Ensino superior é mais barato em Portugal, mas representa custos elevados para as famílias
Frequentar o ensino superior é mais barato em Portugal do que nos restantes Estados-membros da União Europeia, mas os custos são elevados para as famílias portuguesas, que suportam 30% do financiamento das instituições através das propinas.
A conclusão resulta de um estudo divulgado esta quinta-feira pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que analisou os ganhos económicos associados ao prosseguimento dos estudos no ensino superior.
Um dos indicadores avaliados para perceber se compensa frequentar o ensino superior foi o retorno financeiro desse investimento, calculando a diferença entre os ganhos salariais ao longo da vida e os custos diretos de frequentar o ensino superior e rendimentos de trabalho sacrificados por prosseguir os estudos ao invés de entrar no mercado de trabalho logo após o ensino secundário (custos indiretos).
Comparativamente aos restantes Estados-membros da União Europeia (UE), é em Portugal que os custos de frequentar o ensino superior são mais baixos, em parte devido aos baixos salários auferidos pelos jovens que concluíram apenas o ensino secundário.
No entanto, as despesas têm um peso diferente no orçamento das famílias portuguesas.
Segundo o relatório, os custos diretos de frequentar uma universidade (propinas, taxas e emolumentos e materiais de estudo), tornam-se elevados quando em relação ao PIB ‘per capita’ e representam uma parte significativa dos custos totais, ao contrário da maioria dos países, onde os rendimentos não auferidos constituem a maior fatia desse bolo.
No contexto europeu, só Espanha e Hungria ultrapassam Portugal, e os autores alertam que, apesar dos valores absolutos baixos, os custos iniciais “podem constituir sérios obstáculos à entrada no ensino superior”.
Por outro lado, o ‘policy paper’ divulgado esta quinta-feira – o quinto produzido pela Fundação e o segundo dedicado à Educação – aponta os níveis de investimento “relativamente baixos”.
Em 2022, Portugal pagou, em média, 14.155 dólares (cerca de 12.000 euros) por estudante, 35% abaixo da média da UE, sendo que um terço desse valor foi pago pelas famílias, posicionando o país no topo da lista dos Estados-membros onde as famílias mais contribuem para o financiamento das instituições.
Perante esse cenário, o desafio é encontrar um equilíbrio entre eficiência associada à frequência do ensino superior, a equidade de oportunidades e partilha justa de custos, e a sustentabilidade no que respeita à viabilidade fiscal e qualidade da educação.
Os dados do relatório sugerem que o modelo seguido por Portugal nos últimos anos – de partilha de custos, combinando financiamento público e com propinas a cargo dos estudantes – é insuficiente e, por isso, os autores deixam algumas recomendações para alcançar esse equilíbrio.
Numa apresentação das conclusões à comunicação social, o coordenador do estudo, Luís Catela Nunes, que participou também um estudo sobre o sistema de ação social solicitado pelo Ministério da Educação, recordou que o valor atual das bolsas de estudo é muito baixo e defendeu mecanismos de apoio financeiro sólidos, para garantir que nenhum estudante fique excluído do ensino superior por motivos financeiros.
“Pensando no futuro, a dúvida é que se as propinas vierem a aumentar, isso vai colocar uma pressão ainda maior nas famílias”, alertou, sublinhando que “qualquer mudança nas propinas tem de ser acompanhada de bolsas de estudo”.
Outra hipótese, que os investigadores não recomendam, mas sobre a qual sugerem uma reflexão, é um sistema de empréstimos indexados aos rendimentos com “condições transparentes, mecanismos sólidos de prestações e medidas de salvaguarda que promovam o acesso equitativo, garantindo simultaneamente a sustentabilidade financeira”.
Para Luís Catela Nunes, esse sistema poderia resultar em “escolhas mais racionais” por parte dos estudantes, favorecendo as áreas de estudo com maior rentabilidade, mas poderá não ser sustentável, uma vez que não existe uma garantia de que os empréstimos sejam pagos na totalidade.
Cada euro investido no ensino superior traduz-se em quase 14 euros de ganhos salariais
Os jovens diplomados obtêm quase 14 euros em ganhos salariais por cada euro investido no ensino superior, segundo um estudo que confirma que concluir uma licenciatura tem vantagens no início da carreira e ao longo da vida profissional.
Além das vantagens associadas ao ensino superior nas taxas de emprego e salários, amplamente estudadas, a equipa coordenada pelo investigador Luís Catela Nunes foi mais longe e calculou o retorno financeiro líquido do investimento no ensino superior.
Este indicador resulta da diferença entre os ganhos salariais ao longo da vida e os custos diretos de frequentar o ensino superior e rendimentos de trabalho sacrificados por prosseguir os estudos ao invés de entrar no mercado de trabalho logo após o ensino secundário (custos indiretos).
Para além dos custos individuais mais baixos na União Europeia, Portugal destaca-se no contexto europeu pela relação benefício-custo “muito elevada”.
Segundo as contas dos autores, por cada euro investido no ensino superior, os jovens obtêm, em média, 13,7 euros em ganhos salariais.
