Dia Mundial do Refugiado: "Não é só o trabalho das organizações que é importante, mas também o da própria comunidade"
No final de 2025, mais de 117 milhões de pessoas continuavam deslocadas à força. Em Portugal, vivem mais de 66 mil refugiados, maioritariamente ucranianos.
No final de 2025, mais de 117 milhões de pessoas continuavam deslocadas à força no mundo. O número foi divulgado na semana passada pelo ACNUR no seu relatório anual “Tendências Globais”.
Marta Caria, responsável de Comunicação da Portugal com ACNUR, fundação parceira nacional da Agência da ONU para os Refugiados, prefere, por isso, recorrer a outras escalas para tornar os números mais concretos: “São mais de dez países como o nosso. E se formos ver agora com este contexto mundial, um estádio de futebol tem entre 60 a 80 mil espectadores, precisávamos de mais de 1.400 estádios para conseguir encher com estas pessoas”.
Dentro desse universo, mais de 41 milhões são refugiados, pessoas que foram forçadas a abandonar o próprio país à procura de um elemento básido, de segurança, e destes, mais de 40% são crianças. Em Portugal, acolhem-se atualmente mais de 66 mil pessoas refugiadas, na sua grande maioria provenientes da Ucrânia, um dado que coloca o país na linha da frente de uma realidade que, vista de fora, pode parecer distante, mas que está, há muito, enraizada no quotidiano de quem vive entre nós.
O relatório deste ano introduz uma nota que, à primeira vista, poderia sugerir algum alívio: pela primeira vez em décadas, mais de 14 milhões de pessoas regressaram a casa. Mas Marta Caria insiste que esse dado exige uma leitura mais cautelosa do que aquela que os números, sozinhos, permitem: “Tivemos esta pequena diminuição com o regresso das pessoas que voltaram às suas casas, mas também tiveram que fugir de outros conflitos. Ou seja, saíram das suas casas de alguns conflitos e algumas perseguições para outro país, mas, entretanto, no país que os acolheu também tiveram que fugir. Tiveram que regressar para um local onde também não têm as necessidades totalmente básicas, ou seja, tiveram que regressar porque não tinham outra alternativa, porque surgiu outro conflito. Às vezes quando pensamos que existe uma diminuição, temos que tentar compreender o porquê, e às vezes não é pela maneira mais segura”. O regresso, por outras palavras, nem sempre é sinónimo de solução.
É precisamente nesse espaço de fragilidade que o ACNUR procura atuar, nao apenas respondendo às emergências imediatas, mas acompanhando as pessoas a médio e longo prazo, porque o tempo médio de permanência num campo de refugiados não se mede em meses, mas frequentemente em décadas, podendo chegar aos 17 anos. Há crianças que nascem nesses campos sem nunca terem conhecido o país de onde os pais fugiram e é com essa realidade em mente que os programas da organização são concebidos. “As pessoas não precisam só de comer uma vez, não precisam só de uma necessidade básica para a família e de um dia. É a longo prazo e daí todos os programas que nós temos também são pensados dessa forma", explica Marta Caria.
A pergunta que persiste, para quem acompanha o trabalho da organização de fora, é a de como estas pessoas reconstroem uma vida quando chegam a um novo país, sem rede de apoio, sem idioma e muitas vezes sem mais nada do que aquilo que couberam numa mala. "É muito importante perceber o contexto das pessoas deslocadas, tentarmos fazer este raciocínio de: e se fosse connosco? As pessoas saem do próprio país, deixam de ter a sua rotina, muitas vezes levam só o seu animal de estimação, a sua família, uma mala. Às vezes levam o telemóvel, levam o carregador, mas onde é que o vão carregar? Porque eles não sabem para onde vão", refere Marta Caria, sublinhando que a resposta a esta pergunta raramente passa apenas pelo trabalho das grandes organizações. “Às vezes também não é só o trabalho destas grandes organizações que o fazem, mas também a própria comunidade. É muito importante percebermos quem é que nos rodeia para sabermos como poderíamos ajudar”, refere.
A história de Inna Soldatenko dá rosto a esse argumento. A ucraniana era reumatologista em Kharkiv antes da guerra chegar à sua cidade. A 23 de fevereiro de 2022, ela terminou o trabalho, foi buscar a filha à escola, preparou o jantar como em qualquer outro dia, sem imaginar que na manhã seguinte acordaria com o som de explosões. Em poucos dias, ela, as duas filhas, os pais e o gato abandonaram a cidade com apenas documentos e alguns pertences, convencidos de que seria por “apenas alguns dias”. Acabou por reconstruir a sua vida no Reino Unido, regressou à medicina e ajudou a criar uma rede de apoio a profissionais de saúde refugiados. “Quando somos forçados a fugir, é como se as nossas raízes fossem cortadas”, afirmou ao acrescentar que “essa estabilidade, essa bondade, mudam tudo. São como o sol no nosso jardim”.
No terreno, os desafios variam consoante o contexto geográfico e político de cada crise. O Sudão, o Sul do Sudão, o Afeganistão e a Síria concentram atualmente algumas das maiores emergências, cada uma com características e necessidades próprias que exigem respostas diferentes e adaptadas. “São vários os conflitos e são várias as necessidades. Aqui nós vemos emergência a emergência, e necessidade a necessidade”, descreve Marta Caria, que recorda que a ajuda humanitária, para ser eficaz, tem de ir além do gesto pontual e comprometer-se com a continuidade que permite, a quem perdeu tudo, ter de facto uma vida digna.
Este sábado, Dia Mundial do Refugiado, a Portugal com ACNUR assinala a data com iniciativas em Lisboa, no Porto e em Braga, usando a gastronomia como ponto de encontro entre quem quer ajudar e uma realidade que só se torna verdadeiramente concreta quando há uma história, ou um prato, pelo meio. “Às vezes, em Portugal, vivemos numa bolha muito fechada. E então, conseguimos dar a conhecer às pessoas outras realidades que infelizmente ainda acontecem”, diz Marta Caria.