Entre a “prisão” do carro a um metro que custou milhões, Gaia tem uma mão cheia de desafios na mobilidade

O trânsito, o carro, o metro, as ciclovias e até o teleférico. Foram os temas que passaram pelo debate do Conta Lá sobre mobilidade em Vila Nova de Gaia, mostrando uma cidade em plena transformação.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
21 mar. 2026, 17:35

É claro o crescimento urbano e da população de Gaia, facto que é acompanhado pela pressão sobre as estradas, os transportes e infraestruturas. Os desafios são complexos.

Entre carros, transportes públicos, ciclovias e novas soluções como teleféricos, o concelho já está a procurar alternativas para melhorar a mobilidade, reduzir o trânsito e ligar de forma mais eficiente os diferentes pontos da cidade.

E foi esse o tema central do debate transmitido pelo Conta Lá este sábado, à boleia da transmissão especial da Meia Maratona de Gaia, que reuniu especialistas e o vereador com o pelouro da Mobilidade e Desporto da autarquia.

Num território em crescimento, já com cerca de 310 mil habitantes e com pressão demográfica crescente, sobretudo na zona litoral, a forma como as pessoas se deslocam tornou-se uma questão central.

E é impossível pensar em mobilidade e não pensar no automóvel. Para Cecília Silva, investigadora da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), o ponto de partida é claro: durante décadas, as cidades foram pensadas à volta do automóvel e agora lidam com consequências.

“Passámos décadas a tentar resolver os problemas do automóvel e agora percebemos que ele é uma prisão. É uma relação de amor-ódio, pelo trânsito e problemas de estacionamento, mas que depois nos deixa fazer deslocações mais diretas e rápidas”, disse a especialista.

A investigadora da FEUP recordou ainda que esta dependência não é nova, sobretudo em zonas específicas da Área Metropolitana: “Em 2005, estudei toda a Área Metropolitana do Porto e percebi que a zona ribeirinha é totalmente dependente do automóvel”.

Perante este cenário, Cecília Silva defende que é essencial controlar a expansão urbana em zonas onde ainda não existem alternativas de transporte eficazes, sublinhando a necessidade de “definir regras e medidas de contenção”.

 

Já há projetos para responder ao crescimento

Representando a autarquia no debate, Fernando Machado, vereador da Mobilidade e Desporto, reconhece que este é “um dos maiores desafios do município atualmente”.

Entre as medidas em curso e previstas, o vereador destacou mudanças na circulação rodoviária, nomeadamente restrições ao tráfego pesado nas pontes em horários específicos: “ Vai começar agora uma dessas medidas, com os camiões que não vão poder passar nas pontes entre as 7 e as 21 horas da noite. Isso já vai criar um grande alívio”.

Mas a resposta não se fica pela rodovia. Há projetos para novas vias internas, melhorias nas ligações dentro do próprio concelho e soluções complementares, como um novo teleférico “entre a Arrábida e a futura estação de metro à zona ribeirinha”, sublinhou o autarca.

Além disso, está em estudo um grande parque de estacionamento em Avintes, pensado como interface com o metro, como já havia anunciado nos últimos dias o presidente do município, Luís Filipe Menezes.

“A partir dali haverá uma ligação direta para a Linha Amarela, aliviando as estradas limítrofes e a pressão do trânsito”, explicou Fernando Machado.

Apesar do ritmo acelerado, o autarca admite que nem tudo será imediato e a janela temporal é incerta, com “alguns projetos a poderem ficar prontos este ano”, mas reconhecendo que muitos deles “vão demorar mais”, dada a dimensão das obras.

 

É importante “casar” o planeamento urbano e a mobilidade 

Já Paula Teles, especialista em mobilidade e urbanismo, apontou um problema estrutural: a falta de articulação entre o planeamento das cidades e os transportes: “O sistema de planeamento da mobilidade demorou muito a ser casado com o planeamento do território.”

Segundo a especialista,este é um comportamento do nosso país que seguiu um caminho inverso ao de outros países: “Há países onde a mobilidade chegou primeiro. Aqui em Portugal nós fomos construindo".

O desafio agora, defende, passa por criar melhores ligações e integrar os diferentes modos de transporte, apostando na “conectividade e interligação”.

O debate refletiu um momento de transição em Gaia. Atualmente, o concelho já conta com uma rede intermodal que inclui metro com destaque para a Linha Amarela, a Alta Velocidade, autocarros, ciclovias e soluções complementares.

No horizonte estão projetos estruturantes como a Linha Rubi, a nova ponte sobre o Douro, a Ferreirinha, a expansão das ciclovias e até a chegada do TGV, que poderá criar novos nós intermodais no território.