De fábrica de refrigerantes a “fábrica de ideias”: GAMA RAMA renasce em Faro
Durante décadas, o edifício que agora abriga a GAMA RAMA produziu refrigerantes para o Algarve. Hoje, o espaço transformou-se, mais do que numa galeria de arte, num centro cultural e numa incubadora criativa, onde artistas de diferentes áreas trocam ideias, desenvolvem projetos e onde a comunidade pode aprender e participar em workshops e exposições.
A GAMA RAMA, situada em Faro, nasceu em 2020, criada por Toma Svazaite e Miguel Neto, um casal que tinha o objetivo de criar um espaço artístico que aproximasse artistas e a própria comunidade. Nos últimos seis anos, muitas foram as exposições e trabalhos desenvolvidos, mas faltava um dar passo essencial: transformar o local num verdadeiro ponto de encontro criativo.
A trajetória da estrutura cultural não esteve isenta de desafios. Como muitos espaços culturais, a pandemia da COVID-19 obrigou a pausas forçadas, adiando projetos e limitando a interação com o público. “Foram meses complicados, com muitas incertezas e adaptações”, recorda Miguel Neto. No entanto, o período também reforçou a importância do espaço: os artistas mantiveram a criatividade ativa, e a comunidade mostrou o seu apoio, ansiosa pelo regresso da galeria e das atividades. Esse período de dificuldade tornou ainda mais evidente o papel da GAMA RAMA como ponto de encontro e inspiração para a região.
Miguel Neto revela ao Conta Lá que sempre tiveram “a pretensão de ser um hub criativo, mas o espaço" limitava. "Agora, finalmente, podemos concretizar essa visão”, atira. Com 500 m², a nova localização permite acolher mais artistas e experiências, expandindo a missão original de criar, partilhar e inspirar através da arte.
Inicialmente o espaço tinha 220 m², quatro estúdios e capacidade limitada, o que restringia a expansão do projeto. Com a mudança para o novo armazém - durante as décadas de 60 e 70 ali funcionava a fábrica “Refrigerantes Quintódio”. onde eram produzidos os famosos sumos “Pirolito”, “Sofrutos” e “Sufruto” - o espaço alberga agora 12 estúdios onde trabalham 14 artistas residentes, além de uma galeria de exposiçõee, que não se limita aos artistas residentes, uma incubadora criativa e áreas dedicadas a workshops e encontros com a comunidade.
No entanto, apesar da expansão, há coisas que não mudam, uma vez que “o espaço é diferente, mas as pessoas são as mesmas”, sublinha Miguel Neto, destacando que o espírito do projeto permanece intacto.
Um centro de criatividade e encontro
O novo espaço oferece “finalmente espaços onde os artistas se encontram, conversam e trocam ideias. Isso faz toda a diferença”, acrescenta Miguel Neto. Para reforçar essa interação, a programação inclui workshops mensais, conduzidos pelos próprios artistas residentes, criando uma ligação direta e dinâmica entre os criadores e o público.
Por detrás da GAMA RAMA está uma equipa que organiza funções de forma estratégica para potenciar o espaço. Toma Svazaite, a criadora do projeto, assume a curadoria e direção artística, definindo a visão e a programação das exposições. Miguel Neto é responsável pela logística e pela incubadora criativa, já Tom Leamon atua como diretor criativo, sendo o responsável pelo conceito do novo espaço e pela sua requalificação. Uma divisão de funções que “garante que o espaço funcione simultaneamente como galeria, incubadora e centro cultural”.
Uma fábrica de ideias com memória
A ligação ao passado inspirou a exposição inaugural, intitulada “Fruta da Época”, que contrapõe a produção industrial de outrora com a produção artística de hoje. “Antes produzia-se algo industrial. Agora produzimos peças únicas. É uma fábrica de ideias”, comenta Miguel Neto, resumindo o espírito criativo desta nova fase do espaço.
Inaugurado no passado sábado, 28 de março, a exposição de abertura reúne 21 artistas, incluindo residentes e convidados, entre os quais Tom Leamon, Xana, Graça Paz, Susana Cereja, Halina Magdalena Ekberg, Albert Tannat, David Schmitt, Bruno Grilo, e Milita Doré.
Desde a sua abertura, a GAMA RAMA tem-se afirmado como um dos polos artísticos mais dinâmicos do Algarve, conquistando reconhecimento institucional da Câmara Municipal e das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), muito devido à sua comunidade de artistas e visitantes. “Durante o tempo em que estivemos fechados (dois meses), muitas pessoas perguntavam quando voltávamos. Isso mostra que fazemos falta”, sublinha Miguel Neto, realçando como a GAMA RAMA se tornou não apenas um espaço de criação, mas um ponto de encontro, de inspiração e de partilha que pulsa no coração da cidade.