Do Japão a Trás-os-Montes: uma aproximação de culturas através da arte e da natureza
O Centro Cultural Adriano Moreira, em Bragança, recebe, até dia 26 de abril, a exposição Otawara-Bragança, que resulta de um diálogo artístico que atravessa continentes e encontra na natureza um ponto em comum. Tudo começou num intercâmbio iniciado em 2019, quando artistas de Bragança participaram numa residência artística em Otawara, no Japão. A pandemia adiou o reencontro, mas não travou o projeto. “Só agora conseguimos levar a bom porto este processo de intercâmbio”, explica a curadora Emília Nogueiro, sublinhando o carácter resiliente da iniciativa.
Mais do que uma simples exposição coletiva, Otawara–Bragança constrói ligações que antes não existiam. “Estes elos estão a ser construídos por nós”, afirma a curadora, destacando o papel ativo dos artistas na criação de uma ponte cultural entre dois territórios periféricos, afastados dos grandes centros urbanos, mas próximos nas suas vivências.
Essa proximidade revela-se sobretudo na relação com a natureza. Tanto em Otawara como em Bragança, o quotidiano dos artistas é marcado por paisagens naturais como montanhas, florestas e espaços rurais, que influenciam o processo criativo. “Há um respeito profundo pela natureza, que acaba por moldar as motivações e a inspiração dos artistas”, refere Emília Nogueiro.
O compromisso com a natureza está patente nos materiais utilizados, uma vez que a exposição é dominada por esculturas em madeira. Num contexto artístico contemporâneo marcado por instalações industriais ou materiais sintéticos, esta escolha assume-se como uma posição estética e ética. “São autores que trabalham com as mãos e com materiais naturais”, sublinha a curadora.
Aprendizagem mútua
A mostra reúne obras de oito artistas japoneses (Hihara, Yuko Hihara, Misaki Shotaro, Kotone Kakuya, Mamoru Inaba, Tamami Ichimura, Shigeru Tanaka e Lika Kato) e dois portugueses (João Ferreira e António Pires). Estes últimos participaram na residência artística no Japão e acolhem agora os seus pares, num gesto de reciprocidade artística.
Além da produção de obras, o intercâmbio foi também um espaço de aprendizagem mútua. Segundo Emília Nogueiro, tornou-se evidente uma troca de influências entre os artistas. “Os japoneses têm um grande rigor nos acabamentos, enquanto alguns autores portugueses são mais expressivos e deixam marcas mais visíveis no processo”.
A reação por parte do público tem sido positiva, especialmente entre os mais jovens. Graças a uma articulação entre a exposição e serviços educativos, os estudantes têm a oportunidade de contactar com uma cultura que, embora geograficamente distante, lhes é familiar através de referências contemporâneas como a animação ou a moda japonesa.
Disponível até 26 de abril, a exposição Otawara–Bragança afirma-se como um exemplo de como a arte pode aproximar geografias distantes e valorizar territórios frequentemente vistos como periféricos, mas onde continua a existir criação artística.