Em Mortágua, “tendo em conta a dimensão de Portugal, não podemos dizer que estamos no Interior”

Esta terça-feira, a emissão da Estrada Nacional 2 chegou a Mortágua. Em direto do quilómetro 225, o despovoamento, o setor vitivinícola, a agricultura e a cultura estiveram em debate.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
05 mai. 2026, 13:07

No quilómetro 225 da Estrada Nacional 2, Mortágua revelou um retrato comum a muitos territórios fora dos grandes centros: um concelho que evolui, mas que continua a enfrentar desafios estruturais, desde a fixação de pessoas à valorização dos seus recursos naturais e económicos.

Para Ricardo Pardal, presidente da Câmara Municipal de Mortágua, o debate sobre o território começa na forma como o país se pensa a si próprio. “Tendo em conta a dimensão de Portugal, não podemos dizer que estamos no Interior”. Estamos a 100 km do mar”, sublinha, preferindo o conceito de “desequilíbrios de despovoação”.

A floresta ocupa um lugar central nessa equação. Num concelho onde o eucalipto tem presença histórica, Ricardo Pardal rejeita leituras simplistas: “O eucalipto é como qualquer árvore de produção. Serve para produzir pasta de papel.” Ainda assim, defende a necessidade de ordenamento, com a criação de zonas tampão e a introdução de espécies mais resistentes ao fogo e à intempérie. A “humanização da floresta” surge como palavra-chave.

Mas o problema vai além da paisagem. A dificuldade em fixar profissionais de saúde é apontada como um dos maiores entraves à qualidade de vida local. “É um problema estrutural nacional que, à nossa escala, se sente ainda mais”, afirma. Para o autarca, a solução não pode passar por competição entre municípios, exigindo antes políticas nacionais eficazes.

A par disso, defende uma revisão da lei eleitoral e mecanismos de discriminação positiva: “Os rendimentos não são comparáveis aqui e no litoral. As taxas não podem ser iguais.” A coesão territorial, tantas vezes evocada, continua, segundo o autarca, mais no plano teórico do que na prática.

Ainda assim, há sinais de progresso: expansão do parque industrial, aposta em cursos de língua de acolhimento para imigrantes e um tecido associativo ativo. “Fixar pessoas e cuidar dos mais velhos são as nossas prioridades.”

O vinho do Dão e o peso do preconceito na agricultura 

Se a floresta marca a paisagem, o vinho define parte da identidade económica da região. Nuno Cancela de Abreu, enólogo e gerente da Adega Boas Quintas, descreve um terroir singular, influenciado pela barragem da Aguieira: nevoeiros matinais e maturações equilibradas que dão origem a vinhos frescos e com uma acidez distinta.

“A casta encruzado é a nossa rainha”, afirma, referindo-se à casta branca emblemática do Dão. Mas o potencial da região contrasta com dificuldades persistentes, desde logo, na contratação de mão de obra qualificada. “Há um preconceito muito grande em relação a estas regiões”, lamenta. A falta de candidatos a cursos de vitivinicultura e a escassez de técnicos especializados refletem uma perceção negativa da agricultura enquanto setor profissional.

Apesar disso, a empresa exporta cerca de 60% da produção e tem encontrado oportunidades em mercados como o Reino Unido e os Estados Unidos, apontando também ao Brasil como destino estratégico futuro, graças ao acordo UE-Mercosul. 

“Recuperar uma região não é fácil”, reconhece, lembrando que o Dão só começou a afirmar-se novamente com projetos privados a partir dos anos 90.

Cultura e pertença: a força da filarmónica

Num território onde a fixação de pessoas é um desafio constante, a cultura assume um papel essencial na construção de identidade. Ricardo Vicente, maestro da Banda Filarmónica de Mortágua, destaca o espírito coletivo como base do projeto: “Faz-se música em conjunto. Abandonam-se os egos.”

A filarmónica integra cerca de 45 músicos, muitos deles formados na própria escola de música, que conta atualmente com 30 alunos. Este trabalho de base tem sido determinante para a continuidade da instituição e para a elevação do nível musical no concelho.

“Temos hoje o mesmo cinema que em Lisboa, teatros e concertos”, afirma, contrariando a ideia de que a oferta cultural está limitada fora dos grandes centros. O recente funcionamento de um conservatório reforça essa tendência.

Mais do que entretenimento, a cultura surge como fator de coesão: “Ajuda a criar um sentimento de pertença.” Num concelho marcado por desafios demográficos, esse sentimento pode ser decisivo.