“Numa perspetiva financeira individual, quem investe no ensino superior em Portugal obtém, em média, retornos elevados, sobretudo tendo em conta os custos absolutos comparativamente baixos e os ganhos salariais razoáveis a longo prazo”, refere o estudo.
Os autores analisaram também, em detalhe, as taxas de empregabilidade e os salários obtidos pelos diplomados do ensino superior, em comparação com os jovens que apenas concluíram o ensino secundário.
Desde logo, arranjar emprego depois de terminar os estudos parece ser uma tarefa mais fácil para quem sai das universidades.
Um ano após concluírem o curso, 75% dos licenciados já está a trabalhar e entre os mestrados as taxas de emprego chegam aos 88%, em ambos os casos acima dos diplomados de cursos profissionais e científico-humanísticos do ensino secundário.
As vantagens são ainda mais expressivas em termos salários e chegar ao mercado de trabalho com um diploma do ensino superior traduz-se, em geral, em rendimentos significativamente mais altos (mais 28% para licenciados e mais 49% para jovens com mestrado).
Essa vantagem salarial é suficiente para superar os anos de experiência perdidos face a quem começou a trabalhar mais cedo.
Com três anos de experiência, um trabalhador que concluiu apenas no ensino secundário ganha, ainda assim, menos do que um licenciado em início de carreira, da mesma forma que um licenciado com dois anos de experiência ganha menos do que um jovem com mestrado no primeiro ano de trabalho.
Ao longo da carreira, o fosso entre diplomados do ensino superior e do secundário torna-se ainda maior, uma vez que os primeiros podem antecipar uma progressão salarial mais rápida.
Há, no entanto, áreas com melhores salários do que outras – em particular, as áreas das Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática – e realidades muito díspares dentro da mesma área, dependendo das funções, mas também de fatores como a perceção dos empregadores quanto à qualidade da educação e reputação das instituições frequentadas, ou características individuais.
Por isso, os autores recomendam o reforço da orientação profissional mesmo antes do ensino secundário, mas também mais informação sobre os resultados alcançados pelos diplomados do ensino superior, para que os estudantes possam fazer escolhas informadas quanto ao seu percurso formativo.
Alunos do profissional têm emprego mais depressa, mas com salários idênticos ao ensino geral
Os jovens diplomados do ensino secundário profissional conseguem arranjar emprego mais depressa do que aqueles que concluíram cursos científico-humanísticos, mas optar pela via profissionalizante não se traduz em melhores salários, segundo um estudo divulgado hoje.
O relatório confirma que os diplomados do ensino superior registam taxas de emprego e salários mais elevados, mas aponta também diferenças entre os jovens que decidiram não prosseguir os estudos depois de terminarem o secundário.
Olhando para as taxas de emprego, a equipa coordenada pelo investigador Luís Catela Nunes concluiu que o mercado de trabalho parece recompensar os jovens oriundos de cursos profissionais.
Um ano após concluírem o curso, 72% dos diplomados do ensino profissional estavam empregados, percentagem significativamente superior face aos 56% de diplomados dos cursos científico-humanísticos que não prosseguiram os estudos.
Ao longo do tempo, essa diferença vai-se esbatendo e após cinco anos é quase nula (88% e 86%, respetivamente), sugerindo que os alunos que escolhem a via profissionalizante são recompensados no acesso ao mercado de trabalho, mas apenas no curto prazo.
Por outro lado, o percurso académico dos jovens com ensino secundário é, aparentemente, indiferente quando estão em causa os salários, tanto no início da carreira, como ao longo dos anos.
Entre os quatro grupos geracionais analisados – nascidos entre 1987 e 1991, 1992 e 1996, 1997 e 1999, e 2000 e 2002 – os salários nos primeiros anos de experiência profissional são muito próximos e têm uma evolução idêntica, nunca chegando a registar diferenças significativas.
É quando concluem um curso superior que os jovens obtêm um ganho salarial mais expressivo.
Recordando que os alunos das vias profissionalizantes são menos propensos a prosseguir os estudos no ensino superior (só 22% continuam a estudar, abaixo dos 76% de diplomados dos cursos científico-humanísticos) e que o contexto socioeconómico pesa na opção pelo ensino profissional, os autores sublinham a necessidade de garantir oportunidades para atualizar os seus conhecimentos e competências ao longo da vida, sob pena de perpetuar desigualdades sociais.
Luís Catela Nunes defendeu que a solução não deve passar por “forçar a transição para cursos que não estão adaptados”, mas por promover a aprendizagem ao longo da vida.
Para isso, os investigadores sugerem a criação de percursos flexíveis e apelativos que apoiem a progressão e a conclusão dos cursos ao longo do tempo, com vias de acesso que reconheçam as aprendizagens prévias e experiência profissional, e cursos alinhados com os perfis profissionais.
A título de exemplo, Luís Catela Nunes referiu os casos da Noruega, Suíça e Suécia, onde muitos alunos entram no mercado de trabalho após concluírem o secundário, mas retomam os estudos mais tarde.
Dirigindo-se às instituições de ensino superior, os autores recomendam também estratégias académicas mais flexíveis e prospetivas, alinhadas com as necessidades futuras, com programas concebidos à medida dos percursos educativos e profissionais dos diplomados do ensino profissional.