Em Podence, as mulheres romperam com uma tradição só para rapazes
O Entrudo Chocalheiro de Podence é uma das celebrações de Carnaval mais autênticas do país. Entre as diversas atividades ao longo de quatro dias, o grande destaque, que atrai milhares de visitantes todos os anos, são os Caretos à Solta.
Uma tradição noutros tempos reservada apenas para os rapazes, mas que se foi transformando com o tempo. Hoje, nesta aldeia de Macedo de Cavaleiros, há várias mulheres que se vestem de Careto. Num artigo publicado em janeiro pelo Conta Lá, António Tiza, presidente da Academia Ibérica da Máscara, explicou que “certas festas, que eram só de rapazes jovens, neste momento já abriram a participação a homens adultos, casados e a mulheres também”.
É o caso de Cecília Rosa Reis, a "mulher-careto", como é já conhecida em Podence.
Era adolescente quando vestiu pela primeira vez o fato. “Empurrada” pelo pai, que na altura viu a aldeia vazia pela guerra do Ultramar, e a incentivou a alegrar o povo, Cecília partiu para a folia por vingança.
“Ele disse-me: oh Cecília, veste-te de careto, porque hoje nem parece Carnaval, não anda ninguém no povo. É uma tristeza. E eu, vesti-me, andei lá aos pulos, por ali, e ninguém me conheceu, porque eu tinha muita genica”, relembra com nostalgia em entrevista ao Conta Lá.
Depois, impulsionada pela vontade de descobrir um careto que a chocalhou até fazer nódoa negra, Cecília andou de casa em casa com o grupo de rapazes até que eles tirassem as suas. “ Fui atrás deles, porque com máscara, ninguém os conhece. Param em todos os sítios, toda a gente abre a porta para beberem, para fazerem as patifarias. Vi quem é que me tinha feito aquelas maldades todas e vinguei-me”, explica a brincadeira entre risos.
“O carnaval em Podence é muito permissivo. Eles tinham carta branca para tudo.”
A partir daí e apaixonada pela tradição, não deixou de participar uma única vez. “O meu pai dizia-me, se fores, vais vestir-te de careto, porque ninguém te conhece e ninguém se mete contigo. Eu vesti-me sempre, toda a vida, e ninguém sabia que era eu”.
Hoje, aos 72 anos, a "mulher-careto" continua a sair à rua todos os anos. Agora, já tira a máscara e é abordada até pelos mais novos que dizem que a conhecem pelos vídeos ou pelas entrevistas.
Este ano marcou novamente presença, em todos os dias dedicados ao entrudo. “Doem-me os joelhos e os braços. Andei ontem até à meia-noite vestida de careto, todo o dia. Agora já não tenho genica, embora a cabeça queira, o físico já não acompanha”.
Já não é capaz de chocalhar, porque já não tem força, mas garante que se vai vestir sempre, enquanto puder, faça chuva ou faça sol.
“Vir ao Carnaval e não vestir de Careto é qualquer coisa que me falta”.

Cecília é um exemplo para muita gente e é a primeira a incentivar todos a vestir a máscar. Até já começou a fazer os fatos para os mais novos da família, tarefa que confessa ser difícil: “Temos de fazer a franja num tear manual, que demora cerca de hora e meia, fazer um metro de franja. Depois, é preciso cozê-lo à mão e não é fácil arranjar duas colchas iguais”.
A antiga professora, natural de Podence, conta que agora os fatos já se fazem com mantas alentejanas porque as de linha e lã já não existem. Mas o próprio fato não empresta a ninguém e igual ao dela só se encontra no museu Casa do Careto.
“É uma tradição que nos orgulha muito. Para mim, é tão bom termos tanta gente, porque é sinal que gostam de nós. Eu faço publicidade aos caretos e proporciono a toda a gente o que posso, bem-estar e conforto.”
Cecília está convicta que esta tradição não se vai perder e é a primeira a incentivar a juventude. “A melhor coisa que temos para dar continuidade é pôr os novos a gostarem. E se proporcionarmos as condições, vão gostar muito, porque isto é lindo”.
Este ano, nem a chuva impediu a tradição no Domingo Gordo. Entre guarda-chuvas e os fatos e as máscaras tradicionais, houve apenas espaço para a folia do entrudo.
“O Domingo Gordo foi vivido intensamente entre chocalhos, cor, tradição e magia. A animação tomou conta das ruas, que se encheram de vida e calor humano”, lê-se numa publicação do município de Macedo de Cavaleiros.