Especialistas denunciam falhas na proteção de menores em contextos de violência doméstica

Especialistas alertaram que, na prática, as crianças continuam sem ser reconhecidas como vítimas de violência doméstica, apesar da lei prever a sua proteção. Algumas organizações defendem a formação especializada e mecanismos claros de intervenção para garantir segurança e proteção imediata. 
Agência Lusa
Agência Lusa
20 mar. 2026, 18:15

Especialistas alertaram esta sexta-feira para o facto de as crianças continuarem, na prática, sem ser reconhecidas como vítimas de violência doméstica, denunciando falhas graves no sistema de proteção e na articulação entre justiça, escolas e serviços de apoio.

Numa audição conjunta na subcomissão para a Igualdade e Não Discriminação, sobre várias iniciativas partidárias sobre violência doméstica, representantes de várias organizações apontaram que, apesar de a lei prever a proteção de menores expostos à violência, essa realidade não se traduz na prática, deixando crianças desprotegidas e invisíveis no sistema.

A advogada da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), Ana Leonor Marciano, foi perentória ao afirmar que “as crianças não são reconhecidas como vítimas de violência doméstica na prática”, apesar de a legislação o prever, denunciando um “vazio” na aplicação das normas e ausência de orientações claras para os profissionais.

Segundo a jurista, a falta de metodologias uniformes, nomeadamente na audição de crianças, e a fraca articulação entre processos de regulação das responsabilidades parentais e processos-crime contribuem para essa desproteção, mantendo menores expostos a contextos de violência.

Também Mafalda Ferreira, da Associação Plano i, destacou que os processos judiciais continuam a decorrer em paralelo sem ligação efetiva, o que dificulta a proteção das crianças, sublinhando que “uma pessoa agressora não pode ser um bom pai ou uma boa mãe”.

A responsável alertou ainda que a violência no namoro e outros comportamentos em idades precoces são preditores da violência doméstica na vida adulta, defendendo uma intervenção centrada na prevenção desde a infância e na educação para a igualdade.

Já Margarida Martins, da Associação de Mulheres Contra a Violência, considerou que o país continua a falhar na proteção de crianças, apontando para a ausência de respostas estruturadas e especializadas, bem como para o impacto profundo da violência no desenvolvimento infantil.

A dirigente sublinhou que “não há criança que não esteja traumatizada” quando exposta a contextos de violência, direta ou indiretamente, alertando para consequências duradouras na saúde física e mental e para o aumento de fenómenos como o abuso sexual, incluindo em ambiente digital.

Segundo a responsável, os dados internacionais indicam um agravamento da situação, defendendo maior intervenção nas escolas e políticas públicas que reconheçam o impacto da violência sobre crianças e jovens.

Por sua vez, a representante do movimento Feministas em Movimento denunciou a forma como o sistema continua a tratar as crianças, olhando para elas como “elementos secundários nos processos”, mesmo em casos de violência doméstica, mantendo regimes de visitas e decisões judiciais que ignoram o risco.

As ativistas criticaram ainda a normalização da violência e a responsabilização das vítimas, incluindo menores, defendendo que o Estado falha na aplicação das leis existentes e na proteção efetiva de mulheres e crianças.

Entre os pontos comuns das várias intervenções está a necessidade de reconhecer plenamente as crianças como vítimas, garantir a sua proteção imediata e assegurar uma resposta articulada entre justiça, serviços sociais, escolas e forças de segurança.

As organizações defendem ainda formação especializada obrigatória para profissionais, investimento na prevenção e a criação de mecanismos claros e uniformes de atuação, alertando que a atual situação contribui para perpetuar ciclos de violência entre gerações.