Dia Internacional da Visibilidade Trans: ser transgénero também é um caminho para os pais e a procura por apoio cresce
O Dia Internacional da Visibilidade Transgénero assinala-se esta terça-feira num contexto de maior exposição e debate do tema em Portugal, com as novas propostas legislativas em cima da mesa. E dado este cenário, surgem várias questões, entre elas a importância da parentalidade e da aceitação dos pais.
Ao longo deste mês, o parlamento aprovou projetos-lei de PSD, Chega e CDS-PP que pretendem introduzir novas regras, como a obrigatoriedade de validação médica para a mudança de nome e género no registo civil e restrições no acesso a cuidados de afirmação de género para jovens. Medidas justificadas com a necessidade de proteger crianças e jovens, partindo da ideia de que podem não ter maturidade suficiente ou estar a atravessar fases de dúvida.
Mas, no meio deste debate, há um elemento essencial que está sempre presente: a família e o papel que têm no processo de transição de um jovem.
A AMPLOS acompanha essa realidade de perto desde 2009. A associação apoia pais e mães no processo de aceitação e acompanhamento dos filhos, sendo hoje a única em Portugal dedicada especificamente a famílias de pessoas LGBTQIA+.
E a procura tem vindo a mudar. “Hoje esse é o nosso maior foco, o que nos tem aparecido mais”, explica ao Conta Lá a vice-presidente da AMPLOS, Isabel Rodrigues, referindo-se a casos de jovens transgénero. Segundo a dirigente, isto não significa necessariamente que existam mais pessoas trans, mas sim que "há mais visibilidade e abertura para falar disto".
Com essa visibilidade e a porta social cada vez mais aberta, os jovens começam também a expressar-se mais cedo, o que leva os pais a procurar apoio mais rapidamente. “Diria que as certezas até surgem por volta dos 14 ou 15 anos, quando começa a puberdade, mas isto não é linear”, afirma Isabel Rodrigues.
Para muitas famílias, este é um processo novo e mais exigente até do que um filho assumir a homossexualidade. “É algo mais complexo”, reconhece Isabel Rodrigues, sublinhando que envolve não só questões emocionais e sociais, mas também dimensões médicas. É precisamente por isso que os pais procuram apoio: para perceber, acompanhar e tomar decisões informadas ao lado dos filhos.
Num momento em que o debate político se intensifica e se discute a capacidade dos jovens para decidir sobre a sua identidade, a AMPLOS lembra que os pais não estão ausentes deste processo. Pelo contrário, fazem parte dele desde o início.
Mudanças legais motivaram vários protestos
Após os desenvolvimentos na Assembleia da República sobre este tema, foram várias as pessoas que se juntaram em manifestações nas ruas contra "um retrocesso legal". Só este domingo, centenas de pessoas manifestaram-se em Lisboa e no Porto a para assinalar a Marcha da Visibilidade Trans. O objetivo foi condenar o que chamam de recuo dos direitos humanos perante as medidas recentemente aprovadas.
Sobre as decisões aprovadas, Isabel Rodrigues lamentou ao Conta Lá que este lado da realidade nem sempre seja tido em conta. “É com surpresa que vemos que nem as associações, nem as pessoas trans, nem a própria ciência foram ouvidas”.