Depois de Carnaval estável, turismo em Portugal perde gás nesta Páscoa: "Há um claro abrandamento"
Depois de um Carnaval estável, as perspetivas para a Páscoa ao nível hoteleiro mostram um arranque mais fraco, com reservas abaixo do ano passado e um enquadramento internacional cada vez mais incerto. A hotelaria portuguesa arrancou 2026 com um sinal claro de que o setor resiste, mas perdeu velocidade. O diagnóstico é feito pela Associação da Hotelaria de Portugal, com base num inquérito que contou com cerca de 400 espaços.
No período do Carnaval, entre 13 e 17 de fevereiro, a taxa de ocupação média nacional fixou-se nos 65%, em linha com 2025, enquanto o preço médio por quarto (ARR) desceu ligeiramente para 112 euros.
Um desempenho que, à primeira vista, traduziu estabilidade no setor: “Conseguimos suster a taxa de ocupação com uma descida de 1 euro no preço médio”, afirmou Cristina Siza Vieira. Ainda assim, os dados mostram um setor muito dependente de equilíbrios regionais e fatores externos, nomeadamente o impacto do mau tempo, que penalizou várias regiões.
A análise regional evidencia um país turístico que se comportou de formas distintas. A Madeira destacou-se claramente como o destino com melhor desempenho, atingindo 79% de ocupação e o preço médio mais elevado (151 euros).
A Grande Lisboa também registou uma evolução positiva na procura, com a taxa de ocupação a subir para 75%, embora acompanhada por uma descida no preço médio.
Já o Centro revelou fortes assimetrias: o interior, com destaque para a Serra da Estrela, apresentou um desempenho robusto, enquanto o litoral ficou bastante abaixo da média. No Alentejo houve uma ligeira recuperação, e o Algarve manteve-se relativamente estável. Em sentido contrário, o Norte e, sobretudo, o Oeste e Vale do Tejo foram os mais afetados pelo mau tempo, com quebras na ocupação e no preço médio. “A região Oeste e Vale do Tejo foi claramente muito prejudicada com a maior quebra neste período do Carnaval”, sublinhou.
Apesar da estabilidade dos principais indicadores, os resultados globais acabaram por ser mais positivos do que o esperado, graças ao aumento do consumo dentro das unidades hoteleiras. “A nossa convicção é que foram os proveitos totais com mais gastos em restaurantes, spas e serviços”, explicou Cristina Siza Vieira, apontando para um efeito indireto do mau tempo, que levou os hóspedes a consumir mais dentro dos hotéis.
Páscoa sugere abrandamento
Já as perspetivas para a Páscoa mostram um cenário "mais exigente". Para o período das férias escolares, entre o final de março e meados de abril, as reservas situavam-se nos 55% no momento do inquérito, com um preço médio de 132 euros, valores abaixo dos registados no ano anterior, ainda que não diretamente comparáveis devido a diferenças no calendário e no momento da recolha dos dados.
“A Páscoa está ainda muito impactada pelo mau tempo e pela contingência da guerra”, alertou a responsável da AHP. Para o fim de semana pascal, os níveis de reserva sobem ligeiramente para 57%, com o preço médio a atingir os 147 euros, mas continuam dependentes de reservas de última hora, refletindo um comportamento mais cauteloso por parte da procura.
Mas também neste período as diferenças regionais deverão ser evidentes. A Madeira mantém-se como o destino com melhor desempenho, com níveis de reserva significativamente acima da média nacional, seguida pela Grande Lisboa e pelo Algarve. Em contraciclo, regiões como o Oeste e Vale do Tejo e os Açores continuam a evidenciar maiores fragilidades.
Guerra já está a impactar o setor
O retrato da procura internacional também está a mudar. O mercado interno continua a assumir um papel central, sendo apontado por mais de 70% dos inquiridos como um dos principais motores da procura, seguido de Espanha e do Reino Unido.
Mas face aos acontecimentos recentes, há diferenças notáveis do mercado mesmo entre o Carnaval e a Páscoa. Os mercados da China e da Coreia do Sul que ganharam expressão no Carnaval, por exemplo, desapareceram completamente das perspetivas para a Páscoa, em grande parte devido à interrupção de ligações aéreas.
Ao mesmo tempo, o mercado norte-americano está a perder peso. “Há um claro abrandamento do mercado americano, não só para a Páscoa, mas também com impacto esperado no verão”, destacou Cristina Siza Vieira.
A instabilidade geopolítica, em particular no Médio Oriente, começa aliás a refletir-se de forma direta no setor. De acordo com o inquérito, 24% dos hoteleiros já identificam um abrandamento nas reservas ou um aumento de cancelamentos, enquanto 16% reportam um aumento da procura associado ao desvio de fluxos turísticos de outros destinos.
Booking continua a liderar nas reservas
Ao nível da distribuição, os canais de reserva mantêm um padrão semelhante aos anos passados. A Booking continua a dominar, sendo referida por quase todos os inquiridos, seguida dos websites próprios das unidades. A Expedia destaca-se como a plataforma com maior crescimento, reforçando a sua presença junto dos hoteleiros.
No início do ano, antes do agravamento do contexto internacional, os hoteleiros atribuíam um nível de confiança de 7,4 em 10 ao desempenho do turismo em 2026. Mas estes dados são, certamente, diferentes neste momento em que o contexto internacional mudou, desde os conflitos ao preço dos combustíveis que faz com que as operações sejam cada vez mais caras e, por isso, repensadas, alerta a AHP.
“O turismo em Portugal poderá continuar a crescer, quer em hóspedes e dormidas, quer em receitas, mas com claro abrandamento relativamente ao ritmo que vinha sendo registado até aqui e com aumentos significativos dos custos”, concluiu Cristina Siza Vieira.