Escondido à vista de todos

Carla Lourenço é doutorada em Biologia Marinha e Comunicadora de Ciência e é a autora deste artigo para o Conta Lá.

Carla Lourenço
Carla Lourenço Doutorada em Biologia Marinha e Comunicadora de Ciência
12 jan. 2026, 13:00

Quando em 2011 me deparei com um grande ponto alaranjado no meio de um tapete de mexilhões azuis, que cobriam uma pequena rocha rasteira na Praia de Vilamoura, no Algarve, não poderia prever o que estava prestes a descobrir. Mas esta história não começa comigo de botas de mergulho nos pés e uma pracheta branca, na mão, para tirar notas. Nem com o André, que me acompanhou em campo nessa manhã veranil. 

Corria o ano de 1898 quando, por ordem do rei D.Carlos, decorreu no Algarve uma campanha oceanográfica dedicada a estudar a pesca do atum. O Iate Amélia II percorreu, então, a costa sul portuguesa para estabelecer, pela primeira vez, a relação entre a migração do atum e as mudanças de temperatura no oceano. Sendo El Rey um grande entusiasta do meio marinho, foi sem surpresa que a expedição científica rapidamente abraçou outros interesses, nomeadamente o de identificar as várias espécies marinhas que habitavam a costa portuguesa. Uma das espécies descritas durante a campanha foi reportada pela última vez em 1938. Depois disso, não se encontraram mais registos. Nem no Algarve, nem no resto do país. Apesar das várias expedições feitas ao longo de várias décadas. E sem registos, a espécie acabou esquecida, como se nunca tivesse existido na nossa costa. Até 2011. 

Passaram-se 73 anos até a espécie ser (re)encontrada num pequeno rochedo em Vilamoura, poucos meses depois de eu ter começado a minha tese de mestrado em biologia marinha na Universidade do Algarve, onde estudava as causas de morte de mexilhões azuis. Umas semanas depois encontrei a espécie também na Ilha do Farol. E, mais tarde, na Iha de Tavira. Percorri o Algarve de lés-a-lés e percebi que a espécie se estendia para a costa espanhola a leste, mas não passava o cabo de São Vicente, em Sagres, para norte. Decidi abandonar o estudo dos mexilhões azuis e abraçar um novo desafio. Fiz as malas e o passaporte e parti para o norte de África, para conhecer melhor a misteriosa espécie: o mexilhão castanho. 

Nas praias rochosas marroquinas, os tapetes de mexilhões que fui encontrar não são de um tom quase monocromático como os que investiguei pela primeira vez no litoral alentejano com dois anos. Azulados nas rochas mais altas, os tapetes marroquinos passam suavemente a um castanho caramelo à medida que nos aproximamos da água. Essa tonalidade é dada pelos vários milhares de mexilhões castanhos - que em latim chamamos Perna perna - e que encontramos um pouco por todo o continente africano. 

As águas quentes que banham o litoral marroquino fazem dele um dos locais de eleição desta espécie de mexilhão. E foi precisamente a temperatura da água – mais quente no sul de Portugal –  que permitiu que a espécie se estabelecesse no Algarve, depois de chegar trazida pelas correntes. Viveu nas sombras do mexilhão azul Mediterrânico durante décadas e passou despercebida a vários biólogos e investigadores – inclusivamente aos meus orientadores que patrulhavam a costa algarvia com frequência. (Acredito que antes de mim, alguns pescadores ou mariscadores tenham encontrado um ou outro exemplar, que julgaram não ser digno de um estudo mais aprofundado.) 

O aumento da temperatura do mar na costa Algarvia criou as condições ideais para que o mexilhão castanho se permitisse ficar e crescer. Sabemo-lo porque os anteriores registos da presença da espécie, que remontam ao cruzeiro oceanográfico de D. Carlos, mas também ao século XII e a antigos concheiros com milhares de anos, coincidem com o aumento da temperatura da água do mar na nossa costa. Quando as águas são quentes, o mexilhão castanho é encontrado no Algarve. Quando as águas arrefecem, a espécie deixa de ser detetada. O facto de o mexilhão castanho não passar para lá de Sagres veio dar força a esta nossa teoria. Ao dobrar o Cabo de São Vicente as águas são mais frias e indesejáveis para que a espécie cresça de forma saudável. 

Se a temperatura da água do mar continuar a aumentar no Algarve, veremos sem surpresa mais mexilhões castanhos a despontarem por entre os mexilhões azuis, como pequenas estrelas num céu escuro. Não há motivo para alarme - no que toca à presença desta espécie na nossa costa. Há milhões de anos que mexilhões castanhos e azuis coexistem tranquilamente nas rochas africanas. Por aqui, não se espera que seja diferente. Talvez esta seja não só uma lição de ciências, mas também de humanidade.