Entre a ausência e a luz: o olhar de Yael Martínez sobre o desaparecimento

O fotógrafo mexicano Yael Martínez esteve em Lisboa para apresentar Luciérnagas, no âmbito do Ciclo Narrativa, onde explora o impacto dos desaparecimentos forçados através de uma linguagem visual simbólica. Em entrevista ao Conta Lá, explicou como a experiência pessoal moldou o seu trabalho e de que forma procura dar imagem à ausência. A exposição pode ser visitada gratuitamente até ao dia 6 de junho, no Espaço Narrativa.
Vítor Quental
Vítor Quental Jornalista
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
07 mai. 2026, 08:00

O fotógrafo mexicano Yael Martínez tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais relevantes da fotografia contemporânea, sendo membro da agência internacional Magnum Photos. O seu percurso começa no fotojornalismo, área em que desenvolveu os primeiros trabalhos, antes de evoluir para uma linguagem mais autoral, onde cruza o registo documental com uma abordagem simbólica e profundamente pessoal. O seu trabalho centra-se sobretudo nos desaparecimentos forçados e na violência no México, evitando a representação direta desses fenómenos e focando-se nas suas consequências invisíveis: o luto, a ausência e o impacto prolongado nas famílias e comunidades.

Essa mudança ganha um ponto de viragem em 2013, quando três membros da sua família desaparecem. A partir daí, Martínez desenvolve projetos de longo prazo que acompanham outras famílias marcadas pela mesma realidade, expandindo o seu olhar para diferentes geografias e construindo uma narrativa que ultrapassa fronteiras. Mais do que documentar acontecimentos, o fotógrafo procura traduzir emoções difíceis de representar, recorrendo a intervenções físicas nas imagens, como perfurações e jogos de luz, que reforçam a dimensão poética e conceptual do seu trabalho.

O reconhecimento internacional do seu percurso reflete-se também nos vários prémios que recebeu, entre os quais o W. Eugene Smith Grant (2019) e o World Press Photo na região da América do Norte e Central (2022), distinções que sublinham a relevância e o impacto do seu trabalho.

É nesse contexto que surge Luciérnagas, a exposição apresentada no âmbito do Ciclo Narrativa 2026, em Lisboa. O projeto, desenvolvido entre 2019 e 2023, funciona como um exercício de transformação visual do trauma, onde a luz assume um papel central como símbolo de memória, resistência e possibilidade. A exposição propõe uma reflexão sobre aquilo que permanece quando alguém desaparece, convidando o público a confrontar-se com uma ausência que, embora invisível, continua a moldar vidas, podendo ser visitada gratuitamente até 6 de junho, no Espaço Narrativa.

O Ciclo Narrativa, que decorreu entre 1 e 4 de maio, assinalou o aniversário deste espaço dedicado à fotografia contemporânea, reunindo autores, editores e público em torno de exposições, talks, lançamentos e outras iniciativas. Com entrada livre, o evento tem vindo a consolidar-se como um ponto de encontro relevante na agenda cultural lisboeta, promovendo o diálogo entre diferentes práticas e gerações no campo da fotografia.

Durante a sua passagem por Portugal, o fotógrafo foi entrevistado pela jornalista Mariana Moniz. Na conversa, abordou a forma como a sua experiência pessoal redefiniu o seu percurso artístico, a dificuldade de representar o desaparecimento — um fenómeno sem imagem — e o papel da luz enquanto elemento central na construção de uma linguagem capaz de tornar visível o invisível. A entrevista destacou ainda as questões éticas associadas à representação da dor e a necessidade de ir além do registo documental para captar a complexidade emocional destas histórias. A imagem é de Vítor Quental e a edição de Catarina Hilário.