Entre a “prisão” do carro a um metro que custou milhões, Gaia tem uma mão cheia de desafios na mobilidade
É claro o crescimento urbano e da população de Gaia, facto que é acompanhado pela pressão sobre as estradas, os transportes e infraestruturas. Os desafios são complexos.
Entre carros, transportes públicos, ciclovias e novas soluções como teleféricos, o concelho já está a procurar alternativas para melhorar a mobilidade, reduzir o trânsito e ligar de forma mais eficiente os diferentes pontos da cidade.
E foi esse o tema central do debate transmitido pelo Conta Lá este sábado, à boleia da transmissão especial da Meia Maratona de Gaia, que reuniu especialistas e o vereador com o pelouro da Mobilidade e Desporto da autarquia.
Num território em crescimento, já com cerca de 310 mil habitantes e com pressão demográfica crescente, sobretudo na zona litoral, a forma como as pessoas se deslocam tornou-se uma questão central.
E é impossível pensar em mobilidade e não pensar no automóvel. Para Cecília Silva, investigadora da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), o ponto de partida é claro: durante décadas, as cidades foram pensadas à volta do automóvel e agora lidam com consequências.
“Passámos décadas a tentar resolver os problemas do automóvel e agora percebemos que ele é uma prisão. É uma relação de amor-ódio, pelo trânsito e problemas de estacionamento, mas que depois nos deixa fazer deslocações mais diretas e rápidas”, disse a especialista.
A investigadora da FEUP recordou ainda que esta dependência não é nova, sobretudo em zonas específicas da Área Metropolitana: “Em 2005, estudei toda a Área Metropolitana do Porto e percebi que a zona ribeirinha é totalmente dependente do automóvel”.
Perante este cenário, Cecília Silva defende que é essencial controlar a expansão urbana em zonas onde ainda não existem alternativas de transporte eficazes, sublinhando a necessidade de “definir regras e medidas de contenção”.
Já há projetos para responder ao crescimento
Representando a autarquia no debate, Fernando Machado, vereador da Mobilidade e Desporto, reconhece que este é “um dos maiores desafios do município atualmente”.
Entre as medidas em curso e previstas, o vereador destacou mudanças na circulação rodoviária, nomeadamente restrições ao tráfego pesado nas pontes em horários específicos: “ Vai começar agora uma dessas medidas, com os camiões que não vão poder passar nas pontes entre as 7 e as 21 horas da noite. Isso já vai criar um grande alívio”.
Mas a resposta não se fica pela rodovia. Há projetos para novas vias internas, melhorias nas ligações dentro do próprio concelho e soluções complementares, como um novo teleférico “entre a Arrábida e a futura estação de metro à zona ribeirinha”, sublinhou o autarca.
Além disso, está em estudo um grande parque de estacionamento em Avintes, pensado como interface com o metro, como já havia anunciado nos últimos dias o presidente do município, Luís Filipe Menezes.
“A partir dali haverá uma ligação direta para a Linha Amarela, aliviando as estradas limítrofes e a pressão do trânsito”, explicou Fernando Machado.
Apesar do ritmo acelerado, o autarca admite que nem tudo será imediato e a janela temporal é incerta, com “alguns projetos a poderem ficar prontos este ano”, mas reconhecendo que muitos deles “vão demorar mais”, dada a dimensão das obras.
É importante “casar” o planeamento urbano e a mobilidade
Já Paula Teles, especialista em mobilidade e urbanismo, apontou um problema estrutural: a falta de articulação entre o planeamento das cidades e os transportes: “O sistema de planeamento da mobilidade demorou muito a ser casado com o planeamento do território.”
Segundo a especialista,este é um comportamento do nosso país que seguiu um caminho inverso ao de outros países: “Há países onde a mobilidade chegou primeiro. Aqui em Portugal nós fomos construindo".
O desafio agora, defende, passa por criar melhores ligações e integrar os diferentes modos de transporte, apostando na “conectividade e interligação”.
O debate refletiu um momento de transição em Gaia. Atualmente, o concelho já conta com uma rede intermodal que inclui metro com destaque para a Linha Amarela, a Alta Velocidade, autocarros, ciclovias e soluções complementares.
No horizonte estão projetos estruturantes como a Linha Rubi, a nova ponte sobre o Douro, a Ferreirinha, a expansão das ciclovias e até a chegada do TGV, que poderá criar novos nós intermodais no território.