"É uma vergonha aquilo que se passou". O relato de quem esteve toda a noite a acompanhar a depressão Kristin

Em declarações ao Conta Lá, o meteorologista Mário Marques fala de um cenário em que o IPMA deu "falsas esperanças" quando os dados de satélite já permitiam antever o impacto em certos territórios e alerta para as falsas informações que andam a circular. Já a população deve evitar nas próximas horas zonas marítimas e de floresta.
Tiago Oliveira Jornalista
28 jan. 2026, 12:01

"Posso falar, estou de direta". É assim que o meteorologista Mário Marques atende o telefone ao Conta Lá para explicar os contornos da depressão Kristin, que ao longo da noite provocou cerca de 2.600 ocorrências no continente no período entre as 00:00 e as 10:30 e deixou duas vítimas mortais em Monte Real (Leiria) e Vila Franca de Xira (Lisboa).

O fundador da empresa Planoclima não tem pejo em classificar como "uma vergonha aquilo que se passou", em referência à postura do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), quando na noite de ontem já era possível antecipar as zonas que seriam mais afetadas e, ao invés, deram "falsas esperanças" às populações e autoridades dessas localidades.

"Tudo indicava que ia passar a sul, zona oeste ia ser afetada. Já dava para ver à meia-noite no satélite que o núcleo se estava a dirigir para a zona oeste", revela. Por isso não entende como "o nosso instituto [IPMA] insistiu em dizer que zona mais afetada ia ser a Norte. Estavam a dizer que em Lisboa ia ser onde choveu mais, e não foi", acrescenta, seguido de um desabafo: "Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez..."

A depressão Kristin configurou uma ciclogénese explosiva, que ocorre com o rápido agravamento de uma área de baixa pressão em latitudes médias, e provoca uma súbita tempestade intensa. Um fenómeno que não é novo, mas que desta feita teve a agravante de atingir mais o território continental. "Habitualmente formam-se no mar e desviam-se para nordeste e atingem-nos mais de raspão, mas deste caso atingiu mesmo o centro do território". O meteorologista  elabora que o "olho, vórtice" da depressão situou-se na zona de Leiria, Marinha Grande, e Condeixa-a-Nova, sobretudo no distrito de Leiria", e por isso aí é que o "vento tenha foi muito forte".

Seja como for, quanto aos relatos de rajadas de 200 km/h, Mário Marques duvida ("mostrem-me onde...") e alerta para a muita falsa informação que circula, e que pode dificultar o trabalho das autoridades e a defesa das populações.

No que toca à precipitação, também esteve intensa, sobretudo a Norte, com Amarante, por exemplo, a "estar mesmo no limite de sofrer inundações". Cenário que não é de descartar nos próximos dias, com cuidados a ter já a partir desta madrugada, até porque com o prevísivel aumento de precipitação, a neve dos últimos dias vai derreter e vai colocar os "principais rios portugueses" de transbordarem e galgarem localidades.

Para hoje, Mário Marques aconselha "evitar as áreas de floresta e eucaliptal" porque as "árvores estão frágeis e podem cair ramos mesmo com vento" e também "zonas costeiras até ao fim da tarde" por causa da "agitação marítima". Com a certeza que este filme pode ter uma sequela já na próxima semana.