Enfermagem não pode ser usada como solução de poupança no sistema de saúde, alerta especialista

O especialista em saúde global Tiago Correia alerta que a substituição de médicos por enfermeiros não deve ser feita para reduzir custos, mas apenas se resultar numa melhoria da qualidade e segurança dos cuidados prestados aos utentes, sublinhando a necessidade de protocolos claros e regulação rigorosa.
 
Agência Lusa
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O especialista em saúde global, Tiago Correia, alertou esta sexta-feira que a substituição de médicos por enfermeiros não deve ser feita para reduzir custos, mas sim se resultar numa melhoria dos cuidados de saúde prestados aos utentes.

A posição do professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa (IHMT-UNL) foi manifestada à agência Lusa, na sequência de um artigo que publicou, em conjunto com o investigador do Reino Unido Martin McKee, na revista científica British Medical Journal (BMJ).

Nesse artigo, os dois investigadores avisam que colocar profissionais de saúde “uns contra os outros não ajudará a resolver os problemas da força de trabalho” que se verificam a nível global no setor e que têm levado governos a “procurar soluções rápidas” como a substituição de médicos por enfermeiros.

Tiago Correia e Martin McKee consideram que uma recente revisão de ensaios clínicos que substituíram médicos por enfermeiros, abrangendo 82 estudos e 28 mil profissionais de saúde, impulsionou ainda mais esta discussão, devido a uma cobertura mediática internacional “altamente negativa”.

Em declarações à Lusa, Tiago Correia salientou que se verifica “disputas entre as profissões de saúde”, devido à falta global de profissionais desta área, mas considerou que, mais recentemente, tem sido possível evoluir para uma “lógica de maior colaboração e de interdependência”.

O coordenador do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho alertou ainda para o risco de tentativas de substituição de médicos por enfermeiros assentarem no argumento da diminuição de custos.

“Um enfermeiro custa menos do que um médico, logo, se há tarefas que enfermeiros podem fazer em vez de médicos, então vamos colocar enfermeiros”, referiu Tiago Correia, salientando que a revisão dos estudos não demonstrou que se verifiquem poupanças na substituição de profissionais de saúde.

“Se for feita de forma incorreta esta substituição, isso até pode gerar custos acrescidos, na medida em que põe em causa a qualidade, a segurança e muitos procedimentos, porventura, até têm que ser repetidos e, nessa medida, não há também aqui uma prova de poupança”, realçou o também editor-chefe do European Journal of Public Health.

Segundo Tiago Correia, a substituição de profissionais pode acontecer em casos muito específicos e protocolados, que requerem sempre mecanismos de regulação e vigilância para garantir a segurança e a qualidade dos cuidados a prestar aos utentes.

No caso de enfermeiros especialistas assegurarem a vigilância de gravidezes de baixo risco, conforme está previsto num projeto-piloto em Portugal, Tiago Correia defendeu que, se os papéis dos médicos e enfermeiros estiverem bem definidos, “não há razões para ter medo de avançar para aí, desde que a decisão não seja baseada com uma racionalidade de poupança, nem seja numa lógica de substituir uma profissão por outra”.

Como resposta à falta de profissionais de saúde, o especialista alertou que, em primeiro lugar, é necessário garantir que as várias profissões do setor “continuam a ser atrativas perante outras áreas de conhecimento”.

“As carreiras devem ser interessantes, o mercado de trabalho na saúde deve ser interessante, comparativamente a outros mercados. Garantido isto, é importante assegurar que os profissionais, quando entram no sistema de saúde, permanecem no sistema de saúde”, alegou Tiago Correia.

Além disso, segundo referiu, os países com envelhecimento demográfico, como é o caso de Portugal, têm “obrigatoriamente de repensar a prestação de cuidados”, através de uma rede "absolutamente centrada nos cuidados de saúde primários”.

Todo o sistema “tem de ser repensado” para garantir que os circuitos de comunicação, de exames, de diagnósticos, de tratamentos “estão otimizados para reduzir tempo, deslocações e trabalho burocrático”, defendeu o investigador do IHMT-UNL.