É por um rádio a pilhas que Joaquim acompanha o rasto da tempestade: "Ninguém tem noção do que se passa aqui"

Em Pinheiros, na freguesia de Marrazes, Joaquim, de 89 anos, está a viver há dias sem eletricidade e água desde a passagem da depressão Kristin, acompanhando a situação apenas através de um rádio a pilhas.
Manuel Portugal
Manuel Portugal Jornalista
João Miguel Silva
João Miguel Silva Repórter de imagem
Redação
Redação
31 jan. 2026, 15:05

Ao som contínuo de um gerador, o jornalista Manuel Portugal percorre um cenário que se repete em vários pontos do distrito de Leiria, mas que em Pinheiros, na freguesia de Marrazes, ganhou contornos particularmente duros. Nos bairros mais periféricos, o rasto da depressão Kristin é avassalador: telhados destruídos, casas danificadas e ruas mergulhadas no silêncio de quem teve de sair.

Entre quem ficou está Joaquim, de 89 anos. Vive sem luz, sem água e sem gás. Acompanhou a violência do mau tempo e os dias seguintes apenas com um rádio a pilhas, a única ligação ao exterior. A filha tentou levá-lo para casa, mas Joaquim recusou sair. A habitação ficou “quase inabitável” e as chapas colocadas por um familiar servem apenas de remendo para que consiga ali passar os dias.

“Nunca pensei que acontecesse uma coisa desta violência. Não me lembro… e tenho 89 anos”, diz, com voz firme, mas cansada. Perante os pedidos de ajuda e a destruição à volta, resume tudo numa frase curta: “É aguentar.”

A sobrinha não esconde a angústia. “Ninguém tem noção do que se passa aqui”, afirma ao Conta Lá. Sem água, sem eletricidade e sem gás, o receio aumenta com as previsões de mais chuva. “Vai chover mais, vai ficar pior”, antevê, com medo.A maioria dos moradores procurou abrigo em casa de familiares.

“Emprestaram-nos o gerador”, conta uma moradora. “Temos de aguentar, precisamos de luz e de água. É triste.” A tempestade passou, mas a bonança ainda não chegou. E as noites, dizem, são o momento mais difícil.