. No Valado dos Frades, a cultura não é um evento pontual – é uma prática contínua, construída por quem lá está.