Entre cornetas, apitos e palavras de ordem: milhares marcharam até São Bento contra o pacote laboral
Milhares de trabalhadores marcharam esta quarta-feira, 3 de junho, do Rossio até à Assembleia da República para contestar o novo pacote laboral do Governo. Entre professores, enfermeiros, assistentes operacionais, trabalhadores precários, jovens desempregados e reformados, repetia-se a mesma preocupação: perder direitos laborais conquistados ao longo de décadas.
Quando o Conta Lá chegou ao Largo de São Domingos, por volta das 14h30, a concentração já enchia grande parte do espaço. Dezenas de sindicatos preparavam-se para iniciar a marcha rumo a São Bento enquanto cornetas, apitos e palavras de ordem se faziam ouvir por toda a praça. O calor apertava, mas não parecia abrandar a mobilização. Pelo contrário. Entre bandeiras erguidas e cartazes com mensagens como “Não damos a mão ao pacote do patrão” ou “Pais e mães exaustos, crianças esquecidas”, sentia-se um ambiente de união entre trabalhadores de diferentes setores e gerações.
Marcharam, então.
À medida que o cortejo avançava pelas ruas de Lisboa, os testemunhos multiplicavam-se. Para muitos dos manifestantes, esta não era apenas uma contestação a medidas concretas. Era a perceção de que direitos considerados adquiridos podem estar em risco.
Mónica Duarte, assistente operacional e dirigente do Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (STOP), descreveu a proposta como um verdadeiro “pesadelo laboral”. Entre as medidas que mais a preocupam está a possibilidade de restringir a atividade sindical e a participação dos trabalhadores nos locais de trabalho.
“Se estamos na rua, se estamos a reclamar, não é porque não temos mais nada que fazer; é porque é mesmo importante estarmos na rua, dar a nossa opinião e fazer as pessoas perceberem o que está mal”, afirmou.
A sindicalista disse preocupar-se com praticamente todas as medidas em discussão. “O direito à greve preocupa-me bastante. A parte de podermos fazer horas extra e depois não sabermos quando as vamos gozar também. E é ridículo as mães que estão a amamentar terem de ir de seis em seis meses provar que estão a amamentar.”
Para Mónica Duarte, a única solução aceitável passa por travar a aprovação do diploma. “Se não lutarmos agora, depois vamos correr atrás do prejuízo e o prejuízo, se calhar, não vai ser tão fácil de reverter.”
A mesma preocupação surgiu nas palavras de André Pestana, professor e dirigente nacional do STOP. O docente acredita que os efeitos das alterações propostas não se limitarão às relações laborais, acabando por atingir também a escola pública e os próprios alunos.
“Temos milhares de alunos ao longo do ano sem professor a uma ou mais disciplinas. Temos falta de assistentes operacionais e falta de psicólogos. São as crianças e os nossos alunos que estão a ser esquecidos”, lamentou.
Mas é sobretudo uma das propostas do diploma que o leva a falar num retrocesso grave. “Mesmo que o tribunal demonstre que foram despedidos injustamente, o patrão não é obrigado a readmitir o trabalhador. Isso é gravíssimo.”
Jovens preocupados com um futuro cada vez mais precário
Entre os milhares de participantes, havia muitos jovens. Alguns ainda procuram entrar no mercado de trabalho, outros já conhecem a realidade da precariedade. Apesar das diferenças, as preocupações são semelhantes.
Gabriel, de 24 anos, trabalha como empregado de mesa e admite olhar para o futuro com inquietação. “Vejo o meu futuro muito precário neste momento, especialmente sendo já um trabalhador precário”, confessou.
A poucos metros dali, Bruno Pinto, de 20 anos e atualmente desempregado, apontava para outra consequência das alterações propostas. “Não termos um contrato efetivo prejudica imenso. Não só no direito à habitação, mas também porque não temos estabilidade financeira na nossa vida e profissional também.”
A preocupação é partilhada por Renata Cambra, professora de português com 34 anos, e dirigente do Movimento Alternativa Socialista (MAS). Para a docente, as alterações representam um passo atrás num momento em que milhares de trabalhadores já enfrentam dificuldades para construir uma vida estável.
“O facto de passar a ser possível despedir um trabalhador sem justa causa e a empresa não ser obrigada a reintegrar esse trabalhador devia alarmar-nos a todos”, defendeu.
Renata Cambra considera que o país deveria estar a seguir precisamente o caminho oposto. “Hoje em dia já temos muita dificuldade com a precariedade e com o acesso à habitação. Este pacote laboral só vem trazer salários mais baixos, mais precariedade e mais incerteza em relação aos nossos vínculos laborais, quando nós deveríamos estar a fazer exatamente o contrário.”
