Dos fungos únicos do planeta Terra, dezenas estão em risco de desaparecer

Um estudo internacional liderado pela Universidade de Coimbra revela que há espécies de fungos únicas no planeta Terra, sem parentes próximos na árvore da vida, que correm o risco de desaparecer para sempre. Das 94 espécies de fungos analisadas, nove já se encontram ameaçadas e 56 não dispõem de informação suficiente para avaliar o estado de conservação.
Agência Lusa
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13 abr. 2026, 12:00

"Estas espécies representam linhagens isoladas, com histórias evolutivas únicas acumuladas ao longo de milhões de anos, o que significa que a sua extinção não seria apenas mais uma perda de biodiversidade, mas sim o desaparecimento de ramos inteiros da história da vida na Terra", salienta a Universidade de Coimbra.

A investigação - desenvolvida pelo Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC em colaboração com o Comité para a Conservação dos Fungos da União Internacional para a Conservação da Natureza - identificou espécies "evolutivamente distintas e globalmente ameaçadas".

Foram analisadas 94 espécies de fungos pertencentes a géneros monotípicos, grupos que incluem apenas uma única espécie conhecida, e os resultados revelam "um cenário preocupante: nove espécies já se encontram ameaçadas ou próximas disso, enquanto a maioria, 56, não dispõe de informação suficiente para avaliar o seu estado de conservação".

Para Susana Cunha, coordenadora do estudo e aluna do Doutoramento em Biociências na UC e Jardim Botânico Real de Kew, no Reino Unido, "a deficiência de dados reflete graves lacunas no conhecimento sobre estes organismos".

"Apenas 28 foram classificadas como de baixo risco. Para os investigadores, este desconhecimento é, por si só, um dos maiores sinais de alerta".

"Em muitos casos, as espécies são conhecidas apenas pela sua descrição original, feita há mais de uma década, sem qualquer registo desde então”, explicou a especialista, alertando que o planeta pode "estar a perder espécies únicas sem sequer haver consciência disso”.

A investigadora considerou que, apesar do seu papel fundamental para a vida na Terra, nomeadamente na decomposição de matéria orgânica e na regulação dos ciclos de nutrientes, os fungos continuam largamente ausentes das prioridades globais de conservação.

"Ao contrário do que acontece com animais e plantas, ainda não existe uma lista que identifique as espécies de fungos mais distintas evolutivamente e ameaçadas, uma lacuna que os investigadores consideram urgente colmatar".

De acordo com o estudo, a falta de dados resulta de anos de subinvestimento na investigação micológica e que, "sem informação básica sobre distribuição, ecologia e diversidade, torna-se difícil integrar os fungos nas políticas de conservação e garantir a sua proteção efetiva".

Para inverter esta tendência, os autores defendem um reforço do investimento em investigação de base, incluindo inventariações de campo, e o uso de ferramentas inovadoras como o DNA ambiental, que pode ajudar a revelar a presença de espécies difíceis de detetar.

Os investigadores recomendam ainda que as espécies únicas sejam alvo de análises moleculares para confirmar a sua posição isolada na árvore da vida e, sempre que se confirme o seu caráter singular, "passem a ser prioridade na conservação", porque, sem "uma ação concertada, o mundo arrisca-se a perder uma parte insubstituível do seu património natural, muitas vezes antes mesmo de o conhecer".