Despesas essenciais absorvem até 80% do orçamento das famílias em Portugal

Um novo relatório sobre os orçamentos das famílias em Portugal revela que mais de um quarto dos agregados gasta mais do que recebe. O estudo da Nova School of Business and Economics aponta também para fortes desigualdades no rendimento disponível e dificuldades acrescidas entre os agregados com menores rendimentos.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
11 mar. 2026, 12:14

Mais de um quarto das famílias em Portugal gasta mais do que recebe, segundo o relatório 'Portugal, Balanço Social: Perspetivas – Quanto sobra ao final do mês? Despesas essenciais, inesperadas e poupança', que analisa o impacto das despesas essenciais no orçamento dos agregados familiares. Entre as famílias com menores rendimentos, a situação é ainda mais expressiva: 60% apresentam poupança negativa, ou seja, as despesas ultrapassam o rendimento disponível.

O estudo, desenvolvido por investigadores da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), conclui também que entre 60% e 80% da despesa total das famílias é destinada a bens essenciais, como habitação, alimentação ou energia. Este peso elevado limita a margem financeira disponível no final do mês e reduz a capacidade de poupança de muitos agregados familiares.

A análise centra-se no chamado rendimento discricionário, isto é, o montante que sobra depois de pagas as despesas consideradas essenciais. Em 2022, esse rendimento situava-se em média entre 10.402 e 13.379 euros por ano. Apesar de ter registado um aumento entre 24% e 40% entre 2015 e 2022, os investigadores sublinham que esta evolução não elimina as desigualdades existentes nem as dificuldades financeiras enfrentadas por parte significativa das famílias.

Diferenças profundas no rendimento disponível

O relatório revela fortes desigualdades na distribuição do rendimento discricionário. Enquanto as famílias mais pobres apresentam um valor médio anual entre 1.485 e 2.393 euros, nos agregados mais ricos esse montante situa-se entre 24.973 e 30.004 euros. Na prática, os agregados com maiores rendimentos dispõem de um rendimento discricionário 12 a 17 vezes superior ao das famílias mais pobres.

Embora as famílias com maiores rendimentos tenham despesas essenciais mais elevadas em termos absolutos, estas representam uma proporção menor do orçamento total. Nos agregados mais pobres, por exemplo, os gastos essenciais podem representar 65% da despesa total, enquanto nas famílias mais ricas essa proporção ronda 53%.

A fragilidade financeira torna-se ainda mais evidente perante despesas inesperadas. De acordo com o relatório, 34% das famílias mais pobres não saberiam como fazer face a uma despesa inesperada de mil euros, um valor que pode representar um choque significativo no orçamento doméstico.

Diferenças regionais na capacidade de poupança

O estudo identifica também assimetria regional na capacidade financeira das famílias. Os agregados residentes em Lisboa registam o rendimento discricionário mais elevado, mesmo enfrentando custos mais altos com despesas essenciais. Já os Açores e a Madeira apresentam os valores mais baixos neste indicador.

No que diz respeito à poupança negativa, o Algarve surge como a região com maior proporção de agregados nesta situação (29,1%), seguido do Norte (28,9%) e da Madeira (26,1%). Os Açores registam a menor incidência, com 18,8% das famílias a gastar mais do que recebem.

O relatório baseia-se nos dados do Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023 do Instituto Nacional de Estatística (INE), complementados por um inquérito realizado em 2024. Os resultados indicam que, apesar do aumento médio do rendimento disponível nos últimos anos, uma parte significativa das famílias continua com uma margem financeira reduzida após pagar as despesas essenciais, o que limita a capacidade de poupança e aumenta a vulnerabilidade perante despesas inesperadas.