"Em Alcácer, se estivéssemos à espera de apoio do Estado estava tudo fechado ainda"
A viagem do Conta Lá pela Estrada Nacional 2 passa esta quarta-feira em Alcácer do Sal, um dos concelhos mais afetados pelas inundações que resultaram das tempestades do início do ano. A correaria Casa Goucha foi um dos estabelecimentos que ficou inundado após as cheias do rio Sado. O proprietário, José Goucha, afirmou, em declarações ao jornalista Pedro Miguel Costa, que estima "meio milhão de prejuízos" e que, até agora, não recebeu qualquer apoio do Estado.
"O seguro é meu, não me deram o que eu queria, nem pensar, mas o Estado não deu nada. Até hoje nada, tudo à minha conta. Em Alcácer, se estivéssemos à espera de apoio do Estado estava tudo fechado ainda", sublinhou.
A Casa Goucha não é caso único. José Crespo é proprietário de um restaurante que ficou inundando e que está fechado desde fevereiro. Ao Conta Lá, admitiu que vai gastar mais de 150 mil euros em obras e que o que lhe valeu foram as poupanças, uma vez que não recebeu qualquer apoio do Estado e a verba que recebeu do seguro apenas chegou há duas semanas.
"O que vou gastar de certeza que vai ultrapassar 150 mil euros. Do estado só do IEFP, só contribuíram para o pagamento dos vencimentos dos funcionários. Se não tivesse poupanças isto estava tudo parado", afirmou.
Vanessa Silva, presidente da junta de freguesia de Santiago, convidada do painel desta emissão, admitiu que "nem toda a gente conseguiu seguir em frente". A responsável vincou que "não houve um apoio direto que era crucial" para os comerciantes, lembrando que há famílias inteiras a viverem de certos negócios. De resto, a autarca destacou que, praticamente quatro meses depois, ainda há estabelecimentos fechados e sem condições para reabrir.
"Encontramos ainda muitos espaços fechados, o que nos toca o coração. Temos um espaço que tem cerca de 100 anos, a Casa Havaneza [papelaria], que não vai ter condições de reabrir", explicou.
Vanessa Silva notou que muitos comerciantes conseguiram reerguer-se com a ajuda de amigos e familiares e recorrendo a financiamento, mas foi perentória: "É importante que venha o apoio devido. As pessoas ficaram sem nada. Já vem tarde, mas é urgente chegar".
A responsável recordou que a freguesia de Santiago foi profundamente fustigada pelas cheias com "aldeias e bairros isolados" e que as instalações da junta, por se encontrarem "num sítio mais seco", transformaram-se no local onde se concentraram "tudo o que era serviços, profissionais, técnicos, desde GNR, bombeiros, marinha, assistentes, psicólogos".
"Foi uma casa de todos nós, durante um mês. Criou-se um movimento de entreajuda muito grande. Não houve qualquer tipo de pedido, mas começou-nos a chegar sopa, bifanas, café, fruta", notou.
Pedro Silveira, presidente da Associação de Produtores Florestais do Alentejo Litoral, sublinhou que as cheias chegaram a "níveis de que não há memória", numa situação que, admitiu, não seria possível "prevenir totalmente".
"Foi uma situaçao muito complicada. Chegou-se a níveis de que não há memória. Talvez seja uma das coisas a que nos temos de habituar, a viver num cenário de alterações climáticas", considerou.
As inundações de fevereiro foram das mais graves registadas no concelho de Alcácer do Sal. A presidente deste município do distrito de Setúbal, Clarisse Campos, estimou prejuízos na ordem dos 30 milhões de euros.