E deixou ainda um aviso para o futuro:“Se já fizemos uma greve geral de um dia, se calhar para a próxima tem de ser de três. O que nós sabemos é que este pacote laboral não pode passar.”
Mães, enfermeiras e trabalhadores exaustos
Ao longo da tarde houve um tema que regressou repetidamente às conversas: a dificuldade em conciliar trabalho e vida familiar.
Lúcia Nunes, de 44 anos, trabalhadora do setor digital em regime de recibos verdes, participou na manifestação acompanhada pelo filho. Conta que conhece bem as dificuldades enfrentadas por muitas mães trabalhadoras. “Quando temos filhos começamos logo a ser um problema para as empresas”, lamentou.
Depois de lhe terem proposto abandonar o regime remoto para trabalhar presencialmente por um salário que considerava insuficiente, recusou. “Eu bati com a porta e arranjei outras opções. O meu filho é prioridade.”
A questão da conciliação entre vida profissional e familiar surgiu também nas palavras de Sónia Viegas. Enfermeira, chegou à manifestação depois de uma noite inteira de trabalho.
“Trabalhei a noite toda e fiz greve”, contou. A profissional de saúde criticou particularmente as alterações relacionadas com o banco de horas. “Significa trabalhar mais com menos dinheiro. Significa menos tempo com a família, menos tempo pessoal.”
Para Sónia Viegas, o problema vai muito além da gestão dos horários. “Não é admissível estarmos no século XXI a lutar por direitos conquistados há muitos anos. Este pacote é para os patrões. Não há nada de positivo para os trabalhadores.”
Ao seu lado, Cidália Antunes, enfermeira com 37 anos de profissão, aproveitou para deixar um alerta sobre a situação dos profissionais de saúde. “É mais uma coisa que a Assembleia tem continuamente votado contra: a profissão de risco dos enfermeiros”, lamentou. E deixou um aviso direto. “A população e o Governo têm que se convencer que, se não cuidarem dos profissionais, ninguém vai cuidar deles.”
“Este pacote laboral só tem um caminho: ir para o lixo”
A manifestação juntou também quem participou em muitas das lutas laborais das últimas décadas. Francisco Alves, antigo dirigente sindical da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) e atualmente reformado, olha para as alterações propostas pelo Governo com profunda preocupação.
“Este pacote laboral é de uma violência extrema para os trabalhadores e para a sociedade em geral”, afirmou. Na sua perspetiva, os mais afetados serão os jovens trabalhadores. “Aumenta a precariedade imensamente, baixa salários e ataca pensões.”
Francisco Alves rejeita ainda o argumento da competitividade utilizado pelo Governo para justificar as alterações. “Qualquer reforma laboral que já foi feita veio sempre com a mesma conversa: o aumento da competitividade. Isso não existe. A competitividade não é por aí.”
Quando questionado sobre o destino que gostaria de ver reservado ao diploma, respondeu sem hesitar: “Este pacote laboral só tem um caminho: ir para o lixo.”
A Grândola que encerrou a marcha
À medida que o cortejo se aproximava da Assembleia da República, os cânticos continuavam a ecoar pelas ruas da capital. O percurso decorreu de forma tranquila, mas sempre marcado pelo som constante das cornetas, pelas palavras de ordem e por uma forte adesão ao longo de toda a tarde.
Já em São Bento, milhares de manifestantes concentraram-se para ouvir a intervenção final do secretário-geral da CGTP.
No discurso dirigido à multidão, Tiago Oliveira voltou a exigir a retirada imediata do pacote laboral e garantiu que a luta continuará nos próximos dias. Mais tarde, em declarações aos jornalistas, acusou o Governo de ignorar os sinais deixados pelos trabalhadores.
“O Governo tem que deixar esta linha de arrogância, tem que ser mais humilde e tem que olhar para aquilo que são os problemas concretos que vivem os trabalhadores”, afirmou.
O dirigente sindical insistiu que os trabalhadores não procuram apenas travar as alterações à legislação laboral. “Querem derrotar este pacote laboral, mas também querem a valorização dos salários, querem o combate à precariedade e querem conciliar melhor a vida pessoal com a vida profissional.”
Tiago Oliveira anunciou ainda novas ações de luta para 18 de junho, data em que o diploma deverá ser discutido no Parlamento.
Já não havia discursos quando a tarde começou a cair sobre São Bento. Restavam milhares de pessoas, bandeiras erguidas e vozes unidas. A manifestação encerrou ao som de ‘Grândola, Vila Morena’, de Zeca Afonso, e, quando a última estrofe terminou, a praça voltou a encher-se de palavras de ordem.
“25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, repetiam os manifestantes.
A marcha chegara ao fim. A contestação, garantiram muitos dos trabalhadores que participaram no protesto, está apenas a começar.