É na época baixa que se conhece a verdadeira essência de Porto Covo

A população de Porto Covo quintuplica com a chegada do verão, mas é na época baixa que se consegue conhecer a verdadeira essência do local. As maravilhas naturais, as pessoas, os produtos endógenos e a alma deste lugar à beira mar plantado ganham outra genuinidade fora da época alta. 
Pedro Marcos Editor de imagem
João Miguel Silva
João Miguel Silva Repórter de imagem
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
15 dez. 2025, 17:30

É um facto que Porto Covo ocupa um lugar especial no imaginário de todos quantos ouviram a célebre canção que Rui Veloso e Carlos Tê lhe dedicaram em 1986. O nome do lugar tem origem na sua própria forma topográfica: “covo” significa “côncavo” ou “fundo”. Esta característica levou a que, no século XVIII, o burguês Jacinto Fernandes Bandeira transformasse a enseada num porto de embarque de carvão para abastecer, sobretudo, a Grande Lisboa. Além do porto, Jacinto Fernandes Bandeira lançou-se na edificação de uma povoação de raiz. 

A aldeia localiza-se a 175 quilómetros da capital, em pleno litoral alentejano, e conjuga falésias com praias de uma beleza agreste. Lá, a povoação é acolhedora, composta pelas tradicionais casas com paredes de cal, tendo tido como inspiração a arquitetura pombalina. Realmente, a traça oitocentista mantém-se quase intacta no centro da aldeia, no Largo Marquês de Pombal, um dos lugares mais emblemáticos da zona. 

Com cerca de mil habitantes, a aldeia vê a população quintuplicar no verão com a chegada dos turistas. Mas, é na época baixa que se consegue sentir a verdadeira essência do lugar. Por lá, fora da época estival, respira-se tranquilidade, contacta-se com os locais de perto e conhece-se a alma porto-covense. 

É impossível falar de Porto Covo sem falar da Ilha do Pessegueiro, que nunca teve por lá um pessegueiro. A origem do nome da ilha vem do latim “piscatorius”, pela sua tradição ancestral romana da salga do peixe. Na ilha, encontram-se ainda vestígios dessa ocupação e é possível vê-los com os nossos próprios olhos. Mas apenas se pode visitar a ilha na companhia do Mestre Matias, uma vez que é a única pessoa com autorização para tal. 

A Ilha do Pessegueiro e o Forte de Nossa Senhora da Queimada são lugares de paragem obrigatória para quem não dispensa conhecer a fundo a história local.

Para os amantes de natureza, o Trilho dos Pescadores da Rota Vicentina proporciona as melhores vistas e um enorme contacto com as maravilhas naturais, por caminhos usados pelos próprios pescadores e gentes da terra. Já para os apaixonados por animais, o Monte da Bemposta tem atividades como os passeios a cavalo, uma autêntica terapia. 

Ex-líbris gastronómico

Mas os encantos deste lugar à beira-mar plantado também se estendem à gastronomia: os “Vasquinhos”, doce típico da região, o mel, o pão e o vinho alentejanos são alguns dos ex-líbris de Porto Covo. 

No que toca à mesa principal, o restaurante Lamelas, que entrou para o Guia Michelin Ibérico em 2024, destaca-se pela fusão de uma visão gastronómica contemporânea com os sabores mais tradicionais do Alentejo. Nesta cozinha, a abrótea é a estrela da companhia e os amantes de peixe certamente não lhe irão resistir. 

É quando o ritmo abranda e o ruído do verão se dissipa que Porto Covo se deixa conhecer sem pressa. As ruas ganham outra cadência, o mar fala mais alto e os gestos tornam-se ainda mais próximos. Longe das multidões, cada detalhe parece mais nítido: da arquitetura às conversas demoradas, dos trilhos costeiros à mesa partilhada. Talvez seja mesmo neste tempo suspenso, em que o lugar se mostra sem artifícios, que Porto Covo revela o seu encanto mais genuíno.