Entre a perceção e a realidade: Festival Uncover desafia o público a questionar o poder das imagens

Numa altura em que qualquer imagem circula a uma grande velocidade nas redes sociais e tem a capacidade de influenciar a forma como as pessoas veem a realidade, o Festival Uncover regressa a Guimarães para lançar um desafio: até que ponto aquilo que vemos corresponde à realidade?
Regina Ferreira Nunes
Regina Ferreira Nunes Jornalista
10 mar. 2026, 17:16

A segunda edição do Festival Uncover reúne durante os próximos quatro dias (de 12 a 15 de março) conversas, masterclasses, exposições, workshops, performances e concertos dedicados a explorar a relação entre a imagem, a perceção e a realidade concreta. Para Miguel Bica, produtor do festival e membro da direção da plataforma Gerador, o ponto de partida deste festival é o foco da imagem na sociedade contemporânea: “Se antigamente uma imagem valia mais do que mil palavras, hoje certamente vale muito mais do que isso”, afirma. 

A partir desta leitura, o produtor afirma que o festival visa proporcionar uma reflexão sobre a distância que pode existir entre aquilo que as pessoas percecionam e a realidade dos factos, isto é, “a imagem que nós temos das coisas pode não ser diretamente relacionada com a realidade”, explica. Ainda assim, sublinha, esta perceção continua a ter impacto: “a ideia que um coletivo faz de alguma coisa, mesmo não sendo diretamente relacionada com os dados ou com os factos, é válida no momento em que é aceite”.

E é precisamente essa construção coletiva de imagens que são a base da programação do festival. Entre as iniciativas desta edição está o ciclo “Singularidades de Guimarães”, um conjunto de conversas realizadas ao longo dos últimos meses com os habitantes da cidade berço. Os encontros abordaram temas como a periferia, a juventude, a educação e o emprego, com o intuito de analisar como diferentes pessoas constroem a sua própria imagem e/ou perceção do lugar onde vivem.

“Dois habitantes da mesma cidade podem ter uma imagem diametralmente diferente dela e essas duas imagens são igualmente válidas para quem vive e toma decisões naquele espaço”, refere Miguel Bica ao Conta Lá. 

As reflexões recolhidas nesses encontros vão proporcionar também uma instalação sonora do artista Rolando Ferreira, construída a partir de gravações feitas em  escolas, fábricas e outros contextos da cidade.

O programa inclui ainda debates sobre temas contemporâneos, nomeadamente sobre tecnologia e “cultura digital”. Uma das conversas integra a investigadora e professora na área dos media digitais, Ana Marta Flores e a ativista e consultora de saúde mental, Marta Rebelo, para discutir de que forma o consumo constante de conteúdos digitais pode influenciar a forma como as pessoas pensam. 

Além deste painel, outra das convidadas é a rapper e escritora Capicua, que vai participar numa masterclass dedicada ao tema “Feminismos e resistências hoje”, numa reflexão que visa abordar a forma como o feminismo é percecionado na sociedade contemporânea. 

Na esfera internacional, o festival recebe Natalia Sliwinska, investigadora e editora de vídeo na Forensic Architecture. Este grupo usa métodos de investigação que recorrem a imagens de satélite, análise de ruínas e reconstruções espaciais para reconstituir acontecimentos ligados a violações de direitos humanos. Já o filósofo italiano Franco Berardi vai participar no evento através de uma masterclass gravada dedicada ao conceito de “envelhecimento do mundo”, uma metáfora que compara as transformações sociais atuais ao processo de envelhecimento do corpo humano.

Outro dos destaques é a participação do investigador britânico Bobby Duffy, autor do livro “Os Perigos da Perceção”, que vai apresentar dados sobre a diferença entre aquilo que as pessoas acreditam e aquilo que as estatísticas revelam.

Segundo Miguel Bica, mais do que um espaço de transmissão de conhecimento, o festival pretende criar um ambiente aberto e acessível à informação. “Não é um espaço de apresentação hierárquica de conhecimento”, explica, “é um espaço horizontal, onde se pretende que a conversa seja fluida e próxima do público”.

O intuito versa ainda incentivar o pensamento crítico fora do contexto académico: “perceber o mundo e um bocadinho mais do pensamento para sermos mais críticos, às vezes mais desconfiados, no bom sentido, e tentarmos encontrar uma forma um bocadinho mais diversa de procura de informação e de interpretação”, sublinha.