Entre alambiques, barris e cães anfitriões: a história da destilaria que quer pôr o rum e o gin do Porto no mapa
Na zona oriental do Porto, perto do bulício de Campanhã, mas já na tranquilidade da Praça da Corujeira, há uma destilaria onde o gin se faz em três horas, enquanto o rum descansa pacientemente em pipas de vinho do Porto. Chama-se Scoundrels e tem dois anfitriões de quatro patas, a Pipoca e o Eleven, a fazer as honras da casa.
“Sou destilador e fundador da Scoundrels Distilling Co.”, é assim que se apresenta Travis Cunningham, australiano de origem e portuense por escolha. Atraído pelos aromas do vinho do Porto, a mudança para a Invicta concretizou-se em 2017 e a abertura oficial deu-se em 2021.
O plano inicial passava, sobretudo, pelo rum. Mas há um detalhe incontornável na produção de rum: o tempo. “O rum demora muito mais tempo a fazer”, explica Travis. Enquanto aguardavam pelo envelhecimento das primeiras produções, surgiu a necessidade de criar algo mais imediato. Foi assim que nasceu o gin da casa.
A intenção original era chamar-lhe “Porto Gin”, mas rapidamente perceberam que a designação não seria permitida devido à proteção legal das palavras “Porto”, “Port” e “Oporto” pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto. Em alternativa, e “como o outro nome da cidade é Invicta”, surgiu o nome “Invicta Gin”.
Hoje, a coleção inclui diferentes estilos, desde o clássico London Dry até versões mais contemporâneas inspiradas em sabores portugueses. O “Portuguese Citrus”, por exemplo, utiliza citrinos nacionais vindos do Algarve e do Norte do país.
Mas também há espaço para experiências improváveis. Segundo Travis, uma futura criação poderá incluir eucalipto como ingrediente principal, numa homenagem às origens australianas do fundador.
O rum que conquistou medalhas internacionais
Se o gin permitiu arrancar rapidamente, o rum continua a ser a grande paixão da casa. Produzido a partir de melaço, fermentado e destilado em alambiques próprios, o rum da Scoundrels passa depois por um processo de envelhecimento em pipas de carvalho americano e francês, anteriormente usados no estágio de vinho do Porto, que lhe conferem aromas de baunilha, frutos secos e especiarias.
Segundo Travis, o contacto com esta madeira confere características especiais à bebida e torna-a única. “Todo o rum começa por ser transparente. A cor vem da madeira”, explica Travis, desmontando uma ideia ainda comum entre consumidores.
A aposta já deu frutos. Em 2024, o primeiro rum produzido no Porto conquistou uma medalha de ouro numa competição internacional de bebidas espirituosas, o International Wine & Spirit Competition (IWSC). Para Travis, o prémio confirmou algo em que acreditava desde o início: “Podemos fazer rum de classe mundial no Porto, usando melaço local e cascos de vinho do Porto.”
Uma “destilaria urbana” aberta ao público
Mais do que um espaço de produção, a Scoundrels quis afirmar-se como uma experiência aberta à cidade. A destilaria promove provas, visitas e workshops onde qualquer pessoa pode criar o seu próprio gin personalizado.
A chamada “Gin School” tornou-se uma das imagens de marca da casa. Durante cerca de três horas, os participantes escolhem botânicos, criam receitas e destilam a sua própria garrafa. “Queríamos desmistificar a destilação e torná-la acessível”, explica Travis.
Os pequenos alambiques usados nas aulas foram fabricados em Águas Santas, reforçando a ligação à produção nacional. “Portugal tem uma longa história de destilação. Nós estamos apenas a torná-la mais acessível ao público.”
O conceito parece ter encontrado público. Turistas alemães, americanos, britânicos e, também portugueses, passam regularmente pela destilaria à procura de experiências ligadas à gastronomia e à produção artesanal. “Hoje, as pessoas querem viver experiências quando viajam”, afirma.
A própria cidade do Porto já integra a destilaria na sua oferta turística oficial, classificando-a como “a primeira destilaria urbana de Portugal” e “a primeira escola de gin do país”.
A localização, os cães da casa e o ritmo português
O encontro com o atual edifício aconteceu por acaso, durante um passeio junto ao Mercado da Corujeira. Havia um aviso de arrendamento na fachada. “Foi um feliz acaso”, resume o australiano.
Hoje, Travis defende Campanhã com entusiasmo. Considera que a zona vive uma transformação silenciosa, marcada por novos investimentos, melhorias urbanísticas e um crescente interesse cultural. “Muitas pessoas que viveram toda a vida no Porto nunca tinham vindo a esta parte da cidade. E ficam surpreendidas quando percebem como é bonita.”
A poucos metros do Estádio do Dragão, clube do qual se assume adepto, a destilaria criou também uma edição especial ligada ao FC Porto. A “Legends Edition” presta homenagem ao clube e às suas figuras históricas.
Há ainda outro detalhe impossível de ignorar para quem entra na Scoundrels: Pipoca e Eleven, os dois cães da destilaria. Ambos foram adotados por Travis em abrigos de cães abandonados, em Portugal, e são os anfitriões ideais. “Toda a gente os quer levar para casa”, brinca Travis.
Depois de viver em vários países, o australiano diz ter encontrado em Portugal algo raro: tempo. “Aqui tudo é mais lento, mas no bom sentido”, afirma. Fala da importância do café, das refeições demoradas e da proximidade humana.
E talvez seja precisamente isso que a Scoundrels procura refletir: uma destilaria artesanal onde a produção leva tempo, as experiências são feitas sem pressa e o Porto surge não apenas como cenário, mas como ingrediente essencial.
Para Travis Cunningham, o desafio agora passa por convencer portugueses e turistas a olharem mais para aquilo que é produzido localmente. “Portugal já adora gin”, diz. “Agora precisamos de menos marcas internacionais e mais marcas portuguesas.”