Duas décadas depois, Porto diz adeus ao 'rock' do Tendinha. Espaço vai reabrir como 'Pink'

Durante 20 anos, o bar-discoteca Tendinha dos Clérigos foi casa para quem vivia o 'rock' no Porto e palco de histórias que atravessam gerações. O espaço despede-se este sábado da Baixa da cidade, antes de dar lugar a um novo conceito.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
08 jan. 2026, 07:00

Festa no interior da Tendinha dos Clérigos, no Porto
Fotografia: Redes Sociais Tendinha dos Clérigos

Durante as últimas duas décadas, o centro do Porto teve um espaço que foi uma espécie de casa para os mais roqueiros. Na Rua do Conde de Vizela, no epicentro da vida noturna portuense, o Tendinha dos Clérigos carrega “mil e uma” histórias ao som de rock. O estilo de música nunca foi apenas a banda sonora: foi a sua identidade. O espaço reabre pela última vez este sábado, antes de virar “Pink” e mudar de conceito.

Alberto Fonseca sempre disse que “aos 50 anos deixava a noite”. O encerramento do Tendinha dos Clérigos é algo iminente já há vários anos. Hoje, Alberto tem 54: “Já lá vão quatro anos a matutar como faria isto”, confessou, em conversa com o Conta Lá. 

O Tendinha é grande parte da sua vida. Aos 17 anos, ficou sozinho pela primeira vez à frente do negócio, na altura ainda sediado na Praça dos Poveiros. O nome, curiosamente, remonta a essa época. “Era, literalmente, uma tendinha”. Pequena, mas cheia de gente, recorda o atual proprietário.

Na altura, ainda naquela zona da cidade, a Câmara decidiu reduzir os horários da atividade noturna e o espaço começou a ficar curto para o número de clientes. Por volta de 2005, na procura de alternativas, Alberto soube que havia um antigo bar no Centro Histórico, que estava fechado há algum tempo. 

A 15 de abril de 2005, o Tendinha dos Clérigos abriu portas. A zona estava longe de ser o epicentro da vida noturna que hoje se conhece. “Não existia praticamente nada aqui. Havia o Café Lusitano e pouco mais. Isto era uma zona degradada, deserta”, recorda Alberto.

 

Foto: Alberto Fonseca é o atual proprietário e assumiu o negócio depois do pai, após a mudança dos Poveiros para o centro do Porto

Trazer pessoas para os Clérigos parecia um risco. Mas o primeiro dia superou tudo: 700 pessoas na noite de abertura. “Foi uma surpresa enorme”, admite. 

O rock não foi uma estratégia, mas uma tendência natural. “Eram as bandas que eu ouvia, os clientes que vinham muito aqui eram da Escola de Belas Artes, havia músicos, foi acontecendo”, explicou ao Conta Lá.

O resto da história construiu-se em cadeia. Muitos dos espaços que, atualmente, demarcam a Baixa nasceram... do Tendinha. “Os outros bares que abriram a seguir eram clientes nossos. O Plano B, o Café Olé. Viram que isto resultava e decidiram apostar”, refere.

O Tendinha e o Lusitano acabaram por se transformar em pontos incontornáveis da vida noturna portuense que se concentra na zona das Galerias de Paris, em pleno coração da cidade.

 

 

As histórias que não se repetem

Há memórias que não cabem em números. Quem passou pelo Tendinha fala de um detalhe quase mítico: o cheiro. Nos primeiros anos, desde que se mudou para o centro histórico, o estabelecimento não teve grandes obras e, por isso, tinha um cheiro muito característico. “As pessoas saíam daqui e ficavam com aquele cheiro na roupa. Diziam logo: 'estiveste no Tendinha’. Foi assim nos primeiros anos”, conta Alberto.

Quando se entra no espaço, as paredes guardam sinais do tempo. Os quadros com molduras douradas, comprados em 2008, continuam no mesmo lugar. São, segundo o proprietário, o elemento mais antigo que se manteve. 

Houve períodos de grande crescimento, alguns inesperados: o espaço viveu “a sua melhor fase” durante o período de intervenção da 'troika'.

E depois há as histórias humanas. Casais que se conheceram ali, pedidos de casamento, despedidas de solteiro. “Ainda no último fim de semana, um casal entrou aqui com os três filhos e pediu para tirar fotografias. Disseram-me que foi aqui que se conheceram”, contou Alberto. Noutra noite, falhou a ventilação e, apesar do calor insuportável, ninguém saiu.

 

Tendinha viveu as mudanças da cidade

“Não mudou só o público, mudou a cidade toda”. Alberto diz que o Porto que encontrou em 2005 pouco tem a ver com o de hoje. “Era quase um deserto. Hoje falamos de 300 ou 400 mil pessoas a viver na cidade, na altura eram 70 mil, talvez. Era um deserto de noite.”

O turismo trouxe novos públicos, mas o Tendinha manteve-se fiel à sua base: maioritariamente portuguesa, mais adulta, ligada à cultura e às artes. “Raramente temos miúdos de 20 anos. É na casa dos 30, por aí”.

Depois da pandemia, a atividade no espaço voltou a normalizar, mas a rua mudou e agora tinha novos bares. Alberto Fonseca confessa que muitos clientes deixaram de se identificar com o ambiente das Galerias de Paris. “O público existe. Mas já não vem tanto aqui porque a zona está completamente descaracterizada", refere Alberto Fonseca.

 

“Pink” abre portas 

A última noite do Tendinha acontece a 10 de janeiro. O anúncio foi feito nas redes sociais, num texto assinado por Alberto Fonseca. 

O Tendinha dos Clérigos fecha neste local, mas o espaço não ficará vazio. Uma semana depois, reabrirá com um novo conceito, vai chamar-se “Pink” e terá música e um estilo mais comercial. Vai ser gerido pelas mãos de Osvaldo Fonseca, filho de Alberto, com 26 anos e já com vários anos de experiência na noite.

A ideia foi dele, garantiu o pai que, aliás, chegou a aconselhá-lo a não seguir o mesmo caminho.

A noite desgasta. Alberto não o esconde. “Perdi quase toda a minha vida familiar.” Trabalhou durante anos de terça a domingo, sem folgas. O filho cresceu sem o ver à noite. Hoje, com uma filha de 10 anos, tenta recuperar tempo. Agora só vem às sextas e sábados. Mas o peso acumulado conta.

Também as constantes mudanças de regras da movida, impostas pela Câmara do Porto, contribuíram para o desgaste. “Estão sempre a alterar. Nunca sabes com o que contar. E não são regras para todos.”

Sobre o fecho da Tendinha e se este pode reabrir futuramente noutro sítio, Alberto só diz “quem sabe?”, confirmando que “não tem planos”, mas que tal “pode acontecer